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O Essencial do Dia

Escalada persistente entre os Estados Unidos e o Irã em torno do Estreito de Ormuz

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Iraquianos em luto participam do cortejo fúnebre do falecido líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, no santuário do Imam Hussein em Kerbala, na manhã de 9 de julho de 2026. (AFP)
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Por Taline Becharraoui
Publicado jul 9, 2026 - 23:10

O nível de tensão vinha aumentando gradualmente havia vários dias entre americanos e iranianos, em meio aos disparos iranianos contra navios que atravessavam o Estreito de Ormuz.

E o pior cenário se concretizou na madrugada de quarta para quinta-feira: os Estados Unidos lançaram intensos ataques contra o Irã, como havia ameaçado na véspera o presidente americano Donald Trump.

O Irã, fiel à sua estratégia habitual, respondeu lançando mísseis contra vários países do Golfo, entre eles Bahrein, Kuwait e Catar, acrescentando desta vez a Jordânia à lista de alvos. O país interceptou dez mísseis disparados em direção ao seu território por volta do meio-dia. Trata-se de uma escalada significativa.

Os ataques americanos em território iraniano foram os mais intensos dos últimos meses. A província de Bushehr, em especial, foi alvo de mísseis que atingiram a área do complexo nuclear localizado na região, segundo a imprensa iraniana.

Um representante da província negou, no início da tarde, que a ilha de Kharg, por onde passa a maior parte das exportações de petróleo iraniano, tenha sido atingida.

O Comando Central dos Estados Unidos anunciou, em comunicado publicado no X, que até a manhã de quinta-feira havia atingido cerca de 90 alvos militares no Irã.

O regime iraniano informou que, nos últimos dois dias, houve 14 mortos e 78 feridos, e acusou os Estados Unidos de cometer crimes de guerra devido ao que classificou como “ataques contra infraestruturas civis”, citando especificamente pontes e a ferrovia que leva à cidade de Mashhad.

A retórica acompanhou o agravamento das tensões no terreno, desta vez por meio do principal negociador iraniano, o presidente do Parlamento, Mohammad Ghalibaf.

Ele declarou que “o Estreito de Ormuz só será reaberto nos termos definidos pelo Irã, e não sob a pressão das ameaças americanas”. De fato, o estreito permaneceu fechado na quinta-feira devido às tensões, refletindo uma postura iraniana inalterada.

Nada indicava, na quinta-feira, que a tensão diminuiria ou que as negociações seriam retomadas em breve, embora Donald Trump tenha afirmado ao longo do dia que “os iranianos ligaram e querem fechar um acordo”, acrescentando que já não confia “na disposição deles de cumprir qualquer acordo”.

Os mediadores do Paquistão e do Catar intensificaram os esforços para pedir uma volta à calma. Mas, de modo geral, os iranianos parecem bastante isolados.

Em sintonia com as declarações feitas na véspera pelo secretário-geral da Otan, Mark Rutte, que considerou indispensável manter firmeza diante do regime iraniano, o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, afirmou nesta quinta-feira que foi o Irã quem violou o acordo com os Estados Unidos e que suas “manobras” devem cessar para que as negociações possam prosseguir.

Enquanto isso, os iranianos deram continuidade à demonstração de força representada pela interminável cerimônia fúnebre do líder supremo assassinado, Ali Khamenei, e de sua família.

Os caixões chegaram a Mashhad ao longo do dia para o sepultamento, um acontecimento parcialmente ofuscado pelos ataques americanos. Ainda assim, multidões compareceram ao local, entoando palavras de ordem belicosas e conclamando ao assassinato de Trump.

Os israelenses, aliados dos americanos durante esta guerra contra o Irã, não comentaram oficialmente a nova escalada. No entanto, segundo informações divulgadas pela imprensa israelense, fontes do país afirmaram que o Exército continua preparado para enfrentar qualquer eventual ataque iraniano.

Movimentação diplomática intensa em Beirute

Como de costume, o Líbano repercute diretamente os acontecimentos da região. A capital libanesa foi palco de uma intensa movimentação diplomática nesta quinta-feira, marcada por uma série de visitas do embaixador dos Estados Unidos, Michel Issa, e por uma rodada de reuniões realizada por uma delegação iraniana.

A principal visita de Issa foi ao Palácio de Baabda, onde se reuniu com o presidente da República, Joseph Aoun, para entregar o convite oficial para sua visita a Washington, marcada para 21 de julho.

Na ocasião, também tratou da implementação do acordo-quadro firmado entre israelenses, libaneses e americanos, especialmente no que diz respeito ao mecanismo de retirada israelense das zonas piloto, onde as Forças de Defesa de Israel deverão ser substituídas pelo Exército libanês “sem deixar qualquer vazio”.

O principal anúncio foi a chegada, nos próximos dias, de uma delegação americana encarregada de supervisionar esse processo. Michel Issa também foi recebido pelo presidente do Parlamento, Nabih Berri, e pelo primeiro-ministro, Nawaf Salam.

No que diz respeito às negociações entre Líbano e Israel, as atenções estão voltadas para Roma, onde ocorrerão as próximas rodadas de conversas nos dias 15 e 16 de julho. A mudança de local gerou preocupação entre os libaneses, que temem um envolvimento menos efetivo dos Estados Unidos, já que as rodadas anteriores aconteceram em Washington.

Segundo o embaixador americano, a mudança não representa um menor comprometimento dos Estados Unidos, mas decorre apenas de questões logísticas.

Em resposta, Joseph Aoun pediu que Washington pressionasse Israel para que cumprisse os termos do acordo-quadro assinado com o Líbano em junho.

No terreno, o Exército israelense continua destruindo edifícios e túneis nas aldeias ocupadas.

A quinta-feira também foi marcada por uma declaração contundente do ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, em resposta às declarações feitas por Trump no dia anterior sobre a retirada israelense do Líbano.

“Não pedimos autorização a ninguém para entrar no Líbano e permaneceremos lá até que o Hezbollah seja desarmado”, afirmou.

O Hezbollah, por enquanto, não responde às operações israelenses. Fontes ouvidas pela imprensa manifestaram preocupação com uma possível nova escalada no sul do Líbano caso o Irã passe a enfrentar uma situação mais desfavorável em sua guerra contra os Estados Unidos.

A outra missão diplomática desta quinta-feira foi conduzida por uma delegação iraniana chefiada pelo vice-ministro das Relações Exteriores. Ela foi recebida pelo presidente do Parlamento, Nabih Berri, a quem reiterou o apoio do Irã ao Líbano.

Do vice-primeiro-ministro Tarek Mitri, os representantes iranianos ouviram declarações reafirmando a posição do Líbano contra qualquer ocupação ou ingerência estrangeira.

As declarações ecoam as feitas pelo ministro das Relações Exteriores do Líbano, Joe Rajji, que esteve em visita ao Chipre nesta quinta-feira. Ele voltou a afirmar que o Líbano precisa deixar de pagar o preço de guerras que não escolheu e que nenhuma parte deve voltar a monopolizar as decisões sobre guerra e paz, em uma clara referência ao Hezbollah.

Para os iranianos, os tempos realmente mudaram.

Nesse contexto, também merecem destaque as visitas do embaixador da Rússia ao presidente Joseph Aoun e ao ministro do Interior, Ahmad Hajjar.

Síria será retirada da lista americana de países patrocinadores do terrorismo

Outro fato marcante desta quinta-feira foi o anúncio do presidente americano de que pretende retirar a Síria da lista de países que apoiam o terrorismo.

Após o encontro entre Donald Trump e o presidente sírio Ahmad al Chareh, realizado na véspera na Turquia, à margem da cúpula da Otan, a medida representa a conclusão de um processo que poderá permitir ao novo governo sírio atrair mais investimentos e ampliar seu envolvimento internacional.

No Iraque, o desarmamento dos grupos armados e o combate à corrupção continuam avançando simultaneamente.

Uma descoberta inusitada ocorreu nesta quinta-feira: uma enorme quantia em dinheiro, proveniente do saque aos cofres públicos, foi encontrada dentro de uma tubulação de águas pluviais.

Também no Iraque, foi registrado um ataque contra um grupo de curdos iranianos opositores do regime, no Curdistão iraquiano.

Não é a primeira vez que esses grupos são alvo do regime de Teerã, que busca manter sua influência sobre o Iraque tanto quanto sobre o Líbano.

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