


Pela primeira vez, a China empenha todo o seu peso político internacional na esteira do Paquistão, da Arábia Saudita, da Turquia e do Egito, a fim de preparar um palco de negociações americano-iraniano capaz de produzir uma solução viável com base num cessar-fogo, e não no fim da guerra como exigira o Irão. O esforço parece ter dado frutos, uma vez que Islamabad começou ontem a acolher as duas delegações no mesmo hotel.
Esta inflexão na iniciativa de mediação diz muito sobre a capacidade de Pequim para influir diretamente na decisão iraniana, revelando ao mesmo tempo a convergência da sua posição estratégica com a dos quatro países em torno de um objetivo comum: pôr fim à guerra sem derrubar o regime em Teerão e sem deixar a violência transbordar para extremos que nenhum ator seria capaz de controlar.
Sem o contrapeso chinês, porém, os quatro países seriam incapazes de assegurar a presença iraniana na mesa de negociações ou de oferecer as garantias necessárias ao seu sucesso. Esta constatação remete por sua vez para a natureza dos equilíbrios que prevalecem no Médio Oriente entre as potências regionais — Israel, o Egito, a Arábia Saudita, o Irão e a Turquia — equilíbrios que não são nem decisivos nem suficientemente estruturados para gerar uma solução médio-oriental independente de Washington em primeiro lugar, e depois da China, da Rússia e da União Europeia. É precisamente isto o que se poderia designar por «fluidez geopolítica»: uma configuração que autoriza o terreno a produzir factos novos com impacto na equação regional e internacional na sua globalidade, e que permite igualmente ajustar as prioridades que Washington, enquanto polo dominante, pretende fazer valer, Washington que projetou o seu poder militar do Extremo Oriente para a região a fim de preservar um estatuto ao qual não está disposto a renunciar, mesmo que isso lhe custe uma guerra sem fim.
O rabo a abanar o cão
Numa entrevista à CNN a 3 de abril, o príncipe saudita Turki al-Faisal qualificou o conflito de «guerra de Netanyahu», destinada, segundo ele, a desviar a atenção da conduta interna do primeiro-ministro israelita em Gaza e na Cisjordânia ocupada, antes de invocar a imagem do rabo a abanar o cão para sugerir que foi Netanyahu quem arrastou o presidente americano para esta batalha, e não o inverso. A metáfora é severa, e aponta para uma disfunção profunda no seio do establishment político americano, pois semelhante situação contradiz a lógica que seria de esperar de um Estado como os Estados Unidos quando trava uma guerra no Médio Oriente, esse coração do velho mundo que hoje se tem por novo.
Após as palavras do experiente príncipe saudita, homem versado nos assuntos de segurança e política, a declaração do secretário de Estado Marco Rubio ao New York Times de 8 de abril descreveu Netanyahu como «um hábil vendedor, mestre na arte da esquiva», que teria «enganado mais uma vez a administração» ao fazer crer na possibilidade de uma mudança de regime em Teerão em vez de uma estratégia de contenção.
Em simultâneo, a imprensa israelita revelou que o Departamento de Estado, a CIA e os altos comandos do Pentágono não tinham subscrito as avaliações de Netanyahu nem os relatórios do Mossad, o que conduziu às demissões e exonerações conhecidas e alimentou uma confusão política cada vez mais visível nas declarações presidenciais.
Foi assim que a política definitiva da Casa Branca acabou por confiar a condução das negociações em Carachi ao vice-presidente J.D. Vance, precisamente aquele conhecido pela sua oposição de princípio à guerra.
Compreende-se então facilmente que o príncipe Turki al-Faisal tenha soado este alarme político, procurando chamar a atenção para a gravidade do que se tramava em Washington e para o papel singular que Netanyahu se havia arrogado. Dava igualmente um sinal firme quanto à constância das orientações oficiais do reino, que não abandonou de forma alguma a sua estratégia de produzir uma solução baseada no equilíbrio de interesses, em resposta às ambições hegemónicas de Netanyahu sobre a região.
Agora que Netanyahu foi neutralizado por Trump, vale a pena reconduzir esta inflexão de prioridades no topo da hierarquia americana, em primeiro lugar à personalidade do presidente Trump, em segundo lugar à distribuição de poderes no sistema político americano, e por fim ao equilíbrio de forças que animam este Estado com as suas vastas instituições políticas, militares e de segurança — o que faz da decisão política o produto complexo de equilíbrios internos a todos os níveis. Foi assim que a questão das negociações se resolveu pelo regresso à política de contenção do regime iraniano.
A insolência de um embaixador
Foi desde a Cidade do Kuwait que o embaixador iraniano nesse país, Mohammad Toutounji, se deu a conhecer ao grande público através da sua declaração à AFP de 7 de abril, apelando a que se fizessem todos os esforços possíveis «para evitar a catástrofe», alegando que o Irão responderia às ameaças externas com medidas que afetariam «a segurança e a estabilidade dos estados do Golfo». Esta retórica ecoa a insolência do mesmo embaixador que, em Beirute, nunca tinha sido acreditado e não obstante não tinha abandonado o país, apesar da decisão formal das autoridades libanesas.
Trata-se de uma prática corrente na diplomacia miliciana do Irão, que consiste em cobrir o recuo da direção suprema face às suas posições iniciais máximas, mantendo ao mesmo tempo uma linguagem dupla, uma dirigida à administração americana e outra ao povo iraniano e aos povos da região. Os documentos apresentados à Casa Branca revelaram uma face oficiosa que se mantém cuidadosamente fora da vista.
Se o Irão tivesse verdadeiramente mantido as suas posições e se tivesse recusado a satisfazer as exigências essenciais constantes do documento americano, o vice-presidente dos Estados Unidos não se teria deslocado para se encontrar com o presidente do parlamento iraniano, tanto mais que a guerra esgotou as capacidades globais do regime e não lhe deixou senão uma parte das suas reservas de mísseis e drones, bem como alguns milhões de apoiantes capazes de combater o povo iraniano cada vez que este desce à rua para protestar.
A quarta-feira negra
O êxito dos mediadores representou um golpe duro para Netanyahu, agora neutralizado por Trump, que decidiu em conformidade com o interesse americano em primeiro lugar, sem sequer consultar o seu interlocutor israelita desta vez, limitando-se a informá-lo após o facto consumado. Foi precisamente esse momento que, creio, empurrou a direção israelita a desencadear a sua fúria sobre a cidade de Beirute, descarregando assim a sua frustração política numa jornada criminosa que pertence à «guerra de extermínio em Gaza». Sem a posição adotada pelo Estado libanês, a direção israelita nos seus três níveis, político, militar e de segurança, teria procurado fazer transitar a guerra do seu modo anterior para o modo gazense de extermínio.
É por isso que o destino das negociações no Paquistão, quer sejam bem-sucedidas quer fracassem, importa menos para o Líbano do que o êxito da sua diliência para separar a sua causa existencial do dosiê das «arenas», segundo a terminologia que o Irão sempre prefere.
O que está agora em jogo é a batalha das negociações diretas com Israel para a salvação e libertação do Líbano, através de uma visão global do que deve ser o Estado libanês e da forma de pôr fim a esta guerra com base numa vitória da soberania e na garantia da segurança das pessoas e de uma vida digna.
Chegado esse dia, poderemos dizer que o discurso de tomada de posse e a declaração ministerial foram a parteira que trouxe ao mundo a nova República tal como o seu povo a deseja e a aceita.