

Se a decência mínima impede celebrar até mesmo a morte de um monstro, ela não impede, no entanto, que se sinta uma certa leveza súbita, ou mesmo um alívio passageiro, ao se tomar conhecimento da notícia.
Rifaat al-Assad morreu.
Diante do sentimento retrospectivo e retroativo de impotência e desolação perante as piores atrocidades da história, consola-se como se pode.
Assad leva consigo uma parte da memória mais sombria do Levante contemporâneo: cidades esmagadas por terem gritado alto demais contra a barbárie, bairros arrasados para servir de exemplo. Basta ler o testemunho de Michel Seurat, que lhe custou a vida, para perceber, com horror, como Hama e Homs, em 1982, se tornaram laboratórios de uma experimentação quase clínica da morte. O Líbano também, de Trípoli às suas margens humilhadas, pagou o preço da inumanidade de Rifaat por meio de suas milícias, os chamados “Cavaleiros Vermelhos”.
O irmão de Hafez foi o executor designado do regime, seu principal açougueiro, seu rosto mais bruto e autêntico. Um papel retomado mais tarde, com a mesma paixão feroz pela crueldade, por seu sobrinho Maher. Isso antes de a França lhe oferecer um exílio dourado e de certos responsáveis o homenagearem com banquetes luxuosos e vergonhosos.
A queda de Rifaat no lixo da história coincide de forma inquietante com um momento em que a Síria volta a ser tentada por uma reescrita autoritária de sua unidade, desta vez sob o rótulo de uma “reconquista” territorial conduzida pelo regime de Ahmad al-Chareh.
Depois dos drusos, depois dos alauítas, os curdos passam a ser designados como o próximo obstáculo no caminho de um Estado reconstruído pela força e pela coerção, como se a história síria, amaldiçoada talvez, fosse incapaz de produzir unidade sem esmagar a alteridade.
O termo reconquista não é inocente. Ele carrega uma visão vertical da soberania, na qual o território precede as pessoas, e na qual a geografia e as fronteiras ignoram a finalidade última do ser humano. Nessa lógica, a diversidade deixa de ser vista como riqueza política e passa a ser considerada uma anomalia, um defeito fundamental a ser corrigido por qualquer meio. Os curdos da Síria deixam de ser cidadãos a convencer e tornam-se um problema a resolver. Pela força, se necessário.
Isso não significa acomodar-se às milícias ou a grupos armados paraestatais. Existem claramente agendas paralelas destinadas a desestabilizar o novo regime sírio, sob influência de Israel, do Irã ou de antigos aliados de Assad. Todas as milícias, ademais, cometem abusos. Mas nada disso justifica exações contra a população civil. É essa distinção que, em princípio, separa uma autoridade que busca restaurar o Estado do poder arbitrário das milícias. Em princípio.
É preciso dizê-lo claramente: o esmagamento da maioria sunita sob o Baath alauíta, com certa cobertura de minorias em nome de uma aliança vazia, não será redimido por uma vingança, ainda que tácita, contra essas minorias sob a bandeira do islamismo. O que é construído sobre a injustiça e a repressão só pode gerar mais injustiça e repressão. Não pode fundar um poder legítimo nem uma autoridade verdadeira.
Que essa orientação agrade a Ancara não surpreende. O presidente Recep Tayyip Erdoğan manifesta satisfação diante de uma Síria que retoma o controle de suas periferias curdas. A convergência é quase mecânica: um Estado sírio recentralizado pela coerção tranquiliza um poder turco obcecado por qualquer forma de autonomia curda, de Qamishli a Diyarbakir. O alinhamento não é apenas ideológico; é também securitário. E é justamente isso que o torna perigoso.
A história recente da Síria já mostrou aonde levam esses atalhos. O regime Assad, pai e filho, sem esquecer o “tio gatilho fácil”, proclamou incessantemente a unidade nacional enquanto governava pela fragmentação, pelo medo e pela punição coletiva. A “estabilidade” que reivindicava era a de um silêncio imposto pelos shabbiha, pelos tanques, pela tortura e pelos campos. Prisões, desaparecimentos e massacres eram sua única fonte de legitimidade.
Aqui o espectro de Rifaat al-Assad reaparece como advertência. Ele encarna o momento em que um poder se convence de que a violência não é apenas eficaz, mas fundadora; quando o Estado se reduz ao seu aparato repressivo e a soberania à simples capacidade de esmagar.
A Síria pagou esse preço por décadas. É hora de isso terminar, sem que a chamada comunidade internacional volte a desviar o olhar.
Uma advertência deve, portanto, ser dirigida a Ahmad al-Chareh, quase como um lembrete filosófico. Friedrich Nietzsche escreveu que quem luta contra monstros deve cuidar para não se tornar um deles, e que quem olha longamente para o abismo acaba vendo o abismo olhar de volta. Governar um país despedaçado como a Síria expõe precisamente a esse vértigo: a crença de que os fins justificam os meios. Mas a ordem não pode substituir a justiça, nem a unidade pode ser imposta à força das armas.
Transformar a Síria em um novo gulag, seja islamista, nacionalista árabe ou reciclado de reflexos baathistas, seria mais uma traição, somada às muitas que marcaram a história moderna do país.
A fusão forçada (insihâr) jamais produziu nações duradouras. Produz apenas Estados ansiosos, assombrados por suas margens e obcecados por suas minorias. Basta olhar para as ruínas do mundo árabe atual para comprová-lo.
Há, nesse espetáculo desolador, uma dimensão moral que não pode ser evitada. Desde 2011, centenas de milhares de sírios foram mortos, torturados ou exilados por exigirem algo de uma simplicidade desconcertante: dignidade. Esses revolucionários civis, esmagados entre a brutalidade do regime e as radicalizações posteriores, não pediam nem partição nem vingança. Exigiam um Estado moderno, de direito, que os reconhecesse como sujeitos políticos plenos. Suas mortes não são um ruído de fundo que possa ser abafado por novos discursos de ordem e soberania.
Hoje, seus fantasmas escutam e observam. Acompanham cada decisão tomada em seu nome, cada compromisso firmado sem eles, cada “reconquista” que esquece por que o país se levantou. A Síria não implodiu por excesso de pluralismo e liberdade, mas por sua negação em nome do terror tirânico de um regime, de um partido, de uma minoria, de um clã.
Unificar a Síria pode ser uma necessidade histórica. Mas há duas maneiras de fazê-lo. A primeira repete mecanismos antigos sob novas bandeiras: centralização brutal, negação das diferenças, alianças táticas com potências regionais às custas dos direitos internos. A segunda é mais lenta, mais frágil, menos espetacular. Passa pelo diálogo com curdos, drusos, alauítas, sunitas e cristãos; pelo reconhecimento de seus medos e direitos; pela construção de um Estado que proteja antes de coagir e, talvez, por novas fórmulas administrativas internas, garantidas internacionalmente contra a ingerência de regimes vizinhos em nome de “necessidades estratégicas” ou “espaços vitais”.
Na morte, Rifaat al-Assad talvez sirva, enfim, para algo além de derramar o sangue dos outros.
Que o desaparecimento desse símbolo de perversão, digno dos manuais mais sombrios da teratologia, recorde que a nova Síria não precisa de novos carrascos convencidos de agir para seu bem, mas de dirigentes capazes de resistir à tentação do abismo. Que os monstros pertençam ao passado. E que a história síria possa, enfim, ser escrita de outra forma que não em letras de sangue.