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Crónicas do limiar

No sétimo dia

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Por Zeina Ziadeh
Publicado abr 23, 2026 - 13:02

No sétimo dia, descansamos?

Não.

Esperamos.

 

 

Vivemos sempre no limiar da espera.

Folheamos, a cada instante dessas vinte e quatro horas, uma matéria aqui, uma declaração ou um tuíte ali, para traçar os contornos do nosso dia.

Aqui, não há roteiro, exceto aquele desenhado para nós por quem não fala a nossa língua.

E nós, nós suportamos.

 

 

Suportamos... e desconstruímos.

Lemos muito mais nas entrelinhas do que nas próprias linhas.

Analisamos o silêncio e duvidamos de tudo o que parece natural.

Porque o natural já não é natural.

E a calma, em nosso país, não é descanso... mas uma trégua para quem não escolheu lutar.

 

No sétimo dia,

alguns comércios entreabrem timidamente suas portas.

Meia porta levantada, uma meia decisão.

As cadeiras voltam às calçadas,

o café se reacende,

e as conversas giram em torno de pequenas coisas:

os preços, a eletricidade, a água e projetos adiados.

 

 

Todo mundo observa, vigia.

Os rostos são os mesmos... mas os traços estão tensos e ainda não pararam de tremer.

E, na curva de cada frase, a sombra de outra:

“E se recomeçar...”

 

 

Se recomeçar?

Mas não terminou para recomeçar.

 

 

A poucos quilômetros daqui,

a terra foi soprada pelas explosões,

e sangue corre sobre ela e sob ela.

A calma aqui não é ausência... mas distância.

 

 

E nessa calma inquieta,

outro rumor se ergue.

Um estrondo que não se ouve... mas se pensa.

 

 

Analisamos tudo:

os rostos dos políticos,

seus dedos erguidos,

o tom da voz,

a hora do comunicado.

 

 

Observamos o céu

não por sua claridade,

mas pela medida de seu silêncio.

 

 

Um avião distante,

uma moto que passa,

uma porta que bate,

tantas possibilidades.

 

 

Contamos os dias.

O sétimo dia.

 

 

A calma aqui não é paz.

Nada além de um intervalo entre dois ataques.

 

 

E nesse intervalo,

tentamos viver.

Brevemente.

 

Rimos... sem convicção.

Planejamos... sem certeza.

Dormimos... meio conscientes.

 

 

Uma parte de nós permanece acordada,

como um vigia que ninguém vê.

 

Acordamos com o som do alarme, não dos bombardeios, e isso nos surpreendeu.

Preparamos o café lentamente, como se estivéssemos reaprendendo a fazê-lo.

Abrimos os canais de informação antes das janelas.

Escrevemos: “Como você está?”

E a resposta chega:

“Bem... por enquanto.”

 

 

Saímos para a rua.

Olhamos uns para os outros,

como se procurássemos uma serenidade perdida.

 

 

Até o bom dia ficou rápido,

breve,

sem espaço para prolongamentos.

 

 

Não temos medo apenas da guerra,

mas de nos acostumarmos a ela.

De que se torne parte do nosso cotidiano,

 das nossas conversas,

 das nossas brincadeiras.

 

 

Às vezes rimos...

depois nos calamos de repente.

 

 

Como se o próprio riso tivesse voltado atrás.

 

 

No sétimo dia,

uma pergunta se insinua em silêncio:

o que fazer com todo esse cansaço?

 

 

Talvez os obuses parem,

mas seus rastros, não.

 

 

Um cansaço no corpo,

nos olhos,

no coração que aprendeu a se sobressaltar ao menor ruído.

 

 

Não confiamos o suficiente na calma para nos entregar a ela.

Vivemos em alerta de descanso.

 

 

Um descanso adiado,

condicional,

revogável.

 

 

Guardamos nossas coisas de outro jeito.

Carregamos mais os celulares do que os usamos.

Calculamos o tempo... para qualquer eventualidade.

 

 

E dentro de nós,

um desejo muito simples:

a calma... apenas.

 

 

Uma calma que não precise ser interpretada,

nem vigiada,

nem temida.

 

 

Mas não sabemos como acreditar nela.

 

 

Então voltamos à espera.

 

 

Observamos,

analisamos,

lemos,

depois relemos.

 

 

Organizamos o nosso dia com base em probabilidades,

não em certezas.

 

 

Dizemos:

“Vamos a ver!”

 

 

Como se toda a nossa vida

fosse uma frase em suspenso.

 

 

E no sétimo dia,

não proclamamos vitória,

não choramos a derrota.

 

 

Permanecemos no meio.

 

 

Entre guerra e paz,

entre medo e serenidade,

entre ruído e silêncio.

 

 

Esse meio...

tornou-se o nosso lugar.

 

 

Nosso medo dessa calma

não é fraqueza,

mas memória.

 

 

Uma memória que aprendeu

que a calma

pode ser um aviso.

 

 

E ainda assim...

continuamos.

 

 

Fazemos nosso café,

abrimos nossas janelas,

observamos o céu,

respondemos às mensagens,

rimos quando podemos,

e nos calamos quando não podemos.

 

 

Compramos nosso pão,

passamos no posto de gasolina,

adiamos projetos,

e escondemos uma angústia.

 

 

E tentamos, apesar de tudo,

viver um dia comum...

 

 

Mesmo que esse “comum”

repouse

no limiar da espera.

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