

Em tempos de guerra e de crise, a cena libanesa divide-se entre os que trazem à superfície todas as fracturas e todos os contenciosos para os atiçar e agravar, e os que se empenham em consolidar um clima de unidade nacional capaz de ajudar o país a atravessar o período difícil, na expectativa de dias mais calmos em que seja possível abordar as grandes questões nacionais.
É certo que este não é o momento de mergulhar em dossiers tão profundos e tão carregados como a validade do Acordo de Taif, a natureza do regime político ou a abolição do confessionalismo político. Esta é uma fase para o fim da guerra, para o tratamento das feridas, para a busca de uma saída do impasse em que o país se afundou — um impasse do qual nada, por ora, deixa pressagiar uma saída fácil a curto prazo.
Existem postulados aos quais seria impossível renunciar se o país quiser sair do profundo atoleiro que atravessa — postulados cujo abandono demonstrou já, na prática, ter um preço muito elevado:
— A exclusividade das armas nas mãos do Estado libanês.
Não há outra saída senão chegar a esta realidade, que se dá por adquirida em todos os países do mundo. Nenhum Estado consente em «subcontratar» a defesa do seu território a uma facção armada que não responde à sua autoridade e está ancorada, nas suas relações, no seu financiamento e no seu armamento, a um Estado estrangeiro.
O governo libanês deu passos importantes nesta direcção, mas nem os incessantes ataques israelitas o ajudaram a cumprir a sua missão, nem a própria natureza da implementação desta decisão difícil — a do monopólio das armas, que toca em numerosas complexidades e sensibilidades internas — lhe forneceu os meios para o fazer. Quanto aos que contam com Israel para se encarregar desta tarefa, a experiência dos quinze meses entre o cessar-fogo e a retoma das hostilidades deveria tornar difícil acreditar nessa opção, por devastadores que tenham sido os golpes desferidos ao Hezbollah.
— A decisão de guerra e de paz.
Se a convicção de que o Estado deve monopolizar as armas e a função defensiva se enraizou no espírito da grande maioria dos libaneses, o mesmo se aplica à decisão de guerra e de paz, cujo único titular deve ser o Estado. A invocação irresponsável da recusa desta realidade, a pretexto de que é Israel quem decide hoje a guerra e a paz com o Líbano, não suprime a necessidade de resolver esta questão em termos libaneses — este argumento é tão inaceitável quanto a afirmação outrora avançada de que Israel teria desencadeado a guerra de qualquer modo, mesmo que o Hezbollah não tivesse disparado os seus seis foguetes sobre os territórios ocupados.
— Um plano de defesa.
É impossível desviar o olhar da necessidade de o Líbano reflectir seriamente, para o futuro, sobre como proteger o seu território das agressões israelitas que nunca verdadeiramente cessaram no seu solo desde a Nakba de 1948, com intensidades variáveis que se acentuaram ou atenuaram consoante as circunstâncias políticas e militares. Se é certo que o Líbano nunca conseguirá, com as suas forças oficiais, fazer face a um exército israelita a quem o apoio ilimitado dos Estados Unidos garante a supremacia militar regional, é no entanto indispensável conceber fórmulas mais flexíveis capazes de proteger a sua fronteira sul e as aldeias da linha da frente, segundo a terminologia consagrada.
Resta que os desafios políticos e militares com que o Líbano se confronta neste momento exigem uma mobilização diplomática activa, conduzida pelo governo libanês, para colocar na mesa as propostas do Presidente da República — por intermédio dos amigos do Líbano — mesmo que essas propostas tenham sido recebidas com uma frieza política israelita que contrasta com a conflagração da frente libanesa.
É claro que a paralisia diplomática instalada dias após o início da guerra se deve à recusa israelita de todas as propostas e à sua total falta de pressa em apagar este frente — tanto mais que o Hezbollah, movido pela raiva suscitada pelo assassínio do Guia Supremo iraniano Ali Khamenei, recuperou alguma iniciativa e multiplica as salvas de foguetes que privam os habitantes do norte de Israel, ao longo da fronteira libanesa, de toda a segurança e estabilidade, obrigando-os a refugiar-se em abrigos subterrâneos.
Se Israel não dá mostras de qualquer pressa em pôr fim à guerra contra o Líbano, o perigo maior continua a ser a sua intenção de reocupar vastas franjas do Líbano sul — o que representaria um grave retrocesso relativamente à libertação de 2000, arrancada ao preço de grandes sacrifícios, com honra e altivez, e a perda de uma conquista considerável que distinguia então o Líbano como o único país árabe a ter obrigado Israel a retirar-se dos territórios que ocupava, não só sem acordo de paz, mas sem restrição nem condição alguma.
O Líbano encontra-se hoje perante uma verdade amarga: é ele que oferece negociações a Israel, e é Israel que as recusa — ao passo que no passado era Israel que procurava repetidamente concluir um tratado de paz com ele, e era o Líbano que não consentia. Entre esse momento e este, o essencial é que o país não se perca nos discursos incendiários de ambos os lados: de um lado, os que se gabam da sua força apesar dos ataques e não cessam de ameaçar desabar sobre o Líbano interior quando chegar o momento; do outro, os que estão prontos a absolver Israel de todas as suas agressões e de todos os seus ataques, e que parecem mal conseguir registar que mais de mil mártires tombaram no Líbano no espaço de apenas duas semanas!