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Opinião

Sua Excelência

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Por Akram Nehmé
Publicado fev 21, 2026 - 18:31

No Líbano, o dinheiro abre quase todas as portas. Acelera as decisões, simplifica os trâmites, faz cair muitas resistências. Há, contudo, uma porta que ele não pode abrir: a da dignidade, a do respeito verdadeiro, aquele que não se compra.

Ele sabe disso, ainda que prefira não o admitir. Teve êxito depressa, muito depressa. Depressa demais. Novo rico, fortuna chegada antes do reconhecimento, dinheiro por vezes opaco, por vezes francamente suspeito. Apesar dos bens, das relações e dos sinais exteriores, vive com um mal-estar persistente: algo falta. Uma legitimidade. Um lugar. A sensação de existir de outro modo que não como aquele que paga.

A sua ferida não começa na idade adulta. Começa muito antes. Com um pai diminuído, nunca respeitado, de quem ele compreende muito cedo que é preciso afastar-se para não acabar no mesmo lugar. Com uma família que convém esconder, não por falta de afeto, mas porque recorda uma origem considerada desqualificante. Muito cedo, algo se instala em surdina. Marcas antigas, jamais apagadas. Então age como se nada tivesse contado. Avança. Constrói para si uma imagem mais sólida, mais brilhante, mais aceitável. Compreende rapidamente que o valor depende do estatuto, do nome, da posição. Não procura ser amado. Procura deixar de ser humilhado.

Quando o dinheiro chega, não cura nada. Protege. Encobre. Seja limpo ou suspeito, pouco importa, desde que lhe permita impor-se e silenciar as dúvidas. O sucesso torna-se uma estratégia de sobrevivência.

Mas quando o dinheiro já não basta para produzir respeito, impõe-se outra solução: tornar-se deputado.

Aqui, o mandato não é um serviço. É uma proteção. Num Estado que não protege ninguém, o assento torna-se uma garantia pessoal, uma imunidade de facto, uma forma de transformar uma fortuna contestada em autoridade oficial.

Ele está disposto a pagar. Caro.

Durante a campanha, repete as palavras esperadas. Projetos. Leis. Futuro. Reconstrução. Sabe que tudo isso não passa de um rito obrigatório. O que importa é pôr-se a salvo. Existir, enfim, ainda que seja pelo medo.

Compra votos. A miséria faz o resto. Quando se tem fome, o voto vende-se. Ele sabe disso e tira proveito. Chama-lhe ajuda. Na realidade, é corrupção simples: dinheiro em troca de silêncio, pobreza em troca de poder.

Depois vem a eleição. O título. O fato. E o vazio. Nada é reparado. Aos olhos dos outros, continua a ser aquele que pagou. E diante de si mesmo, continua a ser aquele que sempre foi.

Tinha procurado respeito. Obtém que o tratem por “Sua Excelência”.

E o mais obsceno não é a mentira, nem o fracasso, nem o vazio.

O mais obsceno é que isso lhe basta.

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