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Opinião

Líbano: entre a inércia e a guerra imposta, o Estado no olho da tempestade do Hezbollah

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Por Khalil Helou
Publicado mar 5, 2026 - 08:39

O Líbano encontra-se hoje dividido por uma profunda linha de fratura vertical, sobretudo desde que o Poder Executivo decidiu proibir todas as atividades militares do Hezbollah. Enquanto isso, a situação no terreno continua a se deteriorar, à medida que o conflito entre Israel e o Hezbollah se amplia gradualmente.

A abertura da frente sul, somada às reações políticas e midiáticas do Hezbollah, nas quais critica o Conselho de Ministros e o presidente da República e ataca o Líbano como um todo, pode ser descrita, na melhor das hipóteses, como irresponsável, quando não abertamente desafiadora. Os primeiros a pagar o preço são os próprios apoiadores do Hezbollah. Em seguida, o Líbano como um todo.

Apoiadores do Hezbollah e suas famílias, que fogem das ameaças e dos bombardeios israelenses, enfrentam agora o quinto êxodo desde 1992. Não há, contudo, garantia de que este também será temporário, especialmente se, como declarou o ministro da Defesa de Israel, o país ampliar sua ocupação do sul do Líbano para estabelecer uma zona de amortecimento que avance em direção ao norte.

Desafiando toda lógica, muitos simpatizantes do Hezbollah aceitam essa situação. Expressam confiança inabalável em sua liderança, lealdade à República Islâmica do Irã e certeza de vitória sobre Israel, aconteça o que acontecer. Estão convencidos de que seu destino é morrer vingando a morte de Khamenei. Essa lógica suicida é profundamente preocupante, e a inação do governo corre o risco de prolongar um status quo corrosivo.

Desde o cessar-fogo de novembro de 2024, Israel vem atingindo continuamente a liderança e a infraestrutura do Hezbollah, sem provocar qualquer retaliação. Ao mesmo tempo, o grupo persistiu em se recusar a restaurar a soberania do Estado, descumprindo seus compromissos nesse sentido.

Até recentemente, os ataques israelenses eram conduzidos dentro de um quadro geográfico bem definido e previsível. No entanto, desde 2 de março, o Líbano foi arrastado para uma nova guerra de apoio, nos moldes de 2023 e 2024, versão 2.0, totalmente desnecessária e sem impacto sobre o conflito mais amplo entre o Irã, os Estados Unidos e Israel.

Torna-se cada vez mais evidente que o Hezbollah jamais mudará de posição, priorizando consistentemente a ideologia em detrimento do pragmatismo que um dia afirmou defender. Diante da escolha entre o suicídio e alternativas que garantiriam a segurança de seus apoiadores, optou pelo suicídio. Esse é um caminho que não pode impor aos demais libaneses, que escolheram o Estado de Direito, continuam a acreditar nele e há cinquenta anos buscam construí-lo.

A ocupação de trinta anos da Síria no Líbano, seguida pela hegemonia do Hezbollah e do movimento Amal, corroeu o Estado por dentro. Facilitou a consolidação de seus apoiadores, assim como de integrantes de feudos corruptos, nas administrações públicas, no Judiciário e nas instituições de segurança, minando sistematicamente suas bases.

Sem a presença de um punhado de verdadeiros resistentes, discretos, porém ativos nessas instituições, e há mais do que se imagina, o Estado já teria deixado de existir há muito tempo.

Passividade, a pior opção

Nos últimos quatorze meses, o Executivo e o presidente da República pouparam o Hezbollah, adotando uma postura paralisante de passividade enquanto uma transformação dinâmica ocorria no Oriente Médio. Nicolau Maquiavel considerava a passividade a pior das opções. Se os que detêm o poder permanecem neutros e inertes, tornam-se presa do vencedor. O Líbano não pode se dar ao luxo de se indispor com os Estados Unidos, onde vivem mais de um milhão de libaneses, incluindo cidadãos com dupla nacionalidade e americanos de origem libanesa. Entre eles estão senadores, membros do Congresso e autoridades como Thomas Barrack, Massaad Boulos, Darrell Issa, Daren Lahoud, entre muitos outros que atuam em apoio ao Líbano.

Ainda à luz de Maquiavel, e sobretudo em tempos de beligerância, o Líbano não pode adotar uma postura passiva entre Washington e Teerã. Tal neutralidade tornou-se sinônimo de ruína. Mais uma vez, Israel amplia sua ocupação do sul do Líbano, e o Hezbollah e o Irã mostram-se incapazes de impedir ou dissuadir esse avanço. Ao contrário, acabam fornecendo o pretexto para que Israel ocupe mais território libanês e desloque seus habitantes.

Alguns observadores afirmam que aplicar a mais recente decisão do Conselho de Ministros levaria a uma guerra civil ou a um confronto armado entre o Exército e o Hezbollah. Esses argumentos não se sustentam, pois o Hezbollah não pode se dar ao luxo, depois de tudo o que enfrentou, de um confronto direto com a instituição militar, nem de alienar ainda mais a maioria dos libaneses.

Outros analistas céticos questionam a capacidade do Exército de fazer cumprir a decisão do governo. Em um momento histórico como este, apenas estadistas, raros nos dias atuais, poderiam fazer a diferença, com visão clara e um plano preciso, evitando que o país deslize para a guerra civil ou para um confronto interno. Por exemplo, o Conselho Supremo de Defesa, que reúne o presidente da República, o primeiro-ministro e os ministros da Defesa, do Interior, das Finanças e da Economia, deveria se reunir em sessão aberta e supervisionar, hora a hora, a missão de desarmar o Hezbollah, em vez de deixar o Exército enfrentar sozinho uma situação politicamente complexa que se arrasta há quarenta anos.

O Conselho Supremo de Defesa poderia assumir a iniciativa e suas responsabilidades plenas, já que o poder decisório lhe cabe, e não aos militares. Ao fazê-lo, reafirmaria também a supremacia da autoridade civil sobre o Exército na atual crise.

Deixadas à própria sorte, ações militares podem ter profundas repercussões políticas. Com base nisso, o Exército deve estar politicamente respaldado, não apenas por meio de uma decisão do Conselho de Ministros, mas também sob supervisão próxima e contínua, hora a hora, para assegurar a correta implementação dessa decisão.

Além disso, a Comissão Parlamentar de Defesa está visivelmente ausente. Cabe a ela reunir-se periodicamente, com a frequência que a gravidade da situação exigir, para interpelar, assumir responsabilidades e, quando necessário, legislar a fim de orientar as ações empreendidas e fornecer todos os recursos necessários para que o Exército cumpra com êxito a missão que lhe foi atribuída.

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