


O regime dos aiatolás estaria afrouxando o controle sobre o uso compulsório do véu islâmico ou apenas concedendo uma flexibilização temporária para apaziguar uma população exasperada? Uma coisa é certa: nos últimos anos, as mulheres têm desafiado cada vez mais as rígidas normas da República Islâmica, e um vento de liberdade percorre as ruas do Irã.
Torna-se cada vez mais comum ver mulheres dançando em festas ou conversando em cafés sem o lenço na cabeça. Imagens impensáveis até pouco tempo atrás se multiplicam. Tranças, cabelos cacheados ou descoloridos começam a se impor nos espaços públicos, ao lado de mulheres mais tradicionais que usam hijab ou chador. Esse fenômeno, mais visível nos últimos meses em Teerã e em outras grandes cidades, hoje afeta todas as gerações, em diferentes graus.

Algumas mulheres optam cada vez mais por roupas justas ou por mostrar os ombros, as pernas ou o abdômen, para desgosto de setores conservadores, que classificam esse comportamento como “nudismo”. Ainda assim, um número crescente de mulheres aparece em público sem cobrir a cabeça, apesar da repressão que atingiu o movimento de protesto “Mulher, Vida, Liberdade” em 2022 e 2023, após a morte sob custódia da jovem curda Mahsa Amini, detida pela polícia da moral por violar o rigoroso código de vestimenta.
Um poder dividido
Essa flexibilização relativa ocorre em um momento em que o Irã saiu enfraquecido da guerra de 12 dias contra Israel, em junho passado, e quando se desenha a sucessão do líder supremo Ali Khamenei, no poder desde 1989 e hoje com 86 anos. O uso do véu, no entanto, continua sendo um tema divisivo até mesmo dentro do governo.
O presidente Massoud Pezeshkian considera que as mulheres não podem ser obrigadas a usá-lo. No ano passado, sua administração se recusou a promulgar uma lei, aprovada pelo Parlamento, que teria aumentado drasticamente as sanções contra mulheres que não usam o véu ou o utilizam de forma considerada inadequada.
Embora as autoridades iranianas tenham de fato relaxado sua postura em relação ao uso do véu em espaços públicos, ainda não estão dispostas a abandonar esse pilar da República Islâmica, apontam analistas e ativistas, que alertam para a possibilidade de uma guinada repressiva repentina. Segundo Arash Azizi, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, “o regime abandonou a aplicação estrita do véu obrigatório, mas não abandonou o princípio em si”.
“Seria uma concessão ideológica enorme, para a qual não está preparado. Mas sabe que será muito difícil colocar o gênio de volta na garrafa”, acrescenta o pesquisador.

Até mesmo o gabinete do líder supremo foi alvo de críticas por parte de ultraconservadores depois de publicar, em novembro, uma foto de Niloufar Ghalehvand, instrutora de pilates que morreu durante a guerra com Israel, na qual aparecia sem lenço e usando apenas um boné.
Durante a Semana de Design da Universidade de Teerã, em novembro, foi possível ver mulheres sem véu circulando pelas exposições. No entanto, o evento precisou ser encerrado antes do previsto após protestos de dignitários religiosos.
Repressão intensificada
O chefe do Judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei, afirmou que os serviços de inteligência devem informar sobre “redes que promovem a imoralidade e o descumprimento do uso do lenço” e prometeu que sua instituição atuará em conformidade. No início de dezembro, o líder supremo defendeu o hijab em um discurso, ao afirmar que as mulheres que o usam “progridem mais do que outras em todos os campos e desempenham um papel ativo na sociedade e em seus lares”.

Embora as imagens de mulheres sem véu e aparentando alegria possam transmitir a impressão de uma liberdade generalizada, organizações ativistas alertam que a repressão se intensificou nos últimos meses, após a guerra com Israel. Mais de 1.400 execuções já foram realizadas neste ano, segundo algumas ONGs, e diversos grupos, em particular os bahaís, a maior minoria religiosa não muçulmana do país, enfrentam uma perseguição crescente.
A vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2023, Narges Mohammadi, que estava em liberdade sob fiança desde dezembro de 2024 e nunca cobre a cabeça, foi presa novamente em 12 de dezembro, em Mashhad, após intervir em uma cerimônia em homenagem a um advogado encontrado morto no início de dezembro.