

A declaração Nostra aetate transformou profundamente o diálogo entre católicos e muçulmanos. De João Paulo II a Francisco, a Santa Sé tem mantido um compromisso contínuo com o encontro e a fraternidade. Este é o terceiro capítulo da nossa série.
É difícil exagerar o impacto da declaração Nostra aetate, de 1965, sobre as relações entre a Igreja Católica e o mundo árabe-muçulmano. Para compreendê-lo plenamente, nada é mais esclarecedor do que ler o próprio texto, que não apresenta dificuldades dogmáticas. Eis o trecho que nos interessa diretamente:
“A Igreja olha também com estima para os muçulmanos. Adoram eles o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra (5), que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, que a fé islâmica de bom grado evoca. Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta, e honram Maria, sua mãe virginal, à qual por vezes invocam devotamente. Esperam pelo dia do juízo, no qual Deus remunerará todos os homens, uma vez ressuscitados. Têm, por isso, em apreço a vida moral e prestam culto a Deus, sobretudo com a oração, a esmola e o jejum.
E se é verdade que, no decurso dos séculos, surgiram entre cristãos e muçulmanos não poucas discórdias e ódios, este sagrado Concílio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua e juntos defendam e promovam a justiça social, os bens morais e a paz e liberdade para todos os homens.
Mapeando o “berço” do Cristianismo
Entre 1985 e 2001, apoiado sobre esse sólido fundamento doutrinário, João Paulo II realizou uma série de gestos marcantes: o discurso em Casablanca diante de 80 mil jovens muçulmanos, conclamando-os a “crer juntos no Deus único” (1985); a oração pela paz em Assis com representantes de todas as religiões (1986); o Sínodo para o Líbano, que contou com “observadores fraternos” muçulmanos (1995); e a histórica visita à Síria e à Mesquita dos Omíadas, em Damasco (2001).
No Oriente Médio, Bento XVI – e sobretudo seu sucessor, Papa Francisco – continuou o esforço de mapear espiritualmente o “berço” do Cristianismo, região em que a fé cristã hoje se expressa em ambiente predominantemente muçulmano, com o Líbano como exceção notável.
É o Papa Francisco, porém, quem alcançou o avanço mais significativo no campo do diálogo inter-religioso, graças ao Documento sobre a Fraternidade Humana, assinado em Abu Dhabi (2019) ao lado do Grão-Imã de al-Azhar, Ahmad al-Tayyeb, e à encíclica Fratelli tutti (2020), que desenvolve e amplia sua mensagem.
A encíclica afirma, entre outros pontos: “As questões relacionadas com a fraternidade e a amizade social sempre estiveram entre as minhas preocupações. (...) agora senti-me especialmente estimulado pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, com quem me encontrei, em Abu Dhabi, para lembrar que Deus «criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade, e os chamou a conviver entre si como irmãos».[5] Não se tratou de mero ato diplomático, mas duma reflexão feita em diálogo e dum compromisso conjunto. Esta encíclica reúne e desenvolve grandes temas expostos naquele documento que assinamos juntos. (...) Entrego esta encíclica social como humilde contribuição para a reflexão, a fim de que, perante as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras. Embora a tenha escrito a partir das minhas convicções cristãs, que me animam e nutrem, procurei fazê-lo de tal maneira que a reflexão se abra ao diálogo com todas as pessoas de boa vontade.” (Fratelli tutti 5 e 6)
Casa da Família Abraâmica
Esses princípios ganharam forma concreta em diversas iniciativas, sendo a mais emblemática a Casa da Família Abraâmica, em Abu Dhabi. Inaugurado em 2023, o complexo reúne, em um mesmo espaço, uma mesquita, uma igreja e uma sinagoga – um local destinado à educação, à oração e ao encontro.
Mas as atitudes não avançaram no mesmo ritmo em toda parte. A Arábia Saudita, por exemplo, ainda não mantém relações diplomáticas com o Vaticano; a construção de igrejas e a celebração pública de cultos fora de áreas diplomáticas continuam proibidas.
Nostra aetate e o diálogo que ela inspirou fincaram raízes principalmente no islamismo sunita, ramo majoritário que reúne entre oitenta e cinco e noventa por cento dos muçulmanos no mundo. Ainda assim, o apelo do documento conciliar à abertura é universal. Ele inspirou, de forma notável, o encontro do Papa Francisco com o Grande Aiatolá Sistani durante sua viagem ao Iraque em 2021. O lema da visita – “Todos sois irmãos” – ecoou diretamente a mensagem de Fratelli tutti.