
Retomada dos voos diretos das companhias aéreas americanas com destino a Beirute


A cúpula entre o presidente libanês, Joseph Aoun, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington, marca uma etapa essencial no processo iniciado pelo governo libanês para restaurar a autoridade do Estado. Como pano de fundo, surge um objetivo estratégico que dá continuidade às transformações em curso na região e que conta com o firme apoio dos Estados Unidos, por corresponder também aos seus próprios interesses: pôr fim, de forma definitiva, à influência iraniana no Líbano. Na prática, isso passa, como se sabe, pela resolução da questão das armas ilegais do Hezbollah, que continua se recusando a reconhecer a autoridade do Estado e se opõe de forma contundente à linha política adotada pelo presidente. A resolução desse tema continua sendo, aos olhos dos libaneses e da comunidade internacional, com exceção, naturalmente, do Irã, uma condição indispensável para o restabelecimento da soberania do Estado.
Essa questão, juntamente com a retirada israelense do sul do Líbano com base no acordo-quadro entre Líbano e Israel de 26 de junho e, sobretudo, o apoio ao Exército libanês, esteve no centro das conversas entre Trump e Aoun na Casa Branca. O presidente libanês classificou como excelente sua reunião com o colega americano, que, durante uma coletiva de imprensa antes da cúpula, reafirmou as principais diretrizes da política de seu governo em relação aos temas libaneses e iranianos.
Sobre o primeiro tema, Donald Trump reiterou seu total apoio ao Líbano e ao presidente libanês, “que luta há muito tempo contra o Hezbollah”.
Ele afirmou querer “ajudar muito” o Líbano, “um país maltratado há muito tempo”, antes de destacar as qualidades do “país de origem de muitos amigos”.
Por sua vez, Joseph Aoun agradeceu ao anfitrião por essa “visita histórica e pela conquista histórica alcançada em conjunto com a assinatura do acordo-quadro”. A última visita de um presidente libanês a Washington havia ocorrido em 2009.
Ele recordou que “o objetivo final” desse documento é “colocar fim ao estado de hostilidade entre o Líbano e Israel, para sempre”.
Antes do encontro, o presidente libanês havia informado que pretendia pedir ao colega americano que pressionasse Israel a retirar suas tropas do sul do país.
Joseph Aoun, que desde sua chegada ao poder assumiu o compromisso de desarmar o Hezbollah, solicitou ao presidente americano uma ajuda substancial para o Exército libanês e, no Salão Oval, pediu que ele “continue apoiando” as forças armadas regulares.
“Sem elas, tudo desmoronará. Não queremos isso. Acho que o presidente Trump também não quer”, declarou Joseph Aoun. Donald Trump respondeu afirmando que tem “planos muito concretos” para ajudar o Exército libanês, que deverá desempenhar um papel central no processo de desarmamento do Hezbollah e de restauração da autoridade do Estado.
Em contrapartida, o presidente americano “provavelmente gostaria de obter novas provas da seriedade dos compromissos de Joseph Aoun” em desarmar o Hezbollah e alcançar a paz com Israel, explicou à AFP Robert Satloff, diretor executivo do Washington Institute. Nesse sentido, o canal de televisão árabe Al-Hadath informou que o presidente Aoun apresentou efetivamente ao chefe da Casa Branca um plano para o desarmamento do Hezbollah, o que teria como consequência um enfraquecimento drástico da influência iraniana no Líbano.
Diante da imprensa, Donald Trump afirmou estar disposto a dialogar com o Hezbollah “se o presidente [Aoun] desejar”. “Posso conversar com qualquer um”, garantiu.
Ele também elogiou o aliado desse grupo pró-Irã, o presidente do Parlamento e líder do movimento Amal, Nabih Berri, “que deseja o fim da guerra”.
Paralelamente ao aspecto político, um dos resultados imediatos mais marcantes da reunião na Casa Branca foi, sem dúvida, o anúncio de Donald Trump de que havia instruído seu governo a autorizar todas as companhias aéreas americanas a retomarem os voos diretos para o Líbano.
“O Irã ainda não viu nada”
Sobre o tema iraniano, Donald Trump voltou a fazer ameaças, afirmando que “os Estados Unidos ainda não terminaram” com a República Islâmica, que intensifica sua pressão sobre o Estreito de Ormuz por meio de seus aliados iemenitas, os Houthis. Estes impõem, como se sabe, um bloqueio naval aos portos sauditas, pertencentes ao maior exportador de petróleo bruto do mundo.
Os americanos “vão lidar” com os Houthis caso coloquem suas ameaças em prática, assegurou o presidente americano. Os Estados Unidos já haviam atuado contra esse grupo quando ele interrompeu o tráfego marítimo durante a guerra em Gaza, realizando ataques com drones e mísseis contra embarcações.
Trump reafirmou que os iranianos, “que ainda não viram nada”, querem “desesperadamente” um encontro, mas acrescentou que “enquanto não estiverem prontos para fazê-lo de maneira construtiva, não vemos interesse nisso”.
O ministro do Interior do Irã, em missão em Islamabad, deverá retornar de mãos vazias, depois que Donald Trump informou ao mediador paquistanês que não tem interesse na trégua de dez dias proposta por Teerã.
Durante sua coletiva de imprensa, o presidente americano voltou a ameaçar realizar ataques contra o Monte Al-Faas (Monte do Machado), onde se encontra uma das instalações nucleares subterrâneas mais fortificadas e secretas do país.
O Exército em Zawtar al-Gharbiyeh
A cúpula entre Aoun e Trump ocorreu enquanto, no terreno, no Líbano, entrava em vigor a primeira fase do acordo-quadro entre o Líbano e Israel de 26 de junho. O Exército libanês iniciou seu deslocamento para Zawtar al-Gharbiyeh, uma vila do distrito de Nabatiyeh ocupada pelos israelenses.
O Exército libanês anunciou na manhã de terça-feira o início de sua mobilização na localidade, esclarecendo que a operação era realizada com base nos contatos estabelecidos com a célula criada em virtude do acordo-quadro, o Grupo de Coordenação Militar para o Líbano (MCG4L).
Poucos instantes após o início da operação, porém, a tensão voltou a aumentar por causa de um incidente que ilustra a fragilidade do processo em andamento.
O Exército libanês acusou as forças israelenses de abrirem fogo “nas proximidades” de suas unidades que ingressavam em Zawtar.
Em comunicado, o comando militar advertiu que esses disparos “dificultam a implementação da mobilização nas áreas piloto”, coordenadas com o MCG4L, que são três: Froun, Srifa e Zawtar al-Gharbiyeh. Os israelenses mantinham presença apenas nesta última localidade.
O Exército israelense, citado pela emissora Kan, confirmou os disparos, mas afirmou que se tratavam apenas de tiros de advertência.
Segundo o Exército israelense, soldados libaneses acompanhados de um trator teriam ultrapassado o limite estabelecido para essa área piloto. Os disparos de advertência tinham o objetivo de obrigá-los a recuar. O mecanismo de monitoramento liderado pelos Estados Unidos foi imediatamente informado sobre o incidente, ainda segundo as forças armadas de Tel Aviv.
Por sua vez, o Exército libanês proibiu os moradores de Zawtar de retornarem à localidade enquanto a situação permanecer instável, sobretudo porque está realizando a remoção de mísseis e outros artefatos explosivos não detonados.
Bombardeios e demolições
Apesar da entrada em vigor da primeira fase do acordo-quadro, a intensidade das operações militares israelenses no sul do país não diminuiu.
As operações de demolição com explosivos continuaram na terça-feira, especialmente no distrito de Bint Jbeil, assim como em Khiam, onde o Exército israelense afirma estar destruindo infraestruturas do Hezbollah. As elevações da estratégica colina de Ali Taher, em Nabatiyeh, voltaram a ser alvo de ataques, enquanto explosões eram ouvidas em diferentes pontos da chamada zona de segurança estabelecida por Israel ao longo de sua fronteira norte com o Líbano, onde continua atuando enquanto considerar que as capacidades do Hezbollah não foram neutralizadas.
Ameaças iranianas
Enquanto a questão libanesa avança conforme as diretrizes do governo libanês, apoiado pelos Estados Unidos, a situação regional, e particularmente as negociações entre Washington e Teerã, continua estagnada.
Um dia após novos ataques americanos noturnos, que já se tornaram diários há dez dias, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica prometeu ofensivas “ainda mais violentas” contra interesses americanos na região. Isso significa, na prática, ataques em países do Golfo e na Jordânia, já que Teerã evita atacar Israel diretamente por receio de desencadear uma escalada de consequências imprevisíveis.
Bahrein, Kuwait e Jordânia voltaram a interceptar mísseis iranianos na terça-feira. As autoridades kuwaitianas acusaram o Irã de atacar, pelo quarto dia consecutivo, infraestruturas civis, entre elas usinas elétricas e instalações de dessalinização de água, onde ocorreram incêndios.
Paralelamente, no Iêmen, os Houthis intensificaram o bloqueio marítimo imposto à Arábia Saudita em resposta ao cerco americano aos portos iranianos. Na terça-feira, advertiram as companhias de navegação de que atacariam qualquer embarcação com destino ou procedente de portos sauditas, o que explica o alerta feito por Donald Trump durante sua coletiva de imprensa conjunta com Joseph Aoun.
No campo diplomático, por fim, Paris convocou o encarregado de negócios iraniano após a agressão contra dois diplomatas franceses em Teerã.
As autoridades francesas exigem que os responsáveis sejam punidos. Também reiteraram que não haverá qualquer flexibilização das sanções europeias enquanto o Irã mantiver seu programa nuclear e suas ações consideradas desestabilizadoras na região.