


Ousaríamos traçar um paralelo entre as respetivas trajetórias de dois ditadores depostos, a saber, Adib Chichakli e Bashar al-Assad? Ambos governaram a Síria com mão de ferro (1), para depois fugirem miseravelmente, abandonando os seus apoiantes à vingança popular. O primeiro saiu de fininho em fevereiro de 1954, e o segundo escapou sem alarde em dezembro de 2024. O mesmo padrão, com 70 anos de intervalo! Mas a comparação não fica por aqui, se considerarmos que ambos os ditadores tentaram recuperar uma posição na Síria a partir de um refúgio libanês! Vivendo em negação, nem um nem outro eram capazes de duvidar da sua popularidade junto de um povo que haviam reprimido, nem do entusiasmo que os sírios manifestariam caso regressassem ao poder.
Ora, como sempre, era a partir do Líbano que se urdiam as conspirações sírias destinadas a reconduzir os dirigentes fugitivos à chefia do seu país. Com efeito, convém repeti-lo, o País dos Cedros, pouco exigente quanto à qualidade dos proscritos que pedem asilo no seu exíguo território, tornara-se, desde a década de 1950, o local preferido para conspirar contra os regimes instalados em Damasco (2).
O Líbano, base de retaguarda
No início deste mês de setembro, as autoridades libanesas detiveram um antigo coronel sírio e quatro dos seus cúmplices. Apanhados na posse de armas ligeiras e explosivos, são suspeitos de planearem ataques contra as novas autoridades sírias. O caso é tanto mais grave quanto a rede em causa seria comandada à distância, a partir de Moscovo, por um antigo general do exército sírio, próximo de Bashar al-Assad e, tal como ele, refugiado na Rússia. Mais perturbador ainda: os suspeitos terão recebido treino militar no Líbano junto de combatentes do Hezbollah.
O alegado objetivo desta rede seria fomentar distúrbios ao longo do litoral sírio, uma região de maioria alauita e berço histórico do clã Assad. Teriam tais ações por objetivo devolver o poder a Bashar ou, mais simplesmente, semear a desordem e afirmar a especificidade das populações minoritárias acantonadas no seu reduto da costa mediterrânica? Mas não é essa a questão.
O Líbano, elo fraco e ponto vulnerável
Qualquer ativista sírio, exilado voluntária ou forçadamente no Líbano, tende naturalmente a sentir-se ali à vontade. Como se nada fosse, comporta-se como se estivesse em território conquistado, não hesitando em explorar as redes e oportunidades disponíveis para se reposicionar no jogo político do seu próprio país. Não serviu o nosso território libanês, durante décadas, de trampolim para os opositores sírios, de campo de confronto entre fações baathistas rivais e, além disso, de profundidade estratégica para o regime de Damasco? Afinal, foi precisamente no Líbano que foram assassinados oficiais sírios como Sami Hannaoui, em 1950, Ghassan Jedid, em 1957, Mohamad Umran, em 1972, entre tantos outros (3).
Assim, o Líbano sempre enfrentou um verdadeiro quebra-cabeças: ao proporcionar um refúgio mais ou menos seguro aos derrotados perseguidos, serviu-lhes de base de retaguarda para a reconquista do poder e, por conseguinte, teve de se expor à ira do regime instalado em Damasco, alvo das conspirações urdidas em Beirute e nas suas imediações.
Uma situação extremamente incómoda para um país de asilo como o nosso, ainda por cima quando os moralistas não param de nos dar lições. Segundo eles, cabe às autoridades libanesas, que supostamente devem inaugurar relações saudáveis com a Síria, pôr fim às maquinações dos exilados sírios. De facto, esses instigadores de distúrbios envenenam as relações com a nossa vizinha e irmã mais velha, mas que podemos nós fazer?
Mas porquê precisamente o Líbano?
Voltando a Chichakli: ele, que havia renunciado em 1954, regressou sorrateiramente ao Líbano em 1955, sob a proteção do PSNS (ou PPS), para tentar a sorte em Damasco. Como a tentativa fracassou, desapareceu de cena. Já em 1952, os seus adversários Michel Aflak, Salah al-Din al-Bitar e Akram Hourani o haviam abandonado para se refugiarem entre nós. Conspiraram tanto contra ele que Chichakli acabou conseguindo que o nosso governo os expulsasse.
Isso mostra o quanto Beirute é atraente aos olhos dos exilados, e não são apenas a proximidade geográfica e as fronteiras porosas que explicam todo esse fascínio. É também, naturalmente, o pluralismo do nosso regime político, a nossa imprensa mais ou menos livre das restrições da censura, a hospitalidade das comunidades religiosas que oferecem refúgio e, sobretudo, o fato de Beirute ser uma «cidade que faz barulho», onde a mídia internacional repercute imediatamente o menor incidente.
Em suma, é a natureza do nosso regime — ao mesmo tempo liberal, caótico, mas acolhedor — que favorece essa permissividade e essa tolerância para com o outro, características abomináveis aos olhos dos regimes repressivos.
Que é isso, senão uma confissão de impotência?
Esses libaneses! Vocês estão justamente onde a geografia os encurralou e confinou. Mais ainda, onde a história os moldou e até os feriu de corpo e alma. Vocês não podem escapar dessa fatalidade síria, assim como as elites de Damasco, Homs ou Alepo não podem renunciar às suas ambições em relação ao Líbano.
Vocês terão de conviver com isso. Boa sorte!
1-Mas o regime de Adib Chichakli jamais atingiu o grau de horror mantido por mais de cinquenta anos pela dinastia Assad.
2-Uma lembrança pessoal: quando éramos estudantes da Faculdade de Direito, em 1965, nunca deixávamos de ver Akram Hourani no café «Dolce Vita», em Raouché. Solícito, o garçom sussurrava maliciosamente ao nosso ouvido que ele devia estar preparando um golpe de Estado e que não deveríamos incomodá-lo.
3-Se omito alguns casos, é porque a lista de assassinatos encomendados pela dinastia El-Assad é longa demais para ser relembrada na íntegra.