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O Novo Mundo

O Líbano rompe a unidade de trajectórias com o Irão

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Por Khairallah Khairallah
Publicado abr 11, 2026 - 18:21

O anúncio da abertura de negociações líbano-israelitas, com presença americana, em Washington, não representa mais do que um primeiro passo num longo caminho que preparará a separação definitiva entre as trajectórias iraniana e libanesa. Deverá igualmente abrir a via, pelo menos em teoria, a um tratado de paz entre o Líbano e Israel à semelhança do tratado egípcio-israelita de 1979 e do acordo de paz jordano-israelita de 1984.

O que está agora em jogo é a capacidade do Líbano para recuperar a sua independência de decisão e dissociá-la da tutela iraniana, tal como soube outrora romper a unidade de trajectória com a Síria durante os mandatos sucessivos de Hafez al-Assad e de Bashar al-Assad. Ambos haviam brandido o slogan da «unidade de caminho e destino» com o Líbano, utilizando-o como alavanca nas negociações com Washington e como instrumento para perpetuar esse estado de nem-guerra-nem-paz que define há tanto tempo o Médio Oriente.

Será 2026 o ano em que o Acordo do Cairo será finalmente enterrado? Este acordo, assinado em 1969, está na própria raiz da tragédia libanesa. Tudo indica que foram necessários cinquenta e sete anos de guerras entre libaneses e de guerras travadas por outros em solo libanês para que o país conseguisse desfazer-se, enfim, desse acordo e das suas sequelas.

O que permanece estabelecido, pelo menos por agora, é que o Líbano está firmemente decidido, sob o impulso do presidente da República Joseph Aoun e do presidente do Conselho de Ministros Nawaf Salam, a rejeitar qualquer tentativa iraniana de negociar em seu nome. É certo que o Líbano procura, por intermédio deles, alcançar um cessar-fogo provisório à semelhança do acordo que a «República Islâmica» concluiu com os Estados Unidos; mas recusa igualmente deixar-se absorver nas negociações americano-iranianas votadas ao fracasso, sobretudo se Teerão se agarrar a exigências que nenhuma realidade poderia satisfazer.

Nada obriga o Líbano a continuar a pagar o preço das aventuras de um regime iraniano que não poupou esforços para o transformar numa das suas colónias. Teerão chegara mesmo, a certa altura, a considerar Beirute como uma capital árabe sob o seu controlo directo e como uma janela aberta para o Mediterrâneo, enquanto o sul do Líbano se transformava, numa fase semelhante, numa simples caixa de correio entre a «República Islâmica» de um lado e o Estado hebreu do outro.

Chegou o momento de pôr fim a uma mascarada que se prolongou por tempo de mais. A unidade de trajectória entre o Líbano e o Irão não é senão o equivalente do que foi a unidade de trajectória entre o Líbano e a Síria. A «República Islâmica» agarra-se ao Líbano como se fosse a última carta que lhe resta na região, ainda que conserve o seu controlo sobre o Iraque e sobre uma parte do Iémen, onde os huthis se encontram hoje numa situação de crescente embaraço, dependentes como são de um Estado árabe do Golfo para pagar os salários dos funcionários nos territórios que ainda controlam, a começar por Saná.

O passo dado pelo Líbano revela uma inteligência política assinalável, ainda que a primeira sessão de negociações directas com Israel, prevista para breve, revista um carácter essencialmente formal. Vale a pena notar que a aceitação por parte do Estado hebreu de realizar esta sessão chegou vinte e quatro horas depois dos bombardeamentos que havia lançado sobre diversos locais em Beirute, forma de afirmar que continua capaz de intervir no interior do Líbano e que detém as rédeas da decisão política no país. Terá o Líbano compreendido a mensagem israelita, que significa antes de tudo que o Estado hebreu está determinado a levar até ao fim a liquidação do Partido, e que não contempla qualquer retirada do sul do Líbano sem um prévio acordo de paz?

A questão de fundo, todavia, não deixa de permanecer em aberto, pois se as negociações da «República Islâmica» com o «Grande Satã» americano são lícitas, em nome de que lógica seriam as do Líbano com o «Pequeno Satã» israelita passíveis de proibição?

O Líbano optou finalmente por defender os seus próprios interesses e não os do Irão, ao serviço do qual o Hezbollah havia comprometido todos os seus recursos, obedecendo às ordens e directivas dos Guardas da Revolução. O Líbano sabe agora perfeitamente que o armamento do Partido significa a perpetuação da ocupação, o seu aprofundamento e a sua consagração, e que esse armamento constitui um factor de fraqueza e não de força, sob qualquer forma que assuma.

Sem dúvida alguma, o Líbano trava uma batalha de grande envergadura, cujos riscos não são menores do que os da batalha para sair da tutela síria em 2005, na sequência do assassínio de Rafic Hariri e dos seus companheiros, no décimo quarto dia de Fevereiro desse ano.

O que pode ajudar o Líbano nesta batalha é que a maioria dos libaneses está agora convencida de que o armamento equivale a perpetuar a ocupação israelita, e que a única via para se libertar dela reside em negociações directas com Israel, negociações que se tornaram inevitáveis. Valerá o Líbano menos do que o Egipto ou do que a Jordânia?

Ao Líbano não resta outra opção senão a negociação directa, para a qual se deve preparar constituindo uma delegação tão representativa quanto possível das forças políticas activas, incluindo as que encarnam um peso xiita real. A comunidade xiita tem interesses radicalmente distintos dos do Irão e do Hezbollah, na medida em que tem tudo a ganhar com o fim da ocupação israelita, com o regresso dos habitantes das aldeias devastadas e com a reconstrução dessas mesmas aldeias, em vez de ver os deslocados transformarem-se numa bomba-relógio à escala nacional, e de modo muito particular no próprio coração de Beirute.

O que pode finalmente ajudar o Líbano a avançar com determinação nas suas negociações com Israel é a perda por parte do Irão da sua carta síria. Desde que a Síria se livrou do regime alauita, deixou de constituir um instrumento de pressão sobre o Líbano oficial nem sobre os libaneses. Não há dúvida de que isso ajudará o país a libertar-se da tutela iraniana, para que o Líbano seja o Líbano e o Irão seja o Irão, e para que cesse de uma vez a mascarada que atende pelo nome de «unidade das frentes» e de «eixo da resistência».

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