


A trégua de 60 dias durante a qual Teerã e Washington supostamente dariam continuidade às suas negociações em busca de uma paz duradoura terminou na segunda-feira em tom belicoso e sem qualquer mudança nas posições dos dois beligerantes. A tensão voltou a escalar entre as duas partes, que concordam em apenas um ponto: não há intenção de ceder.
Aplicando o princípio de que o melhor ataque é a defesa, o Irã aparentemente optou por uma estratégia “totalmente ofensiva”, chegando a fixar um “ultimato” (!) de “algumas semanas” a Washington para que este “cumpra as disposições do memorando de entendimento assinado em junho passado”, informou na segunda-feira a agência internacional Reuters, citando um alto funcionário iraniano.
Segundo a Reuters, Teerã está disposta a agir caso os esforços diplomáticos com os Estados Unidos fracassem. “As entidades iranianas devem estar preparadas para uma escalada das tensões no estreito de Ormuz e na região em sentido amplo, pois o Irã estará pronto para tomar decisões e agir diante de escolhas difíceis”, afirmou o funcionário, acrescentando que seu país realizaria um ataque militar “oportuno e preciso” para romper o bloqueio naval americano.
Avançando em sua arrogância e no comportamento típico de quem se coloca na posição de “vencedor” que impõe condições ao vencido (!), a República Islâmica “exige, no curto prazo de algumas semanas estipulado, que os Estados Unidos implementem todas as disposições do acordo” de junho. “Isso é uma condição prévia para a continuidade das negociações com Washington”, declarou o funcionário iraniano à Reuters, acrescentando que os mediadores comunicarão o prazo final de Teerã a Washington e aos estados da região.
Este “aviso” ilustra, na verdade, até que ponto as sanções econômicas e o bloqueio naval americano sufocam um Irã submetido a sérias dificuldades econômicas e financeiras e que, por isso, está disposto a qualquer coisa para se safar. O aviso veio poucas horas após uma entrevista concedida pelo presidente Donald Trump à Fox News, na qual ele reafirmou sua determinação em intensificar as sanções, lembrando o objetivo central da guerra: “Impedir que o Irã se dote de uma arma nuclear.” O inquilino da Casa Branca disse não estar “com pressa”, em alusão às eleições legislativas de novembro. No entanto, surpreendeu ao ameaçar Omã com ataques militares caso este se “atravessasse” num acordo sobre o estreito de Ormuz, mais um ponto de conflito entre Teerã e Washington.
Um funcionário iraniano sinalizou na segunda-feira, mais uma vez, que seu país está prestes a fechar um acordo com Mascate sobre a navegação nessa passagem marítima estratégica, mas os Estados Unidos temem que tal acordo prejudique a liberdade de trânsito dos navios em Ormuz, que faz parte das águas internacionais.
Em sua entrevista à Fox News, Donald Trump garantiu, porém, que uma saída diplomática ainda era possível com Teerã, ao mesmo tempo em que observou que “os iranianos não parecem querer, por ora, uma solução diplomática”. Mesmo assim, pediu a Teerã que “hasteasse a bandeira branca da capitulação”, antes de reafirmar a existência de um canal de comunicação indireto com os Guardiões da Revolução Islâmica. Estes, por sua vez, apressaram-se a desmentir a informação. Seu porta-voz, Hossein Mohammadi, afirmou não existir “nenhuma forma de contato” com os americanos, acusando Trump de “delirar”. Segundo o Axios, seria o líder curdo Nechirvan Barzani o elo entre os Pasdaran e Washington, tendo trabalhado para organizar um encontro entre as duas partes.
Tensões no terreno
A escalada verbal, que já dura alguns dias, é acompanhada de tensões reais no terreno, todas provocadas pelos aliados do Irão na região. É neste contexto que devem ser situados os ataques diários — dois deles na segunda-feira — dos Houthis contra alvos sauditas, bem como o ataque com drone explosivo realizado no sábado pelo Hezbollah contra militares israelitas no sul do Líbano, o qual desencadeou uma violenta resposta do exército israelita.
Na noite de domingo para segunda-feira, dois drones armadilhados visaram, sem causar vítimas, o gabinete do primeiro-ministro do Curdistão iraquiano, Masrour Barzani, e a residência do chefe dos serviços de informações locais, perto de Erbil. Teerão foi imediatamente apontado como responsável, mas não reagiu às acusações. O Curdistão iraquiano, aliado dos Estados Unidos, mas vizinho do Irão, tem sido regularmente atacado desde o início da guerra regional.
Enquanto o dossiê iraniano continua bloqueado, os do Hamas em Gaza e do Hezbollah no Líbano avançam a passos lentos. Em visita a Israel, o enviado do presidente Trump, Jared Kushner, reuniu-se com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, depois de no dia anterior ter conversado com representantes do Hamas no Egipto. No centro das discussões está a segunda fase do plano americano, que prevê, nomeadamente, o desarmamento do Hamas e a retirada das forças israelitas de Gaza, mas que Telavive contesta. Israel exige um desarmamento “genuíno” do Hamas, que por sua vez reclama que as suas armas sejam guardadas em depósitos.
Israel insiste, neste âmbito, que esta facção pró-iraniana não deve ter qualquer papel no enclave. Segundo várias fontes concordantes citadas por meios de comunicação ocidentais e israelitas, Jared Kushner teria obtido um compromisso nesse sentido dos representantes do Hamas e tê-lo-ia transmitido a Benjamin Netanyahu. De acordo com o Jerusalem Post, as armas do Hamas seriam entregues aos americanos, que as destruiriam. O primeiro-ministro israelita deveria garantir ao seu interlocutor que Israel se retirará de Gaza após a conclusão deste processo, ainda segundo o JP.
Um sinal que remete para o Líbano, onde o Hezbollah continua a recusar o próprio princípio do seu desarmamento, ainda que este deva acontecer mais cedo ou mais tarde, face às transformações na região. Quando e como? Resta saber de que forma as autoridades libanesas vão gerir o dossiê.
Por agora, Beirute deseja uma prorrogação do mandato da Finul, que expira no final do ano, ou, pelo menos, a criação de uma força internacional que substituiria a da ONU.
O presidente libanês Joseph Aoun e o primeiro-ministro Nawaf Salam fizeram eco desse desejo na véspera de uma reunião do Conselho de Segurança sobre o Líbano. Uma petição nesse sentido, assinada por 86 deputados libaneses e dirigida ao Conselho de Segurança, foi entregue na segunda-feira ao Sr. Salam.
Por fim, num dossiê distinto, Donald Trump anunciou que pretende “reduzir consideravelmente” a participação americana nos exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul. Ainda assim, as manobras começaram como previsto na segunda-feira. O presidente americano justifica esta decisão pelo custo dos exercícios e pela sua “muito boa relação” com Kim Jong-un.