


O presidente libanês Joseph Aoun chegou no sábado a Washington, onde será recebido, na terça-feira, pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No plano regional, os Estados Unidos intensificaram durante toda a semana passada seus ataques contra posições e infraestruturas dos Guardiões da Revolução iranianos, provocando uma resposta destes contra… os países do Golfo, enquanto a milícia iemenita pró-iraniana dos Houthis voltou a entrar em cena.
No fim desta semana, as atenções estavam voltadas, no cenário libanês, para as perspectivas da tão aguardada visita do presidente Joseph Aoun a Washington. O chefe de Estado, que chegou no sábado à capital federal acompanhado da esposa e de seus assessores, realizou no domingo à tarde (horário de Beirute) uma reunião no Departamento de Estado com o secretário de Estado americano Marco Rubio. Antes do encontro de terça-feira com o presidente Donald Trump na Casa Branca, Aoun também se reunirá com outras autoridades dos Estados Unidos.
A reunião entre o presidente Joseph Aoun e o secretário de Estado durou uma hora e meia. Na ocasião, o chefe de Estado insistiu na importância da implementação, o mais rapidamente possível, das zonas piloto que deverão ser evacuadas pelo Exército israelense para permitir o desdobramento do Exército libanês nessas áreas. Rubio reafirmou o compromisso dos Estados Unidos de trabalhar para concretizar o acordo-quadro firmado entre o Líbano e Israel. O chefe da diplomacia americana também elogiou os esforços do presidente Aoun e do governo Salam para restaurar a soberania do Estado libanês e desmantelar a milícia do Hezbollah.
Nesse contexto, fontes citadas pela emissora Al Hadath informaram no domingo que o governo Trump pretende estabelecer “uma aliança entre o Líbano e o Iraque para reduzir a influência iraniana na região”.
De qualquer forma, esta visita oficial de um presidente libanês aos Estados Unidos, a primeira em muitos anos, tem importância especial no contexto atual devido aos acontecimentos em curso não apenas no Líbano, mas sobretudo em toda a região.
A sexta rodada de negociações diretas entre Líbano e Israel, realizada esta semana em Roma, registrou avanços no que diz respeito ao início da implementação do acordo-quadro assinado em 26 de junho, em Washington. O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, anunciou já na terça-feira, em Jerusalém, que os israelenses “estão prontos para seguir adiante” na implementação das zonas piloto no sul do Líbano. As conversas, realizadas ao longo de dois dias entre os negociadores libaneses e israelenses, foram classificadas na quarta-feira pela Embaixada dos Estados Unidos no Líbano como “produtivas e positivas”.
Mas o diabo está nos detalhes, que deveriam ser discutidos na sexta-feira durante reuniões técnicas entre libaneses e israelenses. No entanto, esses encontros foram adiados porque o Líbano insiste que as zonas piloto sejam claramente vilarejos ocupados por Israel, enquanto Tel Aviv exige maiores garantias sobre a destruição sistemática de toda a infraestrutura do Hezbollah nas regiões entregues ao Exército libanês. Os israelenses apresentaram essas exigências aos americanos.
Em todo caso, os libaneses não são os únicos a enfrentar uma situação “ambígua”. As relações entre o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o presidente Trump também não atravessam um bom momento. A imprensa israelense informou esta semana que Netanyahu viajaria em breve a Washington para se reunir com o presidente americano, mas os Estados Unidos negaram que ele tenha conseguido agendar esse encontro.
Mais do que isso, segundo o portal Axios, a pressão americana sobre Netanyahu aumentou. O veículo revelou que, durante uma conversa telefônica realizada na quinta-feira, Trump pediu ao primeiro-ministro israelense que reposicionasse seu Exército na Síria e no Líbano.
Escalada no Irã
No terreno, no sul do Líbano, o Hezbollah ainda não retomou os combates, embora tudo indique que essa pausa seja apenas temporária. Segundo declarações de seus dirigentes, a milícia pró-iraniana “não pretende voltar à situação anterior a 2 de março”. Em outras palavras, o Hezbollah não continuará suportando indefinidamente os ataques israelenses sem reagir. Enquanto isso, os bombardeios e as explosões controladas de túneis e infraestruturas da milícia continuam. Outro indício importante é que as forças armadas sírias apreenderam esta semana um grande carregamento de drones procedentes do Irã destinados ao Hezbollah.
Nesse cenário, o partido xiita parece cada vez mais enfraquecido, com sua base popular deslocada ou vivendo em vilarejos que se tornaram inabitáveis. Além disso, desde a relativa trégua proporcionada pelo último cessar-fogo, dezenas de funerais de combatentes vêm sendo realizados nos povoados do sul.
Ainda assim, não se pode descartar que o Hezbollah volte a arrastar sua base social e o próprio Líbano para um novo conflito caso o Irã volte a estar no centro de uma grande escalada. Os ataques americanos contra o Irã prosseguiram sem interrupção durante toda a semana, e nada parece capaz de detê-los, sobretudo porque o Exército dos Estados Unidos deslocou 50 mil soldados para a região e enviou reforços aéreos a partir da Europa.
Segundo informações divulgadas pela imprensa esta semana, o presidente Trump informou o Congresso em 10 de julho sobre a retomada das operações militares americanas contra o Irã, classificando-as como “ataques defensivos” e “limitados”, planejados para reduzir ao máximo as perdas civis. Como essa comunicação ocorreu após uma interrupção motivada por um cessar-fogo e pela assinatura de um memorando de entendimento com o Irã em junho, analistas consideram que a escalada atual pode ser tratada como um novo conflito, concedendo ao presidente americano 60 dias de liberdade de ação antes de precisar solicitar autorização ao Congresso.
Do lado iraniano, os Guardiões da Revolução parecem agora conduzir claramente as operações. Até mesmo as declarações dos principais negociadores, o presidente do Parlamento Mohammad Ghalibaf e o ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi, tornaram-se mais agressivas, embora ambos pareçam perder espaço diante da ala mais radical. Assim, na sexta-feira, o Irã anunciou a suspensão do memorando de entendimento firmado com os Estados Unidos.
Divisões dentro do regime iraniano
É nesse contexto que se multiplicam os rumores sobre profundas divisões internas dentro do regime iraniano, sobretudo porque o líder supremo Mojtaba Khamenei permanece mais inacessível do que nunca. Isso faz com que diversas mensagens lhe sejam atribuídas sem que seja possível confirmar sua verdadeira origem. A mais recente, divulgada no sábado, contém ameaças aos americanos, prometendo-lhes “uma lição que jamais esquecerão”.
O episódio mais curioso da semana veio de uma declaração feita no sábado por uma “fonte iraniana” à agência russa TASS. Segundo essa fonte, Khamenei não pretende fazer nenhuma aparição pública antes do fim da guerra com os americanos. Caso isso ocorra, seria por meio de uma conversa telefônica ou de um encontro… com o presidente russo Vladimir Putin.
Enquanto isso, os Guardiões da Revolução são os responsáveis pela divulgação dos comunicados sobre os ataques contra os países do Golfo, atingindo os Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Bahrein e, agora, também a Jordânia. Esses países passaram a ser alvos diários de mísseis e drones iranianos, assim como as embarcações que atravessam o Estreito de Ormuz. Tanto os ataques americanos ao Irã quanto os ataques iranianos aos países vizinhos atingem cada vez mais alvos civis, especialmente infraestruturas energéticas. No sábado, os países do Golfo condenaram os ataques iranianos, classificando-os como “crimes de guerra”.
Ao manter o Hezbollah temporariamente fora do conflito, o Irã procura envolver os Houthis do Iêmen, tendo como principal carta a eventual interrupção de outra rota marítima estratégica, o Estreito de Bab el-Mandeb, caso suas infraestruturas sejam alvo de ataques em larga escala.
Nesse contexto, um incidente ocorreu na segunda-feira. O governo legítimo do Iêmen atacou o aeroporto de Sanaa, controlado pelos rebeldes Houthis, com o objetivo de atingir uma aeronave procedente do Irã que transportava passageiros que haviam participado do funeral de Ali Khamenei. Os Houthis responderam atacando um aeroporto na Arábia Saudita. Ainda assim, a frente Houthis ainda não entrou plenamente em combustão.
A visita do primeiro-ministro iraquiano a Washington
Mesmo diante desse quadro sombrio, alguns sinais mais moderados começam a surgir. Por um lado, os Estados Unidos ainda não fecharam completamente a porta para negociações, como destacou diversas vezes o presidente Trump ao longo da semana, dando a entender que prefere conversas em meio à crise a uma guerra sem fim. É verdade que qualquer incidente nessas circunstâncias se torna ainda mais perigoso. Na noite de sábado, dois soldados americanos morreram em um ataque iraniano contra a Jordânia, aproximando perigosamente a região de um ponto sem retorno.
Por outro lado, apesar de sua postura considerada suicida, os iranianos parecem querer evitar o pior cenário, o que explicaria o fato de ainda não terem lançado ataques contra Israel desde a retomada das hostilidades. E isso não ocorre por falta de interesse israelense em participar diretamente do conflito. Vazamentos divulgados pela imprensa no sábado à noite indicaram que Israel teria solicitado participar dos ataques contra o Irã, pedido que teria sido rejeitado pelos Estados Unidos.
Também merece destaque o fato de que o presidente Trump voltou a insistir esta semana em seu pedido ao presidente sírio Ahmad al Chareh para que intervenha no Líbano contra o Hezbollah. Até o momento, essas declarações não se traduziram em ações concretas, mas resta saber por quanto tempo Chareh conseguirá resistir à pressão americana.
Quem realmente ganhou destaque nos últimos dias, porém, foi o Iraque. O novo primeiro-ministro iraquiano, Ali al Zaïdi, foi recebido com grande pompa pelo presidente Trump na Casa Branca esta semana. Após o encontro, foram firmados numerosos acordos econômicos entre os dois países. Paralelamente, a imprensa informou que Bagdá pretende adotar restrições bancárias contra milícias sancionadas pelo Tesouro dos Estados Unidos, entre elas o Hezbollah. Por enquanto, o Iraque parece tentar equilibrar-se habilmente entre os dois lados, respondendo apenas ao mínimo das pressões americanas enquanto evita romper com o Irã e com as milícias a ele ligadas, inclusive as que atuam em território iraquiano.