

Com o deflagrar da segunda guerra israelo-americano-iraniana, as questões e as observações se acumulam em torno deste grande conflito que transformará, sem a menor dúvida, o rosto da região e do mundo, deixando atrás de si profundas repercussões sobre o futuro do Oriente Médio e a natureza das suas relações políticas. Eis as observações mais salientes:
— É evidente que esta guerra não foi bem preparada. Apesar da eliminação do Guia Supremo, do ministro da Defesa iraniano e do alto comando desde as primeiras horas, a arquitetura de comando e controle no Irã é igualmente descentralizada — como o comprova a persistência das salvas de mísseis disparados em todas as direções. A incapacidade de os Estados Unidos e Israel neutralizarem a capacidade de segundo ataque do Irã (Second Strike Capability) confirma esta impressão. Da mesma forma, a aposta num levantamento de protestos por todo o Irã fracassou e não pode ser invocada como fator confiável. Tampouco se pode ignorar que o combatente iraniano age a partir de uma doutrina religiosa que vê o martírio não como uma ameaça, mas como uma finalidade e um ganho.
— A par das consideráveis perdas iranianas, não é possível desviar os olhos do fato de que os mísseis iranianos destruíram efetivamente todas as bases militares americanas nos países do Golfo, segundo um relatório revelador publicado pelo The New York Times — o que levanta a questão séria e profunda de saber se o envolvimento americano nesta guerra serve realmente «o interesse nacional dos Estados Unidos». Os comentários políticos multiplicaram-se sustentando que Israel «enredou» Washington nesta batalha, informando-a da sua decisão de ir à guerra em vez de solicitar a aprovação americana, como faziam os governos israelenses anteriores antes de empreender qualquer operação militar de envergadura. Isso coloca em causa o lema de Trump de pôr fim a todas as guerras e a sua vanglorização de ter encerrado pelo menos oito conflitos.
— Esta guerra não dispõe de cobertura política ou jurídica, nem no plano internacional — com a deliberada exclusão das Nações Unidas e de todos os seus organismos —, nem no plano interno americano, onde o presidente Donald Trump contornou completamente o Congresso sem solicitar a sua aprovação, ignorando as instituições políticas americanas e a própria Constituição.
— O debate alarga-se no interior dos Estados Unidos sobre os verdadeiros objetivos da guerra e se o Irã representa realmente uma ameaça para a segurança nacional americana. É certo que Teerã nunca deixou de brandir o lema «Morte à América» e que lhe são atribuídos numerosos ataques contra forças americanas. Mas a discussão séria gira em torno de saber se o Irã ameaça realmente a segurança interna dos Estados Unidos, e se ir à guerra é a resposta mais adequada ao desafio que representa. Este debate regressa, inevitavelmente, a Israel: a ameaça aponta a Israel, não à América, e foi Israel que arrastou os Estados Unidos para este conflito. Washington paga hoje um preço muito mais elevado do que o próprio Israel.
— Os bombardeamentos iranianos contra os países do Golfo deveriam levar os Estados Unidos a refletir profundamente sobre as suas consequências, e a estabelecer uma comparação inevitável: os países do Golfo contribuem para a economia americana com bilhões de dólares em contratos de armamento e de outra natureza, enquanto Israel custa a Washington dezenas de bilhões de dólares por ano desde a Nakba de 1948. Não existe um sentimento crescente nos círculos americanos de que Israel se tornou mais num «fardo estratégico» do que num verdadeiro «aliado estratégico»? É um debate político sério que percorre numerosos meios nos Estados Unidos.
Seja como for, a região está aberta a todas as possibilidades. A ambição israelense de dominar a região e ir absorvendo os seus territórios um a um poderá não ser tarefa fácil, à luz das profundas transformações que o Oriente Médio está a conhecer neste momento. A sua política — fundada na recusa de reconhecer os direitos legítimos do povo palestino, na perpetuação da ocupação dos territórios de 1967, na indiferença absoluta a todas as iniciativas de paz ao longo de décadas, e na rejeição de todas as soluções propostas — não pode prolongar-se indefinidamente.
Quem disse que a aceitação árabe — e não árabe — da supremacia total de Israel sobre a região seria algo ao alcance da mão, mesmo que o desempenho árabe ao longo das décadas passadas tenha sido decepcionante e insuficiente para fazer face aos crescentes desafios que representa o projeto israelense em cada uma das suas etapas — desde a fundação do Estado sionista sobre as terras da Palestina histórica até à erosão progressiva de outras terras árabes, passando pela recusa de criar um Estado palestino independente, pelo impedimento do retorno dos refugiados ou de qualquer entendimento sobre os arranjos para Jerusalém, até ao colapso de todas as barreiras políticas e morais na última guerra de Gaza, onde o número de mártires se aproxima dos setenta mil civis e inocentes?
A região entrou num parto doloroso, e sair desta guerra será infinitamente mais difícil do que nela ter entrado. Os acontecimentos que se avizinham serão testemunha disso.