

Nabil Nahas, figura central da arte contemporânea libano-americana, está atualmente no centro da cena artística internacional. Ele foi oficialmente selecionado para representar o Líbano na próxima Bienal de Arte de Veneza, que acontecerá de 9 de maio a 22 de novembro de 2026.
Nabil Nahas ocupa uma posição singular no panorama artístico contemporâneo. É um dos raros artistas que conseguiram realizar uma síntese precisa entre a abstração radical americana e uma sensibilidade oriental profundamente enraizada na natureza e na espiritualidade.
A exposição intitulada Don’t Get Me Wrong está sob a direção de Nada Ghandour, comissária e curadora, em colaboração com a Lebanese Visual Art Association (LVAA). Ela acontecerá no Arsenale (Sala d’Armi), um dos espaços mais prestigiados da Bienal de Veneza.
Com essa exposição, Nabil Nahas propõe uma experiência monumental que redefine a relação entre o espectador e a pintura.
A trajetória do artista
Nabil Nahas nasceu em Beirute, em 1949. Passou seus dez primeiros anos no Cairo, onde absorveu a grandiosidade das paisagens egípcias e o rigor da arte islâmica.
Em 1973, obteve seu MFA (Master of Fine Arts) na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, onde conviveu com grandes nomes da arte e se aproximou do expressionismo abstrato. Estabeleceu-se então em Nova York e rapidamente se tornou um “mestre da cor e da textura”.
Após a guerra civil, seu retorno ao Líbano marcou uma virada em sua pintura. Ele passou a retratar cedros, oliveiras e pinheiros, não como simples paisagens, mas como símbolos de resiliência.
O Estilo de Nabil Nahas
Seu estilo é marcado por uma dupla influência: o expressionismo abstrato americano e a herança mediterrânea.
O que distingue Nahas de seus contemporâneos é sua materialidade extrema.
O trabalho de Nabil Nahas se inspira nas geometrias complexas do mundo natural — estrelas-do-mar, cedros, motivos marinhos — e na arte islâmica. Ele utiliza frequentemente pó de pedra-pomes ou rocha vulcânica misturada à tinta para criar texturas rugosas, quase orgânicas, que transformam a tela em um objeto escultórico que lembra uma superfície lunar ou um recife de coral.

Sem título, acrílico e pedra-pomes sobre tela. (Dalloul Art Foundation)
As estrelas-do-mar: uma de suas inovações mais conhecidas consiste em fixar verdadeiras estrelas-do-mar (ou moldes) sobre a tela e, em seguida, recobri-las com camadas sucessivas de tinta, criando um relevo orgânico que desafia a pintura plana tradicional.
O conceito de fractal: inspirado pelo matemático Benoît Mandelbrot, Nahas explora o conceito de fractal segundo o qual o caos da natureza possui sua própria ordem geométrica. Assim como na natureza, suas telas parecem poder se multiplicar ao infinito, sem centro nem borda.
O reconhecimento internacional
Nabil Nahas não é apenas um “pintor libanês”, mas uma figura institucional da cena artística global. Suas obras integram as coleções dos maiores museus do mundo, incluindo o Metropolitan Museum of Art (Nova York), a Tate Modern (Londres), o British Museum e o Guggenheim Abu Dhabi.
Em 2013, recebeu a Ordem Nacional do Cedro, distinção raramente concedida a artistas plásticos no Líbano, destacando seu papel como embaixador cultural.
Suas obras são altamente valorizadas no mercado de leilões, como Sotheby’s e Christie’s, alcançando valores superiores a 240 mil dólares para suas peças mais monumentais.
A exposição “Don’t Get Me Wrong”
A exposição foi concebida como uma obra imersiva total, pensada especificamente para o espaço do Arsenale, no contexto da Bienal.
Seu formato é monumental. É composta por 26 painéis em acrílico sobre tela, estendendo-se por impressionantes 45 metros lineares e atingindo 3 metros de altura. As telas estão elevadas a dois metros do chão, o que obriga o visitante a olhar para cima, evocando a forma como se contemplam os afrescos das igrejas renascentistas.
Nessa exposição, Nahas adota o conceito de fractal e convida a um percurso meditativo, no qual as formas parecem se multiplicar infinitamente.
Nada Ghandour, que assina aqui sua terceira direção do Pavilhão do Líbano, apresenta o trabalho de Nahas como um reflexo da identidade libanesa, que descreve como um “coro polifônico” e compara a uma trama de múltiplos fios — história, espiritualidade, natureza — por meio da qual ele busca explicar o Líbano em sua complexidade cultural. Para Ghandour, a obra de Nabil Nahas é uma combinação de arte, cultura e espiritualidade: ao mesmo tempo simbólica e filosófica.
Em um mundo em que a arte frequentemente se divide entre arte conceitual e arte decorativa, Nahas propõe uma terceira via: a de uma abstração que possui alma.
Ele demonstra que é possível pertencer à “escola de Nova York” e, ao mesmo tempo, permanecer profundamente ligado à terra mediterrânea.
Na Bienal de Veneza de 2026, sua presença simboliza a força e a criatividade de um Líbano que, apesar das crises, continua a dialogar com o mundo por meio de uma beleza complexa e de um pensamento poético universal.