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O Essencial do Dia

A divisão política no Líbano se aprofunda

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Várias aldeias no sul do Líbano foram completamente arrasadas pelo exército israelense. (Jalaa Marey / AFP)
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Por Taline Becharraoui
Publicado abr 28, 2026 - 22:38

O dia de terça-feira, 28 de abril, no Líbano segue fortemente marcado pelos discursos diametralmente opostos pronunciados na véspera pelo presidente da República, Joseph Aoun, de um lado, e pelo secretário-geral do Hezbollah, Naïm Qassem, do outro. O primeiro foi, na prática, uma resposta ao segundo. O presidente considerou que a verdadeira “traição”, da qual vem sendo acusado pelo campo pró-iraniano desde a abertura das negociações diretas com Israel para encerrar a guerra provocada pelo Hezbollah no sul do Líbano, deveria, na realidade, ser atribuída àqueles que arrastam o país para a espiral de destruição e violência.

Sem surpresa, a resposta inédita de um presidente da República ao líder de uma milícia, que até o fim de 2024 mantinha controle quase total sobre o Estado libanês, dividiu o país conforme a clivagem política já conhecida.

Joseph Aoun continua atraindo a ira do público do Hezbollah nas redes sociais, assim como de algumas figuras políticas, entre elas o deputado Ali Ammar, que o acusou de “vender o país aos sionistas”. E, para marcar a posição desse grupo, um dirigente citado pela emissora qatari Al Jazeera na noite de segunda-feira afirmou estar disposto a retomar atentados suicidas contra o Exército israelense.

O presidente também recebe mensagens de apoio, não apenas do público favorável à sua iniciativa, mas igualmente por meio de posicionamentos de diversas personalidades políticas, como o ex-presidente Michel Sleiman e o deputado de Beirute Fouad Makhzoumi. Na prática, o Hezbollah parece cada vez mais isolado no cenário interno.

No plano internacional, chamam a atenção as declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. Ele destacou o caráter “inédito” do cessar-fogo entre o Líbano e Israel, já que os dois países “não estão em estado de guerra”. Avaliou, assim, que o Hezbollah não está apenas em guerra contra Israel, mas também contra o Estado libanês. Ressaltou que os dois países concordam quanto a um Exército capaz de desarmar o Hezbollah, embora considere que o Exército israelense tem o direito de intervir onde os libaneses não forem capazes de fazê-lo.

Além disso, o ministro americano afirmou que Israel não tem pretensões territoriais no Líbano, ponto repetido mais tarde na terça-feira por seu homólogo israelense, Gideon Saar.

Se o dirigente americano parece apoiar as autoridades libanesas em seu braço de ferro com o Hezbollah, também surfa sobre as divisões libanesas, agora expostas de forma aberta. O Líbano se encontra, sem dúvida, em uma etapa delicada de sua história, com uma clivagem política que se transforma em verdadeira animosidade em plena guerra regional. Até onde isso levará o país?

Trump teria recusado uma ampliação das operações no Líbano

Enquanto isso, o terreno no sul segue em chamas. Os israelenses admitem perdas humanas e o Hezbollah continua suas operações, sem revelar seu próprio balanço de baixas. O cessar-fogo parece valer apenas para as regiões fora do sul. Em um desdobramento grave nesta terça-feira, o Exército israelense pediu a evacuação de várias aldeias de Bint Jbeil, que até então permaneciam fora da chamada linha amarela.

As ameaças israelenses contra o Hezbollah continuam, especialmente as feitas na véspera pelo ministro da Defesa, Israel Katz, que advertiu que as declarações de Qassem iriam “queimar” o Líbano inteiro. Tais palavras alimentam o temor de uma nova ampliação do conflito para diferentes regiões libanesas.

Isso, porém, pode não refletir a realidade. Segundo informação divulgada pelo Canal 12 de Israel e amplamente repercutida pela mídia local, o presidente americano Donald Trump teria rejeitado, em conversa com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, a ampliação das operações israelenses no Líbano, pedindo contenção a seu interlocutor. Também lhe teria solicitado que não comprometesse o cessar-fogo e, consequentemente, as negociações em curso entre o Líbano e Israel. Mais uma prova de que o presidente americano, consciente dos frágeis equilíbrios no cenário libanês, segue interessado em obter um sucesso rápido nesse tema. Os israelenses respeitarão esse quase sinal vermelho americano, ou a escalada no terreno, que também poderia favorecer o Hezbollah, voltará a servir de pretexto para ignorá-lo?

A proposta iraniana em análise

No campo das negociações entre americanos e iranianos, o principal desenvolvimento dos últimos dois dias é a proposta iraniana que o chanceler Abbas Araghchi, em visita a Moscou após passar pelo Omã e pelo Paquistão, encaminhou às autoridades americanas. A proposta iraniana, segundo o The Wall Street Journal, que cita fontes próximas ao caso, “busca romper a paralisia nas negociações”. Ela apresenta “um plano de paz em três etapas, que começa pelo fim da guerra israelo-americana contra o Irã, com garantias de que os ataques não serão retomados, após o que as autoridades iranianas trabalhariam com mediadores para resolver a questão do fechamento do Estreito de Ormuz visando a um acordo sobre o tema”.

Ainda segundo o jornal, os iranianos propõem retomar as negociações sobre o programa nuclear e o financiamento dos braços armados de Irã na região apenas depois de um acordo sobre o fim dos combates e sobre o estreito, que seguem querendo controlar. Vale notar que essa proposta foi comunicada aos americanos enquanto Araghchi estava na Rússia, recebido pelo presidente Vladimir Putin, e ao mesmo tempo atribuía aos Estados Unidos “a responsabilidade pelo fracasso das negociações até aqui”, assegurando que o regime iraniano havia demonstrado sua “solidez”. Isso ocorre enquanto divisões internas no Irã continuam vindo à tona por meio de vazamentos à imprensa.

Mais tarde, ainda na terça-feira (durante a madrugada nos Estados Unidos), informações também repercutidas pelo Wall Street Journal relatavam “insatisfação” de Donald Trump com as propostas iranianas.

Segundo as fontes do jornal, “o presidente americano as rejeita até o momento”, embora ressaltem que “as negociações continuam, sabendo-se que Trump não descarta retomar os bombardeios contra o Irã se sentir que as conversas não estão sendo levadas a sério pelos iranianos”. “Apresentaremos uma contraproposta nos próximos dias”, ainda segundo essas fontes.

O The New York Times segue na mesma linha e acrescenta que o presidente americano considera que a proposta iraniana não leva em conta o atual equilíbrio de forças e não traz nenhuma concessão importante, especialmente sobre a questão nuclear, considerada “essencial” para os Estados Unidos.

As negociações entre americanos e iranianos continuarão nesse ritmo lento, enquanto o fechamento do Estreito de Ormuz segue impactando a economia mundial e os preços? Ou estamos diante de uma retomada dos combates? Em ambos os casos, os países do Golfo estão preocupados, como o Qatar, que advertiu nesta terça-feira contra o conflito frio e latente.

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