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A História de Rafael

As Origens, capítulo 3: o tempo dos espectros

I - O tempo da derrota, o tempo da resistência

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Retrato do autor
Por Nadim Tabet
Publicado jul 14, 2026 - 10:25

No segundo capítulo desta série de textos sobre a grande História e a história do meu filho, Raphaël, “O tempo da repetição, o tempo da aceleração”, tratava-se do retorno do discurso sobre a superioridade civilizacional, herdado do século XVI, e de sua adoção pelos promotores de uma nova civilização em que tecnologias, como a inteligência artificial, terão mais importância do que os seres humanos.

Mas, em sua conclusão, discretamente otimista, o texto voltava ao filme Magellan, de Lav Diaz, e à escolha do diretor de retratar a figura da resistência vitoriosa dos filipinos contra os conquistadores, Lapu-Lapu, como se fosse um espectro, e não um personagem que realmente existiu.

E essa força dos espectros diante dos dominadores me faz pensar no célebre texto de Jacques Derrida, Espectros de Marx, publicado após a queda do Muro de Berlim e a derrota do bloco soviético. Longe de fazer a apologia dos regimes comunistas, Derrida defendia a ideia de que, apesar da derrota, a exigência de justiça carregada pelo espírito de Marx continuaria a nos assombrar.

Se esse texto de Derrida volta à minha mente hoje, é também porque, como libaneses, vivemos um momento em que precisamos enfrentar duas derrotas potenciais e encontrar uma forma de resistir a elas.

A primeira diz respeito à chegada muito provável dessa civilização que apaga o ser humano em favor das máquinas. A segunda é mais local: trata-se da nossa derrota diante de mais uma invasão israelense ao nosso território.

Sei que falar em “derrota” aqui pode parecer contraintuitivo, num momento em que o acordo-quadro assinado entre o Líbano e Israel nos é vendido por alguns como aquele que trará paz e prosperidade. Mas, pessoalmente, enquanto Israel continua bombardeando o sul do Líbano, tenho dificuldade em compartilhar esse otimismo, sobretudo porque os sinais de um futuro conflito entre nós, libaneses, já começam a aparecer.

Como resistir a essas duas derrotas que fazem parte de um mesmo movimento de apagamento: o do ser humano em escala mundial e o de uma parte do Líbano em escala local?

Não sendo nem camisa vermelha, nem camisa marrom, e muito menos camisa amarela, a cor do Hezbollah, sinto-me órfão de discursos e de espectros prontos para serem usados na resistência contra esses dois riscos de apagamento.

E é para me sentir menos órfão que, nas linhas a seguir, gostaria de evocar seis espectros que me servem como manuais de resistência diante do risco de apagamento.

1. O espectro de Walter Benjamin: o Anjo da História

Se penso primeiro no espectro de Walter Benjamin, é porque foi, de certo modo, ele quem me deu a confiança necessária para iniciar a redação desta série de textos. Um esforço de retorno à História que não me parecia evidente no momento em que, sob as bombas, parecia mais urgente denunciar os horrores do presente.

Mas, em meio às minhas dúvidas, voltou à minha mente o último ensaio de Benjamin: Teses sobre o conceito de História.

Um ensaio escrito em 1940, ou seja, em pleno turbilhão da Segunda Guerra Mundial, da qual Benjamin acabaria sendo vítima por causa de sua religião judaica. E, pessoalmente, não consigo deixar de ver um sinal no fato de que seu último ato de resistência diante da barbárie nazista tenha sido voltar-se para a noção de História.

Sem entrar nos detalhes desse ensaio, limito-me a mencionar sua célebre descrição da pintura Angelus Novus, de Paul Klee, na qual Benjamin projeta sua visão da História.

Uma visão oposta à ideia otimista de uma marcha contínua da História rumo ao progresso. Nessa pintura, Benjamin vê um anjo voltado para o passado, empurrado inexoravelmente para o futuro pelo progresso, enquanto gostaria de permanecer contemplando a catástrofe diante de si e reparar aquilo que foi destruído.

Embora se trate de uma interpretação livre da obra, Benjamin projeta nela sua visão da tarefa do historiador resistente, que consiste em salvar do esquecimento a luta inacabada dos vencidos, cujo significado costuma ser apagado pela História oficial, a dos vencedores e dos idólatras do progresso.

Nem é preciso dizer o quanto essa atenção ao sentido da luta dos derrotados ressoa de forma especial num momento em que nossa História coletiva está cada vez mais submetida à seleção dos algoritmos e em que, no Líbano, já surgem reescritas da História feitas por nossos ocupantes. Penso, entre outras coisas, na recente declaração de Netanyahu, segundo a qual aldeias cristãs libanesas desejariam ser anexadas a Israel.

Mas, para que essa atenção à memória dos vencidos seja possível, é preciso, antes de tudo, não ter sido indiferente.

2. O espectro de Antonio Gramsci: a indiferença

Sei que isso já se tornou um lugar-comum, mas a questão da indiferença me parece essencial porque, numa época como a nossa, dominada pela proliferação de imagens, ninguém está livre de se tornar indiferente. Refiro-me, evidentemente, à nova forma de padronização de nossos comportamentos representada pelo scroll compulsivo, em que todas as imagens acabam colocadas no mesmo nível, já que, em uma fração de segundo, podemos passar de imagens da destruição do sul do Líbano para as férias de um amigo ou para imagens falsas geradas por inteligência artificial.

E, se o segundo espectro que convoco é o de Antonio Gramsci, cuja vida oscilou entre derrota e resistência, já que grande parte de sua obra foi escrita na prisão, é justamente por suas reflexões sobre a noção de “indiferença”.

Uma reflexão desenvolvida em um breve texto, Odeio os indiferentes, publicado em 1917, pouco antes da criação do Partido Comunista Italiano.

Também aqui, sem fazer um comentário detalhado do texto, limito-me a destacar uma de suas ideias centrais: para Gramsci, a indiferença não é um ato passivo, mas uma colaboração silenciosa com as tragédias que marcaram a História, como a ascensão do fascismo em sua época.

É essa constatação que o leva a escrever, logo no início do texto: “A indiferença é o parasitismo, é a covardia, não é a vida”, para concluir afirmando que, se está “vivo”, é porque toma partido.

Embora eu não vá a ponto de dizer que “odeio” os indiferentes, pois desconfio dos julgamentos definitivos sobre as pessoas, sua reflexão me toca profundamente porque me faz compreender que, em minha recusa obstinada de ser indiferente às loucuras de Netanyahu e dos gurus da tecnologia, existe uma vontade de permanecer vivo. Uma vontade de não permitir que meu espírito seja colonizado por essa padronização que tende a colocar todas as imagens no mesmo plano.

3. O espectro de Pasolini: os vaga-lumes

Se o terceiro espectro que me assombra é o de Pier Paolo Pasolini, não é apenas porque ele prestou homenagem a Gramsci em sua coletânea As Cinzas de Gramsci, mas sobretudo porque dedicou grande parte de sua obra a denunciar a colonização das consciências pela padronização imposta pela sociedade de consumo, ainda nascente em sua época.

Uma denúncia que atravessou toda a sua obra, até chegar ao célebre Artigo dos Vaga-lumes, publicado em 1975, pouco antes de seu assassinato.

Nesse artigo, Pasolini observa o desaparecimento progressivo dos vagalumes no campo italiano, dizimados pela poluição industrial, para transformá-los em metáfora de uma humanidade autêntica em processo de desaparecimento, substituída pelas luzes artificiais da televisão, do consumo e do espetáculo. As mesmas luzes artificiais que, sob outra forma, hoje brilham nas telas de nossos smartphones.

E, se em suas obras Pasolini demonstrou tanto afeto pelos marginalizados e pelos derrotados dessa sociedade, foi justamente porque via neles essa mesma luz frágil, a dos vagalumes que Dante situava no coração das trevas, em oposição à grande luz do Paraíso.

Essa forma de poetizar os derrotados, transformando-os em figuras de resistência, toca-me profundamente porque, diante dos repetidos infortúnios que vivemos como libaneses, não consigo deixar de nos ver como vagalumes vagando pelas trevas.

O problema é que Pasolini, em seu artigo, anunciava em tom derrotista o provável desaparecimento desses vagalumes. E não consigo deixar de me perguntar como nós, que nos parecemos com eles, ainda podemos encontrar forças para sobreviver diante do risco de apagamento representado pela invasão israelense e pela nova fase da sociedade do espetáculo, que tenta nos vender, de maneira lúdica, um mundo em que as armas em breve serão controladas por inteligências artificiais.

4. O espectro de Nietzsche: o Convalescente

Sem negar que o pensamento de Nietzsche possa ser apropriado, com razão, pela extrema direita, se convoco seu espectro é justamente porque a questão central de sua obra poderia, retomando os termos deste texto, ser formulada assim: como continuar afirmando a vida quando tudo parece conduzir à derrota?

Se essa questão ocupa um lugar tão central em sua obra, isso se deve, antes de tudo, a uma razão biográfica: Nietzsche foi um homem gravemente enfermo, frequentemente abatido por enxaquecas incapacitantes e problemas de visão que às vezes o deixavam quase cego.

Mas sua doença esteve longe de permanecer como uma simples curiosidade biográfica. Ela marcou sua obra tanto na forma, já que a escrita em aforismos lhe foi imposta por essa condição, quanto no conteúdo. Basta observar a quantidade de referências à doença em obras como Humano, Demasiado Humano ou Ecce Homo, onde afirma: “Foi preciso a doença para me fazer voltar à razão.”

Essa maneira de transformar a doença no ponto de partida para uma transformação de si também aparece em Assim Falou Zaratustra, no célebre capítulo “O Convalescente”. Nele, Zaratustra, devastado pelo pensamento do eterno retorno e pela ideia de que tudo o que existiu voltará, desaba e permanece enfermo durante sete dias. Depois, levanta-se transformado, capaz de dizer sim à existência.

E, se essa figura do convalescente fala tanto comigo, é porque, paralelamente à imagem dos vagalumes, sempre enxerguei o Líbano como um país de mortos-vivos. Ou, para ser mais preciso, um país em que se passa da vida para a morte e da morte para a vida em uma fração de segundo. Daí essa imagem que nos acompanha de um país onde a festa pode atingir seu auge logo depois de um período de conflitos.

Alguns chamam isso de resiliência libanesa. Quanto a mim, quando passo das trevas da nossa Grande História para uma aparência de vida normal, é mais como um convalescente que me reconheço.

Talvez seja por isso que tenho um carinho especial pela célebre frase de Nietzsche: “Sem música, a vida seria um erro.” Porque, mais de uma vez, foi graças à música, e isso também vale para minha geração, que consegui transformar a raiva em afirmação da vida.

5. O espectro de Kurt Cobain: a música da raiva

Embora a vida de Kurt Cobain possa parecer contradizer a figura do convalescente nietzschiano, já que ele se suicidou em 1994, convoco seu espectro, antes de tudo, porque sua carta de despedida pode, curiosamente, ser lida como um manifesto contra o apagamento, ao retomar o famoso verso de uma canção de Neil Young: “It’s better to burn out than to fade away.”

Mas também, e sobretudo, porque, após a guerra civil libanesa, “encerrada” em 1990, a raiva expressa em sua música tornou-se o hino da minha própria raiva e da de toda uma geração de jovens libaneses.

É claro que a raiva de Kurt Cobain não estava ligada ao fim de uma guerra. Ela derivava da última forma de niilismo, retomando um tema caro a Nietzsche, nascida da vitória americana sobre o bloco soviético. Uma vitória que decretou o fim de qualquer forma de utopia para impor ao mundo um único valor, muito bem representado na famosa capa do álbum Nevermind: a busca pelo dólar.

Mas, apesar dessa diferença de contexto, se músicas como Smells Like Teen Spirit foram adotadas por minha geração, foi porque funcionavam como uma forma de catarse, transformando nossa infância vivida sob as bombas em uma energia capaz de nos colocar novamente em movimento.

Uma energia da qual voltamos a precisar hoje e que me levou, naquela época, assim como a vários jovens de Beirute, a formar bandas inspiradas no estilo do Nirvana. E, por mais curioso que isso possa parecer, nossos shows, organizados por um coletivo chamado “Geração X”, aconteciam no subsolo de uma igreja no centro da cidade, que ainda carregava as marcas da guerra recém-encerrada.

Como os roqueiros desse coletivo convenceram o padre da igreja a ceder aquele porão para que aquela juventude pudesse gritar ali sua raiva? Gostaria, um dia, de desenvolver um projeto sobre esse período para encontrar essa resposta e poder reencontrar esse território que era aquele tempo. Porque, sim, o tempo pode ser um território.

6. O espectro de Frederico II Hohenstaufen: a corte de Palermo

Mais do que a noção de derrota ou de resistência, é uma utopia que gostaria de evocar por meio deste último espectro. Uma utopia para o Líbano em forma de território: a corte de Palermo no século XIII, durante o reinado do imperador Frederico II Hohenstaufen.

Apelidado de “o Espanto do Mundo”, ele também foi chamado de “Anticristo” por ter sido excomungado duas vezes pelo papa de sua época. E, no contexto deste texto, não consigo deixar de ver certa ironia no fato de um soberano tão curioso em relação ao conhecimento e às culturas ter recebido esse rótulo, enquanto Peter Thiel, um dos principais defensores de um futuro dominado pela tecnologia, chama de Anticristo todas as pessoas e instituições que retardam o advento dessa civilização.

Quanto à corte de Palermo, se a descrevo como uma utopia a ser perseguida pelo Líbano, é porque, à semelhança da erudição de Frederico II, ela representava uma civilização do intercâmbio, e não do apagamento, já que reunia o pensamento ocidental, a filosofia árabe e a cultura grega.

E, se o Líbano conseguir superar a provação que atravessamos atualmente, só posso desejar que, no futuro, suas múltiplas comunidades possam conviver e dialogar em harmonia, como acontecia na corte de Palermo.

Enquanto isso, da minha parte, há outros territórios que também me assombram. Territórios mais pessoais. Mas esse será o tema do próximo capítulo.

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