

A visita do Papa Leão XIV ao Líbano não é uma visita comum, é um momento histórico que impõe seu caráter excepcional. Nesta pátria-mensagem, e em toda a região e no mundo, convergem grandes confrontos: a paz diante da guerra, o diálogo diante da violência, a moderação diante do fanatismo, a diversidade diante da uniformidade, a humanização diante do populismo, a Constituição diante das leis de exceção, o direito diante do caos, a cidadania diante do minoritismo e do majoritarismo, o Estado diante da não-estatalidade, a governança diante da corrupção. O Líbano e o mundo livre vivem essas tensões em um momento em que o país tem uma rara oportunidade de provar sua capacidade de se reerguer.
Por cinco décadas, a Santa Sé nunca desistiu da ideia de um Líbano como “Estado modelo”, apesar dos colapsos políticos, econômicos e soberanos. Um cardeal disse certa vez: “Vocês acham que o Líbano histórico está morrendo, mas sua ressurreição virá das mãos de sua elite, residente e expatriada.” Era um sinal claro de que a aposta continua sendo nos próprios libaneses.
O Papa Francisco, hoje falecido, enfrentou essa realidade com clareza espiritual e política. Beijou a bandeira libanesa e mobilizou a diplomacia vaticana para proteger a identidade civilizacional do país, mas recusou visitar Beirute naquele momento, enviando uma mensagem inequívoca: não à aliança das minorias, não à não-estatalidade, não à corrupção, não à fusão da Igreja com o poder político, não à transformação do Líbano em plataforma de conflitos. Era o diagnóstico de um Estado em erosão e de uma fórmula civilizacional ameaçada.
Agora, o Papa Leão XIV chega com um título unificador: paz. Aqui, a paz não é apenas o oposto da guerra, mas o oposto do colapso moral, da renúncia nacional e da cumplicidade na destruição do Estado. É um ato de resistência contra as armas ilegais, contra alianças que fabricam minorias imaginárias, contra fanatismos que minam a Constituição, paralisam instituições e ameaçam a convivência.
Ele vem afirmar que o Líbano merece vida, merece ressurreição e merece um Estado à altura de sua mensagem. Vem reavivar a vontade de um povo exausto e lembrar a uma elite hesitante que o mundo ainda vê no Líbano um espaço de liberdade e responsabilidade. A escolha do Líbano como primeira etapa após a Turquia não é coincidência, é uma mensagem de que o colapso libanês atinge o núcleo do pluralismo em todo o Oriente e além.
Sua mensagem aos libaneses é clara: “Ou vocês salvam seu Estado, ou perdem sua missão.” Não há espaço para meio Estado ou meia soberania, nem para misturar boa governança com manipulação política, nem para ceder à chantagem das armas sob o pretexto da paz civil. A verdadeira paz se baseia na cidadania, na Constituição e na legitimidade internacional.
Sua mensagem ao mundo também é clara: “Salvar o Líbano é defender o ser humano”, defender um pluralismo ameaçado, preservar uma ponte entre Oriente e Ocidente. A paz torna-se um projeto de libertação: libertar o ser humano do medo, o Estado da dependência, a política da corrupção, a identidade libanesa da distorção.
A visita torna-se uma oportunidade de escrever um novo capítulo, a terceira independência: a independência do Estado diante do caos, da verdade diante da falsificação, do ser humano diante de sistemas que destroem o bem comum.