
Quem governa hoje o Médio Oriente?


A influência no Médio Oriente deixou de medir-se pela simples capacidade dos Estados de imporem a sua dominação militar ou política; está hoje indissoluvelmente ligada à sua aptidão para edificar cidades atractivas e formular narrativas convincentes. Neste movimento, cidades como Riade, Dubai e Doha impõem-se como novos centros de gravidade, enquanto recuam os Estados incapazes de produzir uma cidade verdadeiramente eficaz ou um discurso coerente. Entre a economia e os meios de comunicação, um modelo de governação inédito toma forma, colocando uma questão fundamental: quem governa verdadeiramente?
Neste contexto, a cidade deixou de ser um simples espaço urbano ou um centro administrativo para se tornar um instrumento político de pleno direito. A sua ascensão não pode compreender-se apenas pelo prisma do crescimento económico; remete para algo mais profundo, para uma redefinição do próprio poder. As cidades já não se constroem apenas para acolher populações, mas para servirem de plataformas de influência transfronteiriças, capazes de atrair investimentos, captar competências e afirmar a sua presença na economia mundial. São cidades que rivalizam com Estados, que se apresentam como modelos de estabilidade e abertura numa região há muito associada ao conflito e à incerteza. Neste sentido, a cidade torna-se a montra do Estado, e mesmo o seu substituto em certos contextos, onde o sucesso se afere pela capacidade de atracção mais do que pela de dominação, pela produção mais do que pelo discurso.
Mas o poder urbano e económico não basta por si só. Toda a cidade necessita de uma narrativa que legitime a sua ascensão e lhe confira sentido. Os meios de comunicação deixaram de ser simples vectores do real: tornaram-se seus coprodutores. As plataformas digitais, os canais informativos e até os influencers contribuem para construir uma imagem coerente — a de cidades modernas, estáveis, capazes de conduzir o futuro. Estas narrativas não se dirigem apenas ao exterior; reconfiguram igualmente a consciência interior, convertendo-se num instrumento de redefinição da legitimidade. A questão já não é saber quem detém o poder, mas quem detém a capacidade de definir o real. E quem consegue impor a sua narrativa consolida a sua posição, mesmo que os factos sejam bem mais complexos do que a imagem que deles oferece.
O que é notável neste modelo é que dissolve as fronteiras entre economia e meios de comunicação. As cidades emergentes não se contentam com investir em infra-estruturas; investem com igual cuidado na imagem que projectam de si mesmas. Os grandes projectos, os eventos internacionais e a abertura económica não são apenas instrumentos de desenvolvimento, são também instrumentos narrativos. Servem para produzir uma história coerente de sucesso, apresentada ao mundo como uma realidade e, no interior, como uma via sem alternativa. Neste sentido, o soft power torna-se o prolongamento directo do poder económico, e a narrativa um activo estratégico que em nada cede em importância aos recursos materiais.
Esta transformação suscita uma questão legítima sobre a natureza deste poder: estamos perante um poder real, ou perante um poder cuidadosamente construído? A verdade é que a distinção entre ambos já não é sustentável. A narrativa não funciona sem um enraizamento na realidade, mas é igualmente capaz de reenquadrar essa realidade, de a amplificar, ou mesmo de a simplificar ao serviço de objectivos políticos. A narrativa já não se limita a reflectir o real: reproduz-o. O que se apresenta como sucesso pode muito bem ser uma combinação de realizações autênticas e de uma gestão hábil da imagem.
Face a este quadro, o Líbano parece fora da equação. Beirute, que foi outrora um centro regional dos meios de comunicação, da cultura e da economia, perdeu progressivamente a sua capacidade de desempenhar esse papel. A cidade já não consegue atrair investimentos, nem produzir um modelo digno de ser seguido, nem sequer apresentar-se como um espaço de estabilidade relativa. Mas a perda mais profunda não reside neste recuo de papel: está na ausência de narrativa. Já não existe um discurso libanês coerente capaz de explicar o que se passa nem de oferecer uma visão do futuro, apenas narrativas contraditórias que reflectem uma fractura mais profunda na estrutura do Estado e da sociedade. Numa época em que a região se governa através de cidades e narrativas, o Líbano encontra-se sem cidade eficaz e sem narrativa capaz de competir.
À luz destas transformações, responder à questão de quem governa hoje o Médio Oriente já não tem nada de evidente. Continuará o Estado a ser o actor central, ou tornaram-se as cidades, sustentadas por um poder económico e por narrativas coerentes, o factor de influência mais determinante? A resposta talvez não seja ainda definitiva, mas uma coisa é certa: os equilíbrios deslocam-se, e a influência já não se mede apenas pelos instrumentos tradicionais de que os Estados dispõem, mas pela sua capacidade de produzir modelos susceptíveis de convencer.
No Médio Oriente de hoje, não basta existir. Não basta dispor de recursos ou de uma posição geográfica. O poder real reside na capacidade de produzir uma cidade que atraia e uma narrativa que convença. E quem falha nisso encontra-se fora do jogo, ainda que permaneça presente no mapa. Na era das cidades emergentes e das narrativas em competição, a influência já não é apenas uma questão de controlo, mas uma questão de sentido.