


As diferentes declarações e mudanças de posição do presidente Donald Trump vão modificar as relações com os europeus, com a OTAN e com os aliados dos Estados Unidos. Elas provocarão reações dos países do Pacífico e do Oriente Médio que consideravam a proteção dos Estados Unidos crível. Os ocidentais apostam na moderação e querem desempenhar um papel na segurança do estreito de Ormuz após o cessar das hostilidades. Os Estados Unidos ficarão fora do jogo na região em benefício de outro protetor improvável? A solução libanesa será construída com a França? Com ou sem a Europa?
Após a intervenção dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã em 28 de fevereiro de 2026, da qual os chefes de Estado ou de governo dos países ocidentais, europeus e da OTAN não haviam sido informados, o presidente Donald Trump pediu a estes últimos que o apoiassem participando da preservação da segurança no estreito de Ormuz e assegurando apoio direto às operações americanas. Em sua maioria, os chefes de Estado e de governo recusaram-se.
A reação do presidente Trump foi clara, embora incoerente. Depois de considerar que se tratava de um erro grosseiro e de chamar os países europeus de covardes, afirmou que não precisava deles e que agiria sozinho, por ser “o mais forte do mundo”. Indo ainda mais longe no exagero, declarou que a OTAN, sem os Estados Unidos, seria um “tigre de papel”. Chegou inclusive a evocar a ideia de se desvincular da OTAN, deixando pairar a ameaça de se desobrigar de seus deveres como membro no que se refere à aplicação do artigo 5 do tratado da organização. Para enquadrar melhor o sentido de suas declarações, especificou que criticava os aliados por não apoiarem os Estados Unidos em caso de crise e por se beneficiarem de uma aliança unilateral. Consequentemente, por que razão garantiria automaticamente a defesa deles?
Em seguida, formulou suas ameaças, retirada parcial das tropas americanas estacionadas na Europa e suas exigências de apoio, participação no bloqueio naval contra o Irã. Após expressarem sua recusa nesse plano, alguns países proibiram o uso de seu espaço aéreo por aeronaves americanas envolvidas nas operações militares contra o Irã.
Falta de coerência
Em suas declarações, o presidente Trump carece de coerência. A uma necessidade de apoio, ou até de participação ativa, sucede um desinteresse desprezível, já que os Estados Unidos, “os mais fortes do mundo”, seriam capazes de vencer essa guerra sozinhos. Surge então a noção de guerra, caso em que, segundo o presidente americano, os membros da OTAN devem cumprir suas obrigações com base no tratado fundador. Ora, foi ele próprio quem desencadeou essa guerra, incentivado por Israel, cobeligerante. Portanto, ele é o agressor. A organização transatlântica possui uma função “defensiva”. Neste caso específico, o artigo 5 não se aplica. Quando chegou a intervir, a OTAN só o fez com mandato da ONU.
Subitamente, o presidente dos Estados Unidos considera que não cabe à OTAN agir e quer mantê-la fora desse conflito; depois volta a pressionar os aliados e ao mesmo tempo declara que agirá sozinho porque pode fazê-lo. Na realidade, deseja um apoio participativo de seus aliados sem que esse apoio ocorra em nome da OTAN.
Disso resulta, em todos os lugares onde os Estados Unidos desempenham um papel de protetor, uma dúvida sobre a confiabilidade das garantias declaradas e oficializadas. Os países da OTAN e os europeus não são os únicos a duvidar. Os países do Pacífico, Japão, Austrália e Coreia do Sul, em primeiro lugar, agora só podem questionar o apoio assegurado em caso de intervenção chinesa. A esses países somam-se Taiwan, Indonésia, Filipinas e os Estados ribeirinhos do Golfo Arábico-Pérsico, Arábia Saudita, Emirados e Omã.
Quando um chefe de Estado, “primus inter pares” dentro da OTAN, desencadeia um conflito que pode levar a uma guerra mundial, ele não pode exigir que os membros da organização o sigam e o apoiem, participando ativamente das operações militares de olhos fechados. Não pode, depois de tratá-los de forma inconveniente, vulgar e ofensiva, ele se dirige a representantes eleitos e, portanto, aos povos que representam, declarar em tom desprezível que pode agir sozinho e que não precisa deles.
De todo modo, é preciso destacar que os membros da OTAN, ainda que não tenham uma posição unânime e apesar de algumas divergências, encontram-se em sintonia, não exatamente idêntica, mas convergente, e contam ainda com o apoio de países do Pacífico. O projeto de garantir a segurança no estreito de Ormuz após o cessar das hostilidades reúne muitos deles.
O mundo inteiro, incluindo o Oriente Próximo e o Oriente Médio e, portanto, o Líbano, pode observar a contenção da Rússia e da China. Seria ingênuo pensar que não atuam nos bastidores conforme seus próprios interesses. Mas sua posição, semelhante à dos europeus e aliados dos Estados Unidos, baseada na não participação nas operações militares, afasta o risco de uma escalada para um confronto de dimensão mundial.
Só podemos aprovar a posição geral adotada pelos governos europeus, pelos países da OTAN e pelos principais países do Pacífico envolvidos, sem esquecer, contudo, seu compromisso de princípio de garantir a segurança no estreito de Ormuz, compromisso que seria conveniente estender ao mar de Omã, ao Golfo Arábico-Pérsico e depois a todo o mar Vermelho. Se for o caso, só poderemos saudar sua sabedoria. Seria ilusório, ou até utópico, pensar que essa atitude comum poderia ser levada em consideração pelos iranianos durante as negociações de paz?
Poder-se-ia pensar que, no Líbano, se trata da mesma guerra. Os protagonistas são, à primeira vista, idênticos. De um lado, o Hezbollah controlado pelo Irã, Israel como mestre do jogo e, ao fundo, os Estados Unidos, que, por ora, posicionam-se como moderadores. Do outro, o Irã como verdadeiro mestre do jogo, quer se queira ou não, os Estados Unidos como outro mestre do jogo, e Israel que, de instigador infeliz depois repreendido, tornou-se seguidor. Mas as diferenças são importantes no que diz respeito ao futuro desses dois teatros. Um é regional, o outro mundial. Um exclui a Europa e sobretudo a França. O outro exclui, por enquanto, a Europa e o agrupamento previsto de cerca de quarenta países, entre eles países do Pacífico.
O problema iraniano parece insolúvel, tamanhas são as exigências, justificadas, dos Estados Unidos, que vão contra as exigências defendidas firmemente pelos Guardiões da Revolução, agora senhores do país. Para além dessas exigências, por enquanto incompatíveis, o comportamento de Donald Trump em matéria de análise, diplomacia e habilidade em uma negociação desse tipo está muito distante do que seria necessário. Ele não tem nada além da violência a apresentar. Se o fizer, guardemo-nos de imaginar russos e chineses inativos. No futuro, o comportamento e as decisões que vier a tomar terão consequências sobre a condução dos assuntos internacionais e sobre a resolução de disputas entre países.
É muito possível que Donald Trump vença. Mas ao preço de quais renúncias? Quem e o que sacrificará antes de novembro? É provável que o verdadeiro vencedor de longo prazo seja o Irã. Na escala dos riscos, o provável está acima do possível. Um questionamento profundo da confiabilidade da proteção americana pelos países do Golfo não poderia se traduzir pela substituição das bases americanas? Por qual protetor? China e Rússia tirarão proveito disso.
Se a França decidir apoiar o Líbano na posição de firmeza que agora move seu presidente, deverá fazê-lo com convicção e firmeza. As meias medidas já não têm lugar.
Trata-se, portanto, de duas guerras diferentes cujas resoluções devem ser coordenadas. Uma poderia ser tratada isoladamente; a outra, não. O presidente Trump levará isso em conta na rodada final da negociação com os Guardiões da Revolução?
“O que mais mudou lá não foi a China, nem a Rússia, foi a Europa: ela deixou de contar ali” (Os Conquistadores, posfácio, André Malraux). Em vez de manter olhos apenas para a Ucrânia e pensar no Oriente Médio apenas em termos do preço do petróleo, os europeus e a França deveriam ter a ambição de promover no Líbano uma “paz firme”.