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Opinião

O entrismo e a infiltração nos têm pelo pescoço!

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Por Youssef Mouawad
Publicado jan 3, 2026 - 09:00

Quem disse que o Hezbollah prosperou apenas em confrontos armados e escaramuças? Desde os anos 1990, o grupo vem se “libanesizando” de forma constante, aparando arestas e adotando a linguagem do compromisso. Ou, ao menos, fingindo fazê-lo, apenas para confundir o jogo.

No início, no momento de sua criação, o Hezbollah não fez esforço algum para esconder suas intenções. Proclamou abertamente a ambição de instaurar um regime moldado palavra por palavra no modelo de Khomeini. Em seguida, afastou-se completamente da esfera política libanesa, que tratava como um espaço indigno, reservado apenas aos infiéis. Mais tarde, porém, ao rever sua estratégia, lançou-se de maneira astuta e deliberada em um projeto de longo prazo para se entranhar no aparato do Estado libanês. A tal ponto que, em 2005, obteve uma fatwa do xeque Afif al-Nabulsi legitimando sua participação no governo.

Após uma longa e silenciosa marcha à frente, conquistou-se uma aparência de legalidade. Os autocomplacentes e os ingênuos engoliram a isca sem hesitar. Na visão deles, a “alquimia” política libanesa finalmente teria recuperado o partido da Revolução Islâmica. O Hezbollah, garantiam, tornaria-se libanês de coração e adotaria nossa mentalidade comercial prosaica, a mesma que carregamos desde os tempos fenícios. Talvez, diziam, o partido iraniano tivesse apenas diluído um pouco o vinho. Mas os otimistas comemoraram cedo demais.

A realidade trataria rapidamente de expor o erro. A democracia não sairia vencedora desse jogo. Já não satisfeito em manter distância, o Hezbollah infiltrou-se na administração pública para avançar sua agenda, tanto no curto quanto no longo prazo. Injetou no sistema sua própria lógica subversiva. E, como o Estado estava maduro para ser capturado, o duo xiita passou a domesticá-lo de dentro para fora.

Infiltração e penetração

Essa estratégia de entrismo, uma tática clássica do marxismo-leninismo, consiste em inserir deliberadamente membros de uma organização militante em estruturas rivais ou mesmo diretamente no chamado Estado burguês. O que poderia ser mais simples do que conquistar o poder por dentro e nunca mais largá-lo? Tanto o ambiente regional quanto o interno eram perfeitamente favoráveis a esse tipo de engodo. E, se o Hezbollah guarda profunda gratidão pelo presidente Emile Lahoud, é justamente porque, sob sua presidência, conseguiu se entrelaçar em todas as camadas do poder e da administração.

Protegidos pela impunidade e amparados por seus padrinhos, esses peões infiltrados, verdadeiros “agentes adormecidos”, criaram raízes nas instituições públicas e foram escalando a hierarquia. No dia a dia da gestão, sua lealdade jamais esteve em dúvida: seguiam as ordens de seus tutores e se tornavam cúmplices voluntários de toda sorte de transgressões.

Os crimes da conspiração

A catastrófica dupla explosão no porto, naquele fatídico 4 de agosto, permanece como a prova definitiva de uma conspiração em escala nacional. Não continuamos fazendo hoje as mesmas perguntas? Como toneladas de material explosivo puderam permanecer no coração da cidade sem conivência em todos os níveis? Por que tantos alertas evidentes foram ignorados? Quantos atos de covardia, e quantos assassinatos sem solução, ainda precisarão ser contabilizados?

Que modelo exemplar de administração pública! Instituições inteiras desviaram o olhar, do Judiciário à alfândega, passando pelos serviços de segurança. E, para coroar tudo isso, instaurou-se uma grande conspiração do silêncio.

Parabéns, senhores do Hezbollah. O projeto de entrismo de vocês deu frutos. Nunca antes a infiltração revelou com tanta eficácia tantos vícios e tantas maquinações.

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