

No nosso primeiro artigo, analisamos o contexto que deu origem a Nostra aetate, a declaração do Concílio Vaticano II sobre a relação da Igreja com as religiões não cristãs. Claro e preciso, o texto não deixa zonas de sombra e evita outro tipo de “substituição”: a ideia de que o diálogo poderia tomar o lugar da missão da Igreja. Mas essa já é outra história.
No que diz respeito aos judeus, Nostra aetate rejeita explicitamente a noção de responsabilidade coletiva pela morte de Cristo, interpretação que alguns atribuíram a passagens do Evangelho, incluindo o grito da multidão: “Que o sangue dele caia sobre nós e sobre os nossos filhos”. O documento afirma que “o que aconteceu durante a Paixão não pode ser imputado indistintamente nem a todos os judeus de então, nem aos judeus de hoje”.
Um gesto que diz tudo
A tensão secular entre a Sinagoga e a Igreja foi simbolizada de maneira poderosa por João Paulo II durante sua peregrinação jubilar à Terra Santa, em março de 2000.
Diante do Muro Ocidental, o Papa, sozinho e com a cabeça inclinada, colocou uma pequena nota entre as pedras, como fazem os fiéis judeus. O gesto ocorreu poucos dias depois de sua visita ao memorial de Yad Vashem, onde condenou o antissemitismo e prestou homenagem às vítimas do Holocausto.
O Vaticano divulgou posteriormente o conteúdo da nota:
“Deus de nossos pais, escolheste Abraão e seus descendentes para levar Teu Nome às nações: estamos profundamente entristecidos pelo comportamento daqueles que, ao longo da história, causaram sofrimento a Teus filhos. Ao pedir Teu perdão, queremos nos comprometer a viver em verdadeira fraternidade com o povo da Aliança.” (26 de março de 2000)
Não um gesto diplomático
Com esse ato, o Papa reconheceu o sofrimento imposto às comunidades judaicas em todo o mundo após a destruição do Templo no ano 70 e pediu perdão — não um gesto diplomático, mas uma súplica diante de Deus pelo sofrimento vivido pelo “povo da Aliança”. Ao usar essa expressão, reforçou que a aliança com Israel permanece, atravessa a história e independe da missão própria da Igreja.
Para o rabinato israelense e para comunidades judaicas em todo o mundo, o gesto representou um ponto de inflexão irreversível nas relações entre judeus e cristãos.
Por meio dessa declaração, a Igreja Católica rejeitou a doutrina da substituição, segundo a qual todas as promessas feitas a Israel teriam sido transferidas para a Igreja, e fundamentou o vínculo espiritual duradouro entre cristãos e judeus em um compromisso comum com a vontade do Deus de Abraão.