


Em uma recente entrevista concedida a uma cadeia de televisão anglófona, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, não usou meias palavras ao qualificar o falecido aiatolá Ali Khamenei — e, por conseguinte, o regime dos mulás em geral — de «Novo Hitler do Oriente Médio»…
Oferecendo uma leitura particularmente lúcida do contexto geopolítico do conflito atual, o príncipe herdeiro destacou sem rodeios que o poder iraniano adota claramente uma postura expansionista e busca estender «seu próprio projeto no Oriente Médio, da mesma forma que Hitler o havia feito» na Europa. «Vários países não perceberam o quão perigoso Hitler era até que fosse tarde demais», sublinhou MBS, acrescentando — tocando na ferida: «Eu não gostaria que isso acontecesse aqui».
Simplificando ao extremo, o paralelo com Hitler apresenta efetivamente algumas semelhanças, mas apenas no plano da forma, do comportamento, perceptível em mais de um nível: uma estratégia expansionista regional que visa impor a outras populações uma hegemonia baseada numa ideologia fascistizante — teocrática no caso iraniano, além disso —; a extensão da «ocupação», indireta, de territórios em vários países mediante o controle de poderes locais subservientes à potência colonizadora; o estabelecimento em cada país de organizações milicianas vassalas (similares à Gestapo) encarregadas de reprimir qualquer contestação e de manter incessantemente um clima de terror e de opressão.
Porém, muito além dessas manifestações de imperialismo de caráter sectário e das práticas milicianas fascistas às quais se entregam aqueles que convencionalmente se denominam proxies iranianos, o projeto khomeinista que aflige o Oriente Médio encerra um perigo de uma dimensão completamente diferente. Constitui uma ameaça de natureza fundamentalmente existencial que se impõe não somente ao Líbano, mas ao conjunto dos países da região, incluídos os Estados do Golfo. Este projeto político, transnacional por essência, propugna a edificação de uma sociedade guerreira — permanentemente «guerreira» — cujos fundamentos são valores, uma cultura, uma estrutura de pensamento, costumes sociais, um modo de vida, totalmente alheios às populações da região. Pior ainda: uma lavagem cerebral é praticada nesse quadro ideológico obtuso desde a mais tenra infância, como ilustra o programa escolar aplicado nas escolas partidárias do Hezbollah, a partir do ciclo primário.
O currículo imposto aos alunos desses estabelecimentos está calcado na ideologia khomeinista, que «ensina» às crianças pequenas o culto ao martírio. Nada há de surpreendente, portanto — para citar apenas esse exemplo — que os Guardas da Revolução em Teerã tenham fixado há poucos dias a idade de recrutamento em suas fileiras em… 12 anos!
Nesse tipo de situação, porém, a ideologia autocrática que fundamenta uma política expansionista vem acompanhada da edificação de um aparato militar que mal disfarça uma postura belicosa em relação aos países ou às populações classificados na categoria de «inimigos», por não partilharem os mesmos valores e os mesmos fundamentos civilizacionais que a potência «mãe».
Para ilustrar esse ponto, as operações militares que se desenvolvem desde 28 de fevereiro revelaram em toda a sua extensão o arsenal nuclear e balístico que o regime dos mulás desenvolveu com afinco ao longo de décadas inteiras. A obstinação doentia em enriquecer o urânio acima de 60 por cento, em construir mísseis balísticos com alcance de 4.000 quilômetros — capazes de atingir as capitais europeias —, em verter investimentos monumentais para desestabilizar os países da região por meio de milícias paraestatais subservientes aos Pasdaran, só pode ser explicada pela vontade de aplicar uma estratégia de conquista, não apenas no plano geopolítico, mas sobretudo no plano sociocultural e da imposição de valores «divinos» que são, em todos os aspectos, redutores, obscurantistas e retrógrados.
O presidente Donald Trump qualificou na noite de sexta-feira o regime dos mulás de «tirano do Oriente Médio». Um «novo Hitler», um tirano sanguinário que semeia o terror na região, sob nenhuma circunstância deveria beneficiar-se de qualquer atitude de complacência ou conciliação. Ele deve ser eliminado da cena de forma imperativa. Qualquer meia medida nesse contexto seria um grave erro estratégico. Abster-se de levar até o fim, completamente, uma operação de erradicação radical e total do tirano regional só semearia os germes de um novo conflito armado em curto prazo.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, se o regime hitleriano não tivesse sido total e definitivamente apagado do mapa, o espectro do nazismo teria reaparecido sem demora. Em tais circunstâncias, qualquer angelismo primário exibido pelos «bem-pensantes» ou pelos wokistas de pseudoesquerda equivaleria a um vasto e inqualificável crime contra povos em perigo.