


«Histórico». A palavra foi usada em quase todos os discursos proferidos na noite de quinta-feira (na noite no Líbano) em Washington, à margem da segunda rodada de negociações diretas entre o Líbano e Israel, sob o patrocínio americano. Negociações que desta vez foram realizadas na Casa Branca e não mais no Departamento de Estado, e que, além disso, contaram com a presença do próprio presidente americano, Donald Trump, o que deu uma dimensão completamente diferente ao evento.
O Líbano foi representado novamente por sua embaixadora Nada Moawad. Além do embaixador de Israel em Washington, Yechiel Leiter, vários políticos americanos estavam presentes: o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado Marco Rubio, o embaixador dos Estados Unidos no Líbano Michel Issa (de origem libanesa), o embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee.
As principais demandas transmitidas pela embaixadora do Líbano, como esperado, foram a prorrogação do cessar-fogo por 60 dias, o fim da explosão de casas e o fim das agressões israelenses no sul do país. Foi o próprio Donald Trump quem anunciou a prorrogação do cessar-fogo em sua rede social Truth Social, escrevendo que o novo prazo é de «TRÊS SEMANAS», em maiúsculas para bem marcar que se trata de uma realização. Três semanas, portanto (em vez dos 60 dias esperados), a partir de domingo, que deveria ter sido o prazo do cessar-fogo que entrou em vigor em 16 de abril à meia-noite.
As declarações foram particularmente entusiasmadas após a reunião, variando do «momento histórico importante» de JD Vance, às palavras de Marco Rubio sobre «dois países que querem viver em paz». Michel Issa agradeceu a Donald Trump por «um momento histórico que aproxima dois países que nunca estiveram lado a lado». O mesmo para Nada Moawad, que agradeceu a Donald Trump por ter feito deste evento «um momento histórico» por sua presença, esperando que com seu apoio, o Líbano pudesse recuperar sua grandeza.
As acusações contra o Hezbollah não faltaram, especialmente por parte de Mike Huckabee, para quem o problema «não é o Líbano, não é Israel, mas o Hezbollah». Marco Rubio reiterou que o Líbano e Israel são «ambas vítimas da mesma organização terrorista». O próprio Donald Trump prometeu que os Estados Unidos continuariam a «proteger o Líbano contra o Hezbollah», garantindo que o padrinho iraniano deveria cessar de financiar seu proxy no Líbano.
A novidade, na noite de quinta-feira, é que o presidente americano anunciou que a interrupção desse financiamento (iraniano ao Hezbollah) é uma condição «incontornável» na conclusão de um acordo na outra mesa de negociações, aquela entre o Irã e os Estados Unidos.
Além desta nova rodada de negociações, Donald Trump mostrou-se novamente otimista quanto à conclusão de um acordo entre o Líbano e Israel «ainda este ano». Ele mencionou a necessidade de um encontro entre o presidente libanês Joseph Aoun e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu na Casa Branca «nas próximas semanas», possibilidade que o primeiro continua a descartar por razões óbvias ligadas a dissensões internas libanesas e às exações cometidas pelo exército israelense em território libanês, bem como à incerteza quanto ao resultado dessas negociações, muitos estimando que tal encontro deveria ocorrer após um eventual acordo e não antes.
No terreno no Sul do Líbano, os combates prosseguem no mesmo ritmo apesar do cessar-fogo e sua prorrogação, como se os dois beligerantes não se importassem com os esforços de paz. A noite de quinta para sexta-feira e o dia de sexta-feira foram particularmente agitados e mortais no Sul. Enquanto Israel prossegue com sua demolição sistemática de casas nas aldeias e seus bombardeios, o Hezbollah intensificou suas operações contra o norte de Israel e os agrupamentos de soldados no Sul, fazendo questão de multiplicar os comunicados sobre suas operações ao mesmo tempo em que ocorriam as negociações que ele rejeita, em Washington.
A retórica também não se acalmou, já que o chefe do bloco do Hezbollah, Mohammad Raad, pediu ao Estado que se retirasse das negociações que, segundo ele, servem apenas para encobrir as agressões israelenses, enquanto o deputado do mesmo bloco, Ali Fayad, decretou que o cessar-fogo não faz sentido dadas as contínuas agressões israelenses.
Aoun na cúpula europeia em Chipre
Outra notícia política desta sexta-feira é a participação do presidente libanês na cúpula europeia que acontece em Chipre. Uma cúpula que reúne também outros líderes árabes, nomeadamente o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sissi, o presidente sírio Ahmad el-Chareh, ao mesmo tempo que os líderes dos Vinte e Sete. A situação explosiva no Líbano e as negociações com Israel estavam na pauta das discussões.
Uma declaração notável foi a de Kaja Kallas, alta representante da UE para Assuntos Estrangeiros, que mencionou uma discussão sobre a possibilidade de desdobrar forças europeias quando a missão da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (FINUL) terminar em dezembro de 2026, estimando que o exército libanês precisaria de apoio para desarmar o Hezbollah e estender sua soberania sobre o país. O presidente do Conselho Europeu, por sua vez, prometeu «apoio ao Líbano com vista a desarmar o Hezbollah».
As conversas do presidente Aoun incluíram o presidente francês Emmanuel Macron e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni. Ele declarou que «o Líbano negocia em seu próprio nome» e «recusa ser uma carta nas mãos de quem quer que seja». Ele acrescentou que o país «se encontra em uma encruzilhada e as escolhas que fará terão um impacto na estabilidade da região». Joseph Aoun também considerou que «esta etapa não é apenas uma prova, é também uma chance». Em outras palavras, ele reafirmou o processo de negociações e o monopólio das armas nas mãos do Estado, recebendo um apoio certo para sua abordagem.
Araghchi no Paquistão
No nível das negociações entre os Estados Unidos e o Irã, que estão bloqueadas desde quarta-feira enquanto o presidente Trump prorrogava o cessar-fogo até uma data não fixada, o desenvolvimento desta sexta-feira foi o anúncio da visita do ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, a Islamabad. À tarde, o Paquistão anunciou que uma nova delegação americana é esperada no mesmo dia.
No entanto, pouco depois, um funcionário paquistanês indicou ao canal saudita al-Hadath que «Araghchi esclareceu que sua viagem a Islamabad tem como único objetivo conversas com seus colegas paquistaneses, não negociações com a parte americana». Autoridades paquistanesas, no entanto, esperam um «esclarecimento» nas negociações após esta visita, sempre segundo o canal. No entanto, o retorno à mesa de negociações permanece mais incerto do que nunca.
Enquanto isso, a tensão permanece palpável no terreno e os ruídos de botas são audíveis. Segundo o Axios, o Irã teria plantado minas adicionais no Estreito de Ormuz. O ministro americano da guerra, Pete Hegseth, advertiu que os Estados Unidos «ainda têm o dedo no gatilho». Outro sinal de uma possível escalada é o envio de mais de 4000 soldados americanos para a região, segundo o Washington Post.
A que cenário devemos nos preparar para o futuro próximo? Uma escalada ou um acordo ainda improvável? O ministro israelense da Defesa, Israel Katz, por sua vez, não tem dúvidas: ele declarou na sexta-feira que Israel espera o sinal verde americano para um novo ataque contra o Irã, que seria «decisivo».