Logotipo da Levant Time
Voltar ao artigo
A História de Rafael

As origens: capítulo 2

O tempo da repetição, o tempo da aceleração

Imagem de notícia
Retrato do autor
Por Nadim Tabet
Publicado mai 13, 2026 - 22:42

No primeiro capítulo desta série de textos sobre a grande História e a do meu filho Raphaël — "O tempo do Sul, o tempo do Norte" — tratava-se da diferença entre os países do Sul, onde a História ainda está em marcha, e os do Norte que, segundo Fukuyama, viveriam no "fim da História."

Mas na sua conclusão, o texto retomava uma intuição da poetisa Etel Adnan segundo a qual o Líbano — onde o passado ressurge permanentemente no presente — está a tornar-se "o protótipo" do mundo de amanhã.

Naturalmente, esta relação com o tempo pode parecer contra-intuitiva para os defensores da tradição historiográfica segundo a qual a História tem uma orientação. Tradição que encontra a sua origem na história bíblica de David, tal como relatada nos Livros de Samuel, e que desde então foi retomada pelas numerosas filosofias da História que proliferaram no século XIX.

Mas quem se interessa pela historiografia sabe que, paralelamente a esta visão, existe outra tradição em que o tempo histórico é descrito como cíclico. Era o caso do precursor da filosofia da História, Ibn Khaldun, no seu Livro dos Exemplos publicado no século XIV, e, no século XX, do grande filósofo da Escola de Frankfurt, Walter Benjamin, que defendia uma visão da História em que estilhaços do passado podem irromper no presente.

E quem acompanha a actualidade sabe que hoje, à escala mundial, assistimos ao regresso de numerosos estilhaços do passado.

1 – Que época histórica estamos a reviver?

Um dos regressos mais frequentemente evocados, sobretudo no Ocidente, é naturalmente o dos anos 30 do século passado, quando a Europa estava contaminada pelo fascismo.

Com os braços erguidos de certos políticos americanos, a demonização da extrema-esquerda e uma inegável ascensão do anti-semitismo acompanhada de discursos de ódio contra os muçulmanos, compreende-se facilmente por que razão esta analogia reaparece com tanta frequência no debate público.

Ainda que subscreva esta leitura, tenho, da minha parte, a impressão de que assistimos sobretudo ao regresso de uma época mais distante no tempo — uma época que remonta ao século XVI, quando, após a descoberta das Américas, a Europa começava a produzir um discurso sobre a sua própria superioridade civilizacional.

Um dos episódios fundadores desta viragem foi a Controvérsia de Valladolid, onde, em 1551, teólogos e juristas debateram a natureza dos povos ameríndios para saber se eram os legítimos possuidores das suas terras ou se, segundo os critérios de Aristóteles, podiam ser identificados como "escravos naturais."

Ainda que este debate tenha concluído "oficialmente" com um reconhecimento da humanidade dos ameríndios, este discurso não fez senão reforçar-se a seguir, culminando no século XIX com as teorias sobre a raça e os discursos sobre a missão civilizadora, a fim de justificar uma lógica de império e a expansão dos territórios coloniais.

2 – O regresso do discurso sobre a superioridade civilizacional

Se é precisamente esta linguagem que me parece hoje estar a reaparecer, é antes de mais porque Netanyahu a utiliza para vender as suas numerosas carnificinas no Médio Oriente como um "choque de civilizações" e apresentar o seu país como aquele que defende os valores do Ocidente judeo-cristão.

Mas quando se vêem os numerosos sacrilégios cometidos pelo exército israelita contra símbolos religiosos cristãos, como acontece no Líbano, é legítimo relativizar a teoria do choque de civilizações. É por isso que, mais do que a teoria de Samuel Huntington, me parece mais justo falar de um regresso do discurso civilizacional.

Discurso que também apareceu recentemente na boca de Marco Rubio durante uma conferência em que se referiu ao período de Cristóvão Colombo e dos conquistadores como a um período simbólico da grandeza do Ocidente.

Proferida perante uma sala de dirigentes europeus, o objectivo desta conferência era convidá-los a aliarem-se aos Estados Unidos para reatar com esse passado que, como se sabe, era feito sobretudo de expansão territorial, sujeição de povos e apagamento de civilizações.

Naturalmente, enquanto libanês, não posso deixar de ficar alarmado ao ouvir um ministro da primeira potência mundial referir-se com orgulho a esta época histórica. Mas o que é ainda mais alarmante é que o recurso a este discurso "arcaico" é também utilizado pelos pioneiros das tecnologias do futuro.

3 – O aceleracionismo

É o caso, por exemplo, de Alex Karp, o controverso patrão da Palantir, que, no seu manifesto pelo "futuro do Ocidente," publicado recentemente no X, faz referência explícita aos discursos sobre a superioridade civilizacional: "Some cultures have produced vital advances; others remain dysfunctional and regressive."

E quando se sabe que a Palantir vende programas de vigilância à CIA e a Israel e que ele não esconde a sua admiração pela política de Netanyahu, há motivos para se inquietar com os habitantes do Médio Oriente, e penso que também à escala mundial.

De qualquer modo, é uma estranha ironia que Alex Karp tenha querido defender uma tese de filosofia em Frankfurt para associar o seu nome a esta tradição filosófica. Uma estranha ironia porque, se outrora esta escola foi o lar de um pensamento luminoso, como o da "aura" de Walter Benjamin, ela encontra-se hoje associada a um empresário próximo de uma corrente de pensamento, o "Dark Enlightenment," que quer acelerar a chegada de uma nova civilização liberta das lentidões democráticas e governada pela eficiência das novas tecnologias, como a inteligência artificial.

Tudo isso dá a impressão de que é como se o debate iniciado no século XVI regressasse, mas com uma hierarquia civilizacional baseada no domínio dos algoritmos e da inteligência artificial, e que a questão outrora colocada na Controvérsia de Valladolid, sobre a humanidade dos ameríndios, fosse agora mutar na de saber qual será a utilidade dos humanos numa tal civilização.

O que fazer perante a provável chegada desta civilização? Não sei, mas o acaso quis que no momento da publicação do manifesto de Alex Karp, eu descobrisse no cinema um filme cuja acção decorre no século XVI: Magellan, do cineasta filipino Lav Diaz.

4 – “Magellan” e os fantasmas

Um filme pictoricamente esplêndido que, como o nome indica, percorre o itinerário deste navegador português que, no século XVI, realizou a primeira volta ao mundo e que, ao atingir as ilhas Filipinas, se deparou com a resistência de chefes "indígenas" que, por fidelidade à sua cultura ancestral, recusaram a cristianização forçada.

Apesar de alguns erros factuais, o que é surpreendente neste filme é não só a sua ressonância com a actualidade, mas também a sua forma de retratar todas as personagens como anti-heróis. Nenhuma glorificação de quem quer que seja — apenas corpos exaustos, vulneráveis e viscosos.

Dito de outro modo, estamos longe do biopic hollywoodiano destinado a glorificar uma personagem histórica, e ainda mais longe da descrição muito entusiástica feita por Marco Rubio desta época no seu discurso.

E onde esta abordagem anti-heróica acerta é que não condena ninguém em particular, mas faz aparecer como um sistema — neste caso o do colonialismo — escraviza toda a gente sem distinção entre colonizados e colonos, e os atira a todos para a violência.

E adivinha-se bem como, no futuro, mesmo aqueles que hoje nos vendem a civilização do "tecno-colonialismo" com grandes sorrisos serão eles próprios esclavizados pela tecnologia que enaltecem.

Mas para não terminar numa nota sombria, evocarei o fim do filme, que relata a batalha de Mactan onde Magalhães foi morto por guerreiros conduzidos por Lapu-Lapu. Esta vitória fez de Lapu-Lapu uma figura lendária nas Filipinas, onde uma cidade porta hoje o seu nome.

Mas ao escolher representar Lapu-Lapu como uma figura espectral, Lav Diaz credita a tese segundo a qual esta personagem nunca teria existido. Maneira, talvez, de Lav Diaz dizer que as vitórias das supostas civilizações superiores nunca serão definitivas, pois serão assombradas pelo espectro daqueles que tentaram sujeitar.

E é desta importância dos espectros que tratará o próximo capítulo.

Artigos relacionados
Ver tudo
Vídeos relacionados
Ver tudo
Podcasts relacionados
Ver tudo