

O Líbano já não tem o luxo das ambiguidades.
Num contexto de colapso generalizado — económico, institucional e social por um lado, e de guerra impiedosa sobre o nosso país — uma verdade impõe-se com urgência absoluta: não pode haver recuperação nem afirmação do papel do Estado sem o restabelecimento pleno e integral da sua autoridade.
Ora, neste ponto essencial, um avanço maior já ficou consagrado: a decisão clara de afirmar a ilegalidade da formação militar do Hezbollah e a concentração das armas nas mãos das forças armadas legítimas.
Esta decisão é justa. É necessária. É vital.
Mas hoje continua a ser insuficientemente aplicada.
Entre a decisão e a execução: o fosso perigoso
O Líbano sofre menos de um défice de textos ou de posições do que de um défice de execução. Com demasiada frequência, as decisões soberanas são tomadas… e depois deixadas em suspenso, esvaziadas da sua substância pela inação, pelos compromissos ou pelo medo do confronto.
Neste contexto, a manutenção por parte do Hezbollah de uma capacidade militar autónoma, em contradição direta com esta decisão do Estado, constitui um desafio frontal à autoridade nacional. Não se trata apenas de uma anomalia institucional: é uma colocação em causa do próprio princípio de soberania.
Face a isto, a ambiguidade já não é uma opção. O attentismo também não.
A exigência de firmeza
O que é agora esperado das autoridades políticas libanesas é claro: traduzir a decisão em atos. Com método, com responsabilidade, mas sobretudo com firmeza.
Não se trata de uma escalada, nem de uma postura. Trata-se de um imperativo soberano. Qualquer complacência prolongada não fará senão agravar as fraturas internas e expor ainda mais o país às turbulências regionais.
As Forças Armadas libanesas devem ser colocadas no centro desta dinâmica. Possuem legitimidade nacional e a confiança de uma ampla parte da população. Mas é necessário dar-lhes os meios políticos e operacionais para assumirem plenamente o seu papel.
Sair do medo
O verdadeiro obstáculo hoje não é a ausência de soluções. É o medo de as pôr em prática.
Medo das tensões. Medo das reações. Medo do custo político a curto prazo.
Mas a história recente do Líbano ensina-nos uma coisa: o custo da inação é sempre mais elevado do que o da coragem. Cada recuo do Estado foi pago com um enfraquecimento duradouro das suas instituições e uma deterioração das condições de vida dos cidadãos.
É tempo de inverter esta lógica.
Um apelo à mobilização cívica
Nesta fase decisiva, a responsabilidade não recai apenas sobre os dirigentes. Incumbe também ao conjunto da sociedade.
Um movimento popular, pacífico mas determinado, deve emergir para apoiar a aplicação efetiva das decisões do Estado. Não contra uma parte dos libaneses, mas a favor de um princípio fundamental: um único Estado, uma única autoridade, uma única força armada legítima.
Este apoio é essencial para dar aos decisores a coragem de agir e para isolar politicamente qualquer forma de recusa em conformar-se com a legalidade nacional.
A hora da verdade
O Líbano encontra-se numa encruzilhada.
Ou as decisões soberanas permanecem como declarações sem amanhã, e o país prossegue a sua lenta erosão. Ou são finalmente aplicadas com a determinação que a gravidade da situação exige, e uma perspetiva de recuperação volta a ser possível.
A escolha está ali. É clara.
Decretar já não basta.
É preciso agir.