


Que o embaixador iraniano designado para o Líbano, Mohammad Reza Sheibani, fique ou parta, não é aí que reside o essencial. O que importa é a carga simbólica que encerram duas posições bem distintas, a do Ministério dos Negócios Estrangeiros libanês, que declarou o embaixador persona non grata, e a do "duo xiita" em resposta.
Para além das considerações nacionais que impõem ao Líbano uma postura corajosa perante um Estado que interfere incessantemente nos seus assuntos internos e o trata como uma simples colónia vassala, a tomada de posição oficial libanesa atesta a profundidade da mudança ocorrida no próprio país, na região e muito além. Uma profundidade que ainda escapa ao pensamento iraniano e ao da milícia confessional libanesa ao seu serviço, o Hezbollah. Nunca se deve perder de vista que o Hezbollah não constitui outra coisa senão uma brigada dos Guardiões da Revolução iranianos, cujos membros são na sua grande maioria de nacionalidade libanesa.
Uma questão de uma simplicidade desconcertante impõe-se à "República Islâmica" tanto quanto ao Hezbollah, que deveria tentar respondê-la. Eis a questão: se a perturbação provocada pela "guerra de apoio a Gaza" não tivesse ocorrido, teria o Irão aceite, através do Hezbollah, que Joseph Aoun se tornasse presidente da República libanesa?
Os factos fornecem a resposta. A mudança propiciada pelos resultados dessa guerra, nomeadamente o assassinato de Hassan Nasrallah e do seu sucessor designado Hachem Safieddine, permitiu a Joseph Aoun chegar ao palácio de Baabda. Sem isso, o Hezbollah ter-se-ia aferrado ao seu próprio candidato, tal como fizera após o fim do mandato do presidente Michel Sleiman em 2014. O país teve então de esperar longos meses antes que todos cedessem à vontade de Nasrallah e do Irão e elegessem, no final de outubro de 2016, Michel Aoun como presidente, com o seu genro Gebran Bassil na sua esteira.
Nada mede melhor a amplitude da mudança vivida pelo Líbano do que o reposicionamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Dirigido agora por Youssef Rajji, o ministério deixou de funcionar como um anexo do seu homólogo iraniano, como foi o caso quando Gebran Bassil e outras figuras do "duo xiita" detinham a pasta. Estes exerciam, na realidade, como representantes da "República Islâmica" no seio da Liga dos Estados Árabes. Bassil, genro de Michel Aoun, não escondia a sua recusa em mostrar solidariedade com as posições árabes quando ocupava o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. Ministros árabes não hesitaram em qualificá-lo de chanceler da "República Islâmica", que nem sequer era membro da Liga Árabe.
O que continua a ser mais desconcertante é a posição adotada pelo movimento Amal, presidido pelo presidente do Parlamento Nabih Berry. Revela porventura que Berry se encontra na impossibilidade de se libertar da órbita iraniana e de tudo o que representa, apesar de tudo o que o Irão perpetrou contra o Líbano e os libaneses, incluindo os xiitas, os habitantes do Sul e do Bekaa?
Em suma, o que a decisão do Estado libanês de exigir a saída do novo embaixador iraniano, que já havia exercido funções no Líbano anteriormente, revelou com maior clareza foi que a "República Islâmica" logrou transformar radicalmente a própria natureza da comunidade xiita. Conseguiu-o mediante um esforço contínuo iniciado em 1982, quando os primeiros contingentes dos Guardiões da Revolução entraram em território libanês sob o pretexto de defender o país face à invasão israelita.
Convém regressar a esse período em que os Guardiões trabalharam para se entrincheirar no quartel Sheikh Abdallah, uma instalação do exército libanês em Baalbek. O primeiro gesto do Irão no Líbano foi assim atentar contra o exército, coluna vertebral do Estado. Deve assinalar-se igualmente que a fundação do Hezbollah foi acompanhada da criação de instituições educativas destinadas a impor o currículo iraniano nas escolas do partido (as escolas Al-Mahdi e Al-Moustafa). Mais ainda, toda uma formação foi imposta à juventude xiita, assente em valores alheios ao Líbano. Os "Scouts do Mahdi" disso dão testemunho eloquente, preparando os adolescentes xiitas para servir nas fileiras de uma milícia confessional sem qualquer ligação ao Estado libanês ou à sociedade libanesa.
A partir daqui, a posição do "duo xiita" face à expulsão do embaixador iraniano torna-se inteligível. Este embaixador estava acreditado junto do "duo" antes de o estar junto do Estado libanês, o que significa que o "duo" possui um Estado próprio, separado do Estado libanês, sobre o qual o Irão e os seus interesses exercem pleno domínio.
Seja como for, a posição do Ministério dos Negócios Estrangeiros libanês, indissociável da do governo de Nawaf Salam, permanece mais um passo num longo caminho que deverá conduzir ao dia em que o Estado libanês recupere a sua plena soberania de decisão... desde que o Líbano saia ileso da "guerra de apoio ao Irão" que decorre neste momento.
A viagem rumo à reconquista de uma decisão soberana, liberta da tutela iraniana, começou com a eleição de Joseph Aoun para a presidência e a formação do governo de Nawaf Salam. A expulsão do embaixador iraniano não representa senão mais um passo nesse caminho.
Os comportamentos iranianos que o "duo xiita" traduz denunciam uma recusa em reconhecer que o antes e o depois da "guerra de apoio a Gaza" constituem duas realidades incomparáveis, e que a influência do Irão recuou consideravelmente. Beirute deixou de ser essa cidade iraniana no Mediterrâneo, essa capital árabe sob a tutela de Teerão. Libertou-se da hegemonia iraniana, sobretudo agora que o Irão abandonou a Síria sem possibilidade de retorno e a Síria volta a ser um Estado árabe que já não é governado pelos Guardiões da Revolução.
Em solo libanês, o "duo xiita" trava hoje uma guerra perdida de antemão. A sua sorte nela não será melhor do que na "guerra de apoio a Gaza". Mais cedo ou mais tarde, à "República Islâmica" não restará outra saída senão a capitulação. O controlo sobre as decisões de guerra e paz no Líbano não a salvará desse destino. Tampouco a fuga para a frente mediante agressões contra os países do Golfo árabe, nem a manutenção do seu embaixador no Líbano na qualidade de enviado acreditado junto do "duo xiita" em vez de junto da República libanesa...