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Opinião

Nem arena nem carne de canhão

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Por Mona Fayad
Publicado abr 10, 2026 - 20:09

Dez minutos bastaram para que Beirute e as demais regiões sofressem os ataques israelitas mais ferozes que alguma vez conheceram. O resultado foi de centenas de mortos e milhares de feridos. Tudo isso aconteceu após a conclusão do opaco acordo entre a América e o Irão sobre o cessar-fogo. Israel, conduzido por um Netanyahu pouco disposto a aceitar qualquer acordo que o devolvesse à difícil realidade interna israelita, quis fazer saber a todos que a declaração iraniana de incluir o Líbano nesse acordo era nula e sem efeito. O Irão rejeita-a verbalmente, embora continue da sua parte a respeitar o acordo. Quanto ao Hezbollah, disseminado pelos quatro cantos do país e misturado com a população civil, declarou a sua adesão ao cessar-fogo e tem-se abstido até agora de responder a Israel, salvo com alguns rockets lançados sobre Kiryat Shmoneh!

O Líbano é oficialmente uma arena entregue às violações, com o consentimento desse mesmo governo que depois decretou um luto nacional pelas vítimas. Quanto ao povo libanês, foi sobre o seu governo e os seus responsáveis que ele, por sua vez, decretou o luto.

Quem vive dentro de uma guerra não é obrigado a compreender, mas apenas a testemunhar e a permanecer humano tanto quanto possível. É isso que farei.

Não somos uma arena.

Não somos uma terra aberta ao ajuste de contas, nem um mapa sobre o qual outros traçam as suas linhas de fogo segundo os seus próprios interesses. Somos seres humanos, com nomes, casas, filhos e uma memória já suficientemente carregada de guerras que não escolhemos. E todavia, cada vez, o mesmo papel nos é reimposto, o de ser a arena e o corredor, o mensageiro e a frente, a vítima permanente. Somos bombardeados para que alguma potência envie os seus sinais, destruídos enquanto outros negoceiam noutro lugar, mortos pela desgraça de termos nascido neste canto do mundo.

Recusamos tudo isso.

Recusamos participar numa guerra em que não temos voz nem interesse comprometido, nem capacidade de a deter. Recusamos ser reduzidos a uma simples carta nas mãos de qualquer eixo, e ser intimados a morrer em silêncio sob grandes slogans que não alimentam os nossos filhos nem protegem as nossas casas.

Recusamos ser vassalos, seja do Irão ou de quem quer que seja. Recusamos que a nossa terra, as nossas vidas e o nosso futuro sejam regidos por decisões vindas de fora das nossas fronteiras, sob a bandeira de um Estado teocrático que não vê em nós senão um prolongamento da sua influência e um escudo para a sua protecção. Recusamos que uma sociedade inteira seja tomada como refém e arremessada para batalhas que ultrapassam as suas capacidades e a sua vontade, para que depois lhe seja pedido que celebre o sacrifício. Que sacrifício seria esse, aquele que os seus próprios autores não escolheram, e que resistência aquela que se impõe às pessoas pela força?

Da mesma forma que recusamos que alguém pretenda dar-nos lições sobre Israel, a sua perfídia e a sua barbárie, recusamos simultaneamente as práticas bárbaras do próprio Israel; recusamos que permaneça acima de qualquer prestação de contas, e que um Estado fundado na força e na ocupação continue a ameaçar-nos, a bombardear-nos e a destruir as nossas cidades, justificando cada um desses actos em nome da segurança. Que segurança seria essa, edificada sobre as ruínas dos outros?

Se os palestinianos tivessem alguma vez obtido os seus direitos, se a justiça tivesse alguma vez existido nesta região, nem o Irão nem ninguém mais teria podido explorar essa brecha aberta para nos chantagear, e jamais nos teríamos encontrado na linha da frente das guerras dos outros.

Somos vítimas de duas equações mortíferas, uma sendo a de uma ocupação surda aos direitos alheios, e a outra a de uma instrumentalização que não vê em nós senão uma ferramenta. Apanhados entre as duas, somos esmagados.

Mas apesar de tudo isso, proclamamos hoje que chega. Chega de sermos utilizados, chega de sermos tomados como reféns, chega de sermos mortos em nome de causas cuja gestão em nada serve os nossos interesses.

Queremos um Estado verdadeiro, não a sombra projectada de outro, impotente para exercer a sua própria autoridade, mas um Estado que decida soberanamente sobre a guerra e a paz em vez de as ver impostas. Queremos um exército único, uma decisão única, uma soberania indivisível.

Estas palavras podem parecer irrisórias perante o rugido dos aviões, a chuva de rockets e o caos do sangue e dos corpos mutilados. Mas a palavra é, em verdade, a arma mais poderosa que possuímos. Pois a guerra começa quando se despoja o ser humano da sua voz, e termina, cedo ou tarde, quando a recupera.

Não somos uma arena.

Não somos números.

Não somos carne para canhão.

Somos seres humanos…

Simplesmente queremos viver.

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