


Marcada por focos de tensão itinerantes, a crise regional só vem se agravando, sem contudo ultrapassar um ponto sem retorno. O braço de ferro em torno do estreito de Ormuz parece hoje relegado a segundo plano, enquanto o mundo se concentra na tensão no mar Vermelho e, mais especificamente, no renovado conflito militar entre os houthis do Iêmen e a Arábia Saudita.
Riad acusou, assim, na quarta-feira, esse grupo pró-iraniano de ter tentado atingir Meca com um drone, o que, para o reino, constitui uma «linha vermelha». Segundo a coalizão militar liderada por Riad, citada pela AFP, o drone foi destruído ao sul da cidade pela defesa aérea saudita, pouco antes de «entrar no espaço aéreo proibido de Meca».
Por meio de seu porta-voz militar, Yahya Saree, os houthis, no entanto, apressaram-se a desmentir a acusação, afirmando que visavam apenas instalações e locais militares, bem como petroleiros sauditas.
Ainda assim, o ataque provocou uma onda de indignação no mundo árabe, onde o secretário-geral da Liga Árabe, Nabil Fahmy, denunciou um «ato extremamente grave». A Organização da Cooperação Islâmica (OCI), por sua vez, condenou «ataques odiosos contra locais sagrados», igualmente repudiados pelo Líbano e pela Jordânia.
Como que para demonstrar que se concentram em alvos militares e petrolíferos, os houthis anunciaram, algumas horas após o desmentido, ter realizado ataques contra uma instalação da gigante petrolífera saudita Aramco em Yanbu, no mar Vermelho, bem como contra a base aérea de Khamis Mushait. Também afirmaram ter abatido um F-15 saudita sobre a província de Marib, no Iêmen, e divulgaram um vídeo mostrando o ataque contra o drone. Segundo seu porta-voz, a aviação saudita teria realizado 450 ataques no Iêmen nesta semana.
Após o caso de Meca, Riad, contudo, não teria intensificado seus ataques contra o grupo pró-iraniano, que recentemente obteve um avanço importante no mar Vermelho, uma rota marítima estratégica, ao assumir o controle de todo o litoral iemenita, incluindo o porto de Mocha e a ilha de Perim, que controla o estreito de Bab el-Mandeb.
A Arábia Saudita não parece querer se envolver mais no conflito regional cujos fios, como se sabe, são puxados pelo Irã. Aparentemente, conta com uma intervenção mais firme dos Estados Unidos, que, no entanto, não pretendem, pelo menos por enquanto, voltar à opção militar contra Teerã e seus aliados na região. O Canal 12 israelense relatou, assim, uma «grande frustração» saudita com a «falta de iniciativa americana». Citando uma fonte próxima da família real, o veículo israelense indicou que «os houthis exploram a ausência de uma decisão concreta dos americanos, e os sauditas pagam o preço no terreno».
Essa informação coincidiu com a divulgação de outra, pela agência Reuters, a respeito de contatos diretos entre Washington e os houthis. Autoridades americanas teriam se reunido, no domingo, em Mascate, na sede da embaixada dos Estados Unidos, com representantes do grupo pró-iraniano, que teriam assegurado não querer atacar navios americanos e… israelenses (!) que transitam pelo mar Vermelho e permanecer comprometidos com o cessar-fogo firmado com Washington em 2025. Segundo a Reuters, o Departamento de Estado americano não confirmou o encontro.
Os Estados Unidos continuam a escoltar petroleiros no estreito de Ormuz. Segundo o secretário de Energia, Chris Wright, «quase 18 milhões de barris de petróleo atravessaram (Ormuz) na terça-feira, o que corresponde ao nível anterior ao conflito» com o Irã.
A frustração saudita também decorreria do fato de Riad ter tido de reduzir, desde terça-feira, suas entregas de petróleo à Europa, devido aos ataques houthis que danificaram seu principal oleoduto de exportação para o mar Vermelho. O reino havia fechado na sexta-feira o oleoduto Leste-Oeste, enquanto alguns clientes europeus, entre eles a companhia polonesa Orlen, buscavam outras fontes de abastecimento, informou a AFP.
Conferência internacional sobre o Exército libanês
No Líbano, ao som dos contínuos ataques e explosões israelenses no sul do país, o presidente Joseph Aoun embarcou na quarta-feira para Paris, onde deverá começar amanhã, quinta-feira, a reunião internacional dedicada ao apoio ao Exército libanês.
Em entrevista concedida à AFP antes de sua partida, o chefe de Estado reafirmou a vontade das autoridades de desarmar o Hezbollah, mas «sem confronto». Ele voltou a destacar seu apego a um acordo de segurança com Israel após a retirada das forças israelenses do sul do país, o que poderia, segundo ele, constituir o prelúdio de um futuro acordo de paz.
Enquanto isso, no Parlamento libanês, onde ocorria um debate de política geral marcado por acaloradas trocas entre deputados da oposição e os do Hezb, estes últimos reafirmaram que seu grupo não cogita depor as armas.
Para muitos observadores, o desarmamento do Hezb só é possível no âmbito de um acordo regional, cujos contornos continuam muito nebulosos.
Nesse contexto, seria interessante destacar as declarações do vice-presidente americano, JD Vance, que, em entrevista à Fox News na quarta-feira, afirmou que «o conflito com o Irã entrará em uma fase diferente dentro de dois meses», ao mesmo tempo em que defendeu a política adotada pelo presidente Donald Trump em relação à República Islâmica. Isso ocorreu enquanto a China anunciava, por meio de seu ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, que Pequim estava disposta a defender os «direitos e interesses legítimos» de Teerã. Ainda assim, ele pediu contenção às duas partes beligerantes, afirmando não desejar que as tensões «se alastrem para o Iêmen e o mar Vermelho».
Paralelamente, segundo o Washington Post e o New York Times, Washington estaria preparando a venda a Israel de 40 mil bombas por 2,8 bilhões de dólares, entre elas 20 mil MK-84 e 20 mil BLU-117.
Por fim, em Gaza, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, declarou que o Exército estava pronto para «concluir o trabalho» contra o Hamas e implementar um «plano de migração» para os habitantes palestinos. O embaixador americano em Israel, Mike Huckabee, no entanto, negou qualquer plano de deslocar palestinos de Gaza contra sua vontade.