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O Novo Mundo

A Jordânia, oitenta anos após a independência

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(KHALIL MAZRAAWI / AFP)
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Por Khairallah Khairallah
Publicado mai 21, 2026 - 14:55

Não é por acaso que o Reino Hachemita da Jordânia, que celebra neste 25 de maio o octogésimo aniversário de sua independência, se tornou uma das pedras angulares da segurança árabe, ou do que ainda resta dela.

Todas as teorias que subestimaram a Jordânia acabaram na lata de lixo da história, porque ficou evidente que o país jamais perdeu seu papel no cenário regional. A Jordânia resistiu apesar de todos os abalos internos e das tempestades que atravessou, e apesar das profundas transformações vividas pela região.

Em 1921, no mesmo ano em que foi proclamado o Emirado da Transjordânia, uma conferência reuniu no Cairo as principais figuras da política britânica sob a presidência de Winston Churchill. Lawrence da Arábia participou do encontro, ao lado da maioria dos especialistas britânicos em assuntos árabes, iraquianos e regionais, sobretudo da Palestina. Entre essas personalidades, destacava-se Lady Gertrude Bell, considerada então a figura britânica mais influente no Iraque e a pessoa com maior ascendência sobre o país. Foi ela quem desenhou o atual mapa do Iraque e desempenhou um papel decisivo na instalação dos hachemitas em Bagdá e na coroação de Faisal ibn Hussein.

Com o passar dos anos, tornou-se evidente que a Conferência do Cairo, cujo objetivo era dividir a região em zonas de influência entre a Grã-Bretanha e a França, terminou, em termos de resultados, em um fracasso retumbante sob todos os aspectos. Entre as manifestações mais marcantes desse fracasso estão o sangrento golpe militar que derrubou a monarquia iraquiana em 1958 e, antes disso, a Guerra de Suez em 1956, que marcou o declínio da Grã-Bretanha imperial, aquela sobre a qual “o sol nunca se punha”…

Um dos fatos mais marcantes da Conferência do Cairo foi a subestimação do príncipe Abdallah ibn Hussein, colocado à frente do Emirado da Transjordânia antes de se tornar rei em 1946, com a proclamação da independência do Reino Hachemita da Jordânia. Considerando o que aconteceu com a Palestina e o Iraque, a Jordânia pode ser vista como o único verdadeiro sucesso da Conferência do Cairo, e esse êxito permanece até hoje, sobretudo porque a solidez das instituições jordanianas se impôs de maneira evidente, especialmente a partir de 1952, quando Hussein ibn Talal ascendeu ao trono com apenas dezessete anos.

A Conferência do Cairo de 1921, que ilustra da melhor forma o fracasso da política britânica na região, não é o único episódio digno de atenção. A história moderna da Jordânia é repleta de acontecimentos marcantes, entre eles o papel decisivo desempenhado pela rainha Zein el-Charaf, mãe do rei Hussein, para impor seu filho como soberano apesar de sua pouca idade. O rei Hussein ibn Talal representou um fenômeno singular na história do país, sucedendo um pai acometido por uma doença mental que o tornava incapaz de permanecer no trono.

Sob o reinado de Hussein ibn Talal, a Jordânia adquiriu, graças às suas instituições, um papel determinante em todos os níveis, apesar dos abalos e conspirações das quais foi alvo, desde a ascensão da onda nasserista, ligada ao nome de Gamal Abdel Nasser, que provocou uma série de catástrofes, entre elas o golpe militar contra a monarquia iraquiana em 1958, a união entre Egito e Síria em fevereiro daquele mesmo ano e a derrota árabe de 1967, cujas consequências continuam pesando sobre a região até hoje.

A Jordânia enfrentou todos esses acontecimentos e todas essas tempestades com notável sangue-frio, começando por sua resistência ao projeto de pátria alternativa em 1970, quando o exército jordaniano enfrentou as tentativas de diferentes organizações palestinas de tomar o reino, preservando assim os palestinos deles próprios. Essa resistência foi possível graças à coesão entre os jordanianos de origem e o trono, uma coesão que hoje se transformou em solidariedade envolvendo todos os componentes da sociedade jordaniana. Os palestinos, instruídos por suas próprias experiências, tornaram-se os mais apegados ao trono hachemita e ao rei Abdallah II, que jamais deixou, ao longo dos anos, de apoiar a solução de dois Estados, a única opção realista para uma solução de longo prazo entre palestinos e israelenses, isto é, quando a direita israelense abandonar suas ilusões e uma liderança palestina digna desse nome souber estar à altura dos acontecimentos.

Em 2026, ninguém mais subestima a Jordânia, sobretudo diante desse espírito de continuidade que caracteriza um reino que soube se preservar em todas as circunstâncias, diante das turbulências iraquianas, sírias e israelenses.

A Jordânia se preservou ao assinar os acordos de Wadi Araba com Israel em 1994, uma iniciativa intimamente ligada à oportunidade aberta pelo engajamento de Yasser Arafat, líder histórico do povo palestino, nos Acordos de Oslo no outono de 1993.

A continuidade, ilustrada especialmente pela prudência que a Jordânia sempre demonstrou em suas relações com a “República Islâmica” do Irã desde sua fundação, está entre os fatores mais característicos do país, uma continuidade confirmada pela tranquila transferência de poder ao rei Abdallah II após a morte de Hussein ibn Talal em 1999.

Quem apostou na fragilidade do Reino Hachemita da Jordânia apostou em uma miragem, sobretudo desde que Abdallah II demonstrou sua capacidade de desempenhar um papel de destaque tanto na Jordânia quanto além de suas fronteiras, inclusive nos Estados Unidos. Hoje, o reino é um Estado que exerce um papel vital na estabilidade regional, apesar de todas as conspirações destinadas a enfraquecer esse papel, e a Jordânia tornou-se um refúgio para refugiados sírios e de outros países, depois de já ter acolhido, muito antes disso, refugiados palestinos vindos de toda parte.

Os acontecimentos demonstram diariamente a maneira como Abdallah II se consolidou como um ator indispensável na região, ao mesmo tempo em que ampliou o consenso interno em torno da instituição monárquica.

Ficou evidente que qualquer discurso sobre um suposto declínio do papel regional da Jordânia é absurdo. Quanto mais o tempo passa, mais se revela a necessidade do papel jordaniano diante de todas as formas de extremismo, seja o da Irmandade Muçulmana ou o do regime iraniano e de seus diferentes instrumentos. Mais importante ainda, os acontecimentos demonstram diariamente que a segurança do Golfo está intrinsecamente ligada à segurança da Jordânia, assim como a segurança da Jordânia está ligada à do Golfo…

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