

Israel estabelece como condição prévia o desarmamento do Hezbollah antes de qualquer negociação, uma exigência que sabe de antemão estar fora do alcance do Estado libanês, já que a decisão de guerra e paz permanece, em grande medida, fora das instituições desse Estado. Ainda assim, Israel deu um passo significativo ao nomear Ron Dermer para chefiar sua delegação nas negociações com o Líbano. Trata-se de um alto funcionário, próximo dos círculos de decisão e, em particular, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Essa nomeação confere consistência política à iniciativa israelense e envia um sinal inequívoco à comunidade internacional: Israel está disposto a se engajar em um processo de negociação no mais alto nível.
Por outro lado, o Estado libanês tenta formar uma delegação de negociação que reflita os equilíbrios confessionais internos sobre os quais se baseia o sistema político do país. No entanto, essa tentativa rapidamente esbarrou nas complexidades da realidade libanesa. O presidente do Parlamento, Nabih Berri, recusou-se a indicar o membro xiita da delegação, condicionando sua participação a um cessar-fogo completo antes de qualquer sessão de negociação. Isso ocorre justamente no momento em que o Hezbollah declarou que não aceitará nenhum cessar-fogo antes do fim da guerra contra o Irã, afirmando ter mobilizado todas as suas capacidades nesse conflito e que lutará até o fim ou até a vitória.
Essas posições praticamente fecham a porta para um cessar-fogo no curto prazo e reduzem a margem de manobra de qualquer iniciativa política ou processo de negociação. Elas também evidenciam a divergência entre a lógica do Estado libanês, que busca conter a crise por canais diplomáticos, e a dos grupos paramilitares, que vinculam suas decisões a um contexto regional mais amplo, que ultrapassa as fronteiras do Líbano.
À luz desses elementos, Israel parece ter conseguido marcar mais um ponto perante a opinião pública internacional. O país poderá apresentar-se como a parte que demonstrou disposição para negociar ao enviar um emissário de alto nível, enquanto o Líbano tende a projetar a imagem de um Estado incapaz de unificar sua decisão interna ou de cumprir os pré-requisitos para uma transição rumo a um acordo político. Essa percepção, seja ela precisa ou exagerada, enfraquece a posição negociadora do Líbano e dificulta a defesa de seus interesses nas instâncias internacionais.
Em última análise, esses acontecimentos revelam mais uma vez a profundidade do impasse em que o Líbano se encontra, onde se chocam um Estado de capacidades limitadas e uma força político-militar que toma decisões fora de suas instituições. Nesse contexto, qualquer processo de negociação ou solução política torna-se refém de equilíbrios regionais sobre os quais o Líbano não tem controle. Enquanto o Estado tenta consolidar sua presença à mesa de negociações, o verdadeiro desafio continua sendo devolver às instituições constitucionais a decisão sobre guerra e paz. Sem isso, o Líbano continuará sendo um terreno de ajuste de contas de conflitos regionais, em vez de um Estado capaz de defender seus próprios interesses nacionais.