


O Líbano se encontra agora abandonado à própria sorte, na ausência de uma posição unificada das mais altas autoridades do Estado, o presidente da República, o presidente do Parlamento e o presidente do Conselho de Ministros, diante da necessidade de encontrar uma saída, por um lado, e da vontade israelense de estabelecer uma zona tampão no sul, por outro. A ameaça israelense, porém, não se limita à criação dessa zona tampão; fica claro que o Estado hebreu insiste em destruir vilarejos libaneses ao longo do que é considerado a fronteira entre os dois países, linhas que jamais foram oficialmente delimitadas.
A necessidade de uma posição unificada e corajosa se faz sentir mais do que nunca, sobretudo porque o destino do país e seu futuro estão por um fio desde que os Guardiões da Revolução iranianos o arrastaram para uma guerra de caráter devastador. Como o Líbano enfrentará a presença de mais de um milhão de deslocados nos próximos meses? A responsabilidade por esse deslocamento em massa, que atinge majoritariamente xiitas, recai ao mesmo tempo sobre o Irã e o Hezbollah. Esses deslocados são consequência direta da decisão de iniciar uma nova guerra contra Israel, provocada pelos seis mísseis disparados pelos Guardiões da Revolução a partir do sul do Líbano, sob o pretexto de vingar a morte do Líder Supremo Ali Khamenei.
O que é desolador é que a República Islâmica, totalmente dominada pelos Guardiões da Revolução, sabe perfeitamente o que quer do Líbano e com que finalidade pretende utilizá-lo, sobretudo desde que passou a controlar completamente o Hezbollah. Ela parece disposta a sacrificar todos os libaneses, inclusive os xiitas, para afirmar que detém cartas na região e que é capaz de transformar o conflito em uma guerra regional, ou até em um confronto que possa afetar a economia mundial.
Em resumo, o regime iraniano busca demonstrar que seu investimento no Hezbollah e seus esforços persistentes para remodelar a natureza da comunidade xiita no Líbano foram um acerto e que há no país homens dispostos a morrer para merecer seu posto de “soldados” no exército do wali al-faqih, segundo a expressão frequentemente utilizada pelo falecido Hassan Nasrallah.
A administração americana sabe perfeitamente o que se espera do Líbano. Do ponto de vista do governo de Donald Trump, determinado a submeter o Irã, Israel goza de total liberdade de ação no Líbano. Em Israel, houve uma tentativa de confiar o dossiê libanês a Ron Dermer, um homem com sólido senso político; mas o tema voltou rapidamente às mãos do ministro da Defesa, Israel Katz, que não acredita na diplomacia e considera que não há outra solução para o Líbano além da via militar, que implica a eliminação do Hezbollah e de seu arsenal. A dificuldade, do lado israelense, reside na necessidade de Benjamin Netanyahu manter Dermer em Washington ou em contato permanente com a capital americana, já que ele mantém uma relação privilegiada com a administração Trump, cujas posições sobre a guerra com o Irã oscilam diariamente.
Existem uma posição americana e uma posição israelense. O Líbano constitui a parte atribuída a Israel. No entanto, falta um elo nessa equação, a posição libanesa. O que quer o Líbano? Quais são suas prioridades? Ele dispõe de outra opção além de negociar diretamente com Israel para saber o que esse Estado exige antes de permitir o retorno dos deslocados às suas aldeias ou ao que resta delas?
A crise dos deslocados constitui uma bomba-relógio que o Líbano terá de enfrentar, cedo ou tarde. Isso exige superar todos os bloqueios internos, inclusive a ideia de que Israel nutre ambições territoriais sobre o país. Se fosse esse o caso, Israel não teria deixado de entrar em guerra contra o Líbano em 1967, simplesmente porque o país se recusou a participar da Guerra dos Seis Dias, que terminou com a ocupação do Sinai, da Cisjordânia, incluindo Jerusalém, e do planalto do Golã. Além disso, se Israel realmente tivesse ambições sobre o Líbano, não teria aplicado, em maio de 2000, as disposições da resolução 425 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Israel acabou cumprindo essa resolução, adotada em 1978, retirando-se dos territórios libaneses sob certificação do próprio Conselho de Segurança.
O Líbano tem o dever de definir suas prioridades e de se engajar em negociações diretas com Israel, livre de qualquer ilusão. Tais negociações não poderão começar enquanto o Hezbollah permanecer armado, já que está estabelecido que esse armamento serviu apenas para trazer de volta a ocupação, perpetuá-la e alimentar uma discórdia interna em resposta às vontades do Irã.
Nas circunstâncias atuais, a situação no terreno já não permite distinguir entre paz e capitulação. Onde estaria a desonra na capitulação se ela representasse o único caminho para a paz? Todo o resto não passa de detalhes, perda de tempo e fuga constante da verdade e da realidade, quando se sabe perfeitamente o que Israel exige e que não existe, na prática, uma posição americana independente da posição israelense.
A tragédia libanesa se resume a uma única questão: como recuperar o território e qual o preço a pagar por isso. Um preço é inevitável, do qual não se pode escapar, nem que seja para evitar a explosão da bomba-relógio representada pelo milhão de deslocados. Diante do que o Irã impôs ao Líbano, a capitulação surge como o verdadeiro patriotismo, e o patriotismo como capitulação.
É hora do Líbano dizer o que quer, agora que se sabe o que Israel exige e que nenhuma posição americana pode se desvincular da posição israelense. A capitulação não tem nada de vergonhoso. A vergonha está na ausência de uma posição libanesa unificada que sirva de base para negociações diretas, sem as quais a ocupação não poderá ser encerrada nem a maioria dos deslocados poderá esperar retornar às suas aldeias…