

Algumas pessoas se resignam constantemente ao seu destino, enquanto outras tomam as rédeas da própria vida. Isso se torna ainda mais difícil quando se trata de uma mulher num mundo de homens. E, no entanto… algumas mulheres escolheram a luta, conseguindo quebrar os tabus de sua época. Seja com o pincel, a pena, a ciência ou a voz, elas habitaram seu século com uma ousadia que, por vezes, beirava o escândalo.
De Artemisia Gentileschi desafiando a sociedade e os tribunais italianos, há cinco séculos, a George Sand trocando o espartilho pela liberdade de escrever, passando por Camille Claudel, a alma dilacerada, ou pelo rigor e gênio de Marie Curie, ou ainda pela voz universal de Oum Kalthoum… essas mulheres conseguiram superar os preconceitos sociais.
Numa série de artigos, propomos uma viagem através do tempo ao encontro dessas mulheres rebeldes.
Marie Curie encarna a própria essência da rebeldia intelectual. Ela não apenas desafiou as leis políticas de seu país e os preconceitos arraigados de sua época, mas também expandiu os próprios limites do conhecimento humano.
Marie nasceu Maria Salomea Skłodowska em 1867, em Varsóvia, então sob tutela russa. Desde muito cedo, a pequena Maria demonstrou aptidões intelectuais excepcionais. Seus pais lhe deram, assim como às suas irmãs, a mesma educação que ao irmão. No entanto, de acordo com as leis tsaristas, por ser mulher, a universidade lhe era proibida. Ela passou então a frequentar a «Universidade Volante», uma instituição clandestina que oferecia ensino superior às jovens polonesas, bem debaixo do nariz das autoridades tsaristas.
Esse ato de resistência seria o prólogo do seu destino.
Percebendo que seu país natal jamais conseguiria saciar sua sede de ciência, ela decidiu partir para Paris com sua irmã Bronia, que queria estudar medicina. Após anos de árduo trabalho como governanta para financiar os estudos de ambas, Marie finalmente chegou a Paris em 1891. Tinha 24 anos, quase nenhum dinheiro no bolso, mas uma sede de aprender insaciável.
A Sorbonne
Marie se matriculou na Sorbonne e estudou com uma intensidade ascética, se dedicando ao máximo para recuperar o tempo perdido. Vivia num sótão gelado, mal se alimentava, mas seu espírito florescia enfim. Terminou o curso de licenciatura em física em primeiro lugar e o de matemática em segundo.
Nesse ambiente de efervescência intelectual, conheceu Pierre Curie, um cientista tão livre e apaixonado quanto ela. A união entre os dois não era apenas romântica — era também a fusão de dois gênios extraordinários.
Juntos, eles se debruçaram sobre o mistério dos raios invisíveis emitidos pelo urânio.
Num galpão mal isolado, gelado no inverno e sufocante no verão, Marie mexia incansavelmente em grandes panelas ferventes de pechblenda, um minério de urânio. Mesmo assim, o establishment científico masculino tinha dificuldade em levá-la a sério. Marie persistiu. O esforço foi colossal, mas a recompensa mudou a face da física moderna: Marie e Pierre descobriram dois novos elementos químicos — o polônio, assim nomeado em homenagem à terra natal de Marie, e o rádio.
A era da radioatividade havia nascido.

Marie e Pierre Curie em seu laboratório.
Triunfos e tragédias: conquistar o seu lugar
Em 1903, o Prêmio Nobel de Física coroou as suas pesquisas.
Inicialmente, a Academia Sueca do Nobel pretendia homenagear apenas Pierre Curie e Henri Becquerel, omitindo deliberadamente a contribuição de Marie. Mas Pierre ameaçou recusar o prêmio caso ela não fosse incluída. Marie tornou-se assim a primeira mulher a receber um Prêmio Nobel.
Mas o destino, muitas vezes cruel, golpeou tragicamente. Em 1906, Pierre morreu, atropelado por uma carruagem.
Devastada, Marie recusa-se a cair no esquecimento reservado às viúvas da época. A sua dor transformou-se numa nova força motriz. Continuou as suas pesquisas e assumiu a cátedra do marido na Sorbonne, tornando-se a primeira mulher a lecionar na prestigiada universidade.
Contra a maré: resistir até ao fim
Em 1911, após a revelação de uma relação com o físico Paul Langevin, casado e pai de família, Marie enfrentou uma campanha de difamação sexista e xenófoba de rara violência por parte da imprensa francesa. No entanto, apesar deste linchamento mediático que ameaçava destruir a sua carreira, ela não cedeu e, nesse mesmo ano, deslocou-se a Estocolmo para receber o seu segundo Prémio Nobel, desta vez em Química.
Continua a ser, até hoje, a única pessoa galardoada com dois Prémios Nobel em duas disciplinas científicas distintas.
Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, fiel às suas convicções, Marie mobilizou-se de corpo e alma. Desenvolveu o uso das «Pequenas Curies» nas linhas da frente — unidades cirúrgicas móveis equipadas com aparelhos de radiologia, que ela própria conduziu durante a guerra. Contribuiu assim para salvar inúmeras vidas humanas.
Um legado imortal
Até ao fim, Marie não parou de investigar. Apesar de esgotada pela doença, percorreu o mundo, escreveu livros, visitou os Estados Unidos onde foi recebida em triunfo, e participou em congressos ao lado dos maiores cientistas da sua época, como o Congresso Solvay, onde esteve entre outros ao lado de Albert Einstein.
A sua contribuição para o avanço da ciência e da medicina foi finalmente reconhecida, nomeadamente o seu papel na luta contra o cancro. A sua filha mais velha, Irène, ajudava-a no trabalho. À semelhança dos pais, casou com um investigador e também ela viria a receber um Prémio Nobel.
«Aos grandes homens, a pátria reconhecida»
Marie Curie faleceu em 1934, consumida por décadas de exposição às radiações. Os seus cadernos de laboratório, tal como o seu próprio corpo, guardam ainda as marcas da ciência que ela trouxe à luz.
Aquela que foi outrora apelidada de «estrangeira, destruidora de lares» repousa hoje no Panthéon num caixão de chumbo, grande entre os maiores.
Insubmissa em silêncio, o seu trabalho e os seus atos triunfaram sobre os piores preconceitos. Ela não se limitou a aceitar o mundo tal como ele era. Dissecou-o, compreendeu-o e, por fim, conseguiu transformá-lo.