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Diachronia

Crise, catástrofe e abalo do mundo (3/7)

Do Tohu va-Bohu ao Kali Yuga: à prova da experiência vivida em Jan Patočka

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Por Wissam Saadé
Publicado jul 2, 2026 - 17:01

Este ensaio propõe uma travessia pelas figuras da crise e da catástrofe, desde as cosmologias antigas até a experiência vivida de um mundo abalado. Ao colocar em diálogo as tradições grega, bíblica e indiana com o pensamento de Jan Patočka, investiga a maneira como as civilizações conceberam a desordem, o colapso, o irreversível e até mesmo a própria possibilidade de agir quando o sentido começa a vacilar. Publicado em sete capítulos-artigos, este texto segue um fio condutor ao mesmo tempo exigente e essencial: compreender se a catástrofe constitui uma ruptura súbita, uma lenta desagregação do mundo ou a verdade mais profunda do nosso tempo. Segue-se aqui a terceira parte.

O Kali Yuga, ou a catástrofe prolongada

Nessa perspectiva, o político não constitui uma esfera autônoma de decisão soberana; representa, antes, um momento transitório no interior de uma ordem cíclica em que destruição e recomposição coincidem. Longe de interromper o curso cósmico, o poder inscreve-se nele como uma modulação da desordem e de sua superação.

Entretanto, as epopeias, por mais fundamentais que sejam, não bastam, por si sós, para esgotar a concepção indiana da catástrofe. É preciso acrescentar-lhes o peso doutrinário e cosmológico dos Purāṇa, que prolongam a intuição épica ao conferir-lhe um alcance sistemático. Esses textos estabelecem uma verdadeira arquitetura da temporalidade cíclica, na qual a cosmologia se torna, ao mesmo tempo, mito, teologia e metafísica da repetição.

A partir do século XIX, o encontro da Índia com a modernidade colonial deu origem a uma profunda reavaliação do hinduísmo. Diversos reformadores, em especial os fundadores do Brahmo Samaj e do Ārya Samaj, empreenderam uma campanha intelectual contra os Purāṇa, responsabilizando-os pela superstição, pela idolatria e pelo atraso espiritual do país.[1]

Rammohan Roy, fundador do Brahmo Samaj, defendia um retorno ao monoteísmo racional das Upaniṣads, contrapondo-o à proliferação ritual e ao politeísmo dos Purāṇa.

Swami Dayānanda Sarasvatī, fundador do Ārya Samaj, radicalizou essa posição ao propor um retorno integral aos Vedas. Segundo ele, somente a religião védica, anterior a toda mitopoiese purânica, encarnava a verdade originária da Índia.

Assim, “despuranizar” o hinduísmo significava racionalizá-lo e depurá-lo, reinscrevendo-o em um horizonte compatível com a ciência, a moral e a reforma moderna.

Entretanto, o puranismo viu-se comprimido entre duas frentes: contestado pelos reformistas em nome da razão e sufocado pelos tradicionalistas em nome da ordem e da liturgia. Os sanatanistas, defensores do Sanātana Dharma, a Lei Eterna, afirmavam preservar a tradição, mas, na realidade, sua ortodoxia procurava estabilizar a religião em torno de um cânone rígido e ritualista, marginalizando a flexibilidade narrativa e simbólica do discurso purânico.[2] Sem rejeitar explicitamente os Purāṇa, neutralizavam sua força cosmológica, reduzindo-os a meros suportes cultuais, em vez de matrizes de sentido e de devir. Sua concepção de fidelidade à tradição tendia a cristalizar um universo hierarquizado, no qual a repetição ritual prevalecia sobre a criatividade mitopoética.

Entre esses dois polos, o “pensamento purânico”, com seu imaginário fluido dos ciclos (yuga), das dissoluções (pralaya) e dos renascimentos (sṛṣṭi), foi reduzido ao silêncio. No entanto, ele continha uma sabedoria do tempo e do devir de profundidade metafísica incomparável: uma percepção da catástrofe não como ruptura, mas como a imanência do Kali Yuga na própria textura da temporalidade.

Foram precisamente pensadores como Aurobindo Ghose, Ananda Coomaraswamy e Sarvepalli Radhakrishnan que procuraram reabilitar essa intuição, em oposição tanto aos samajistas quanto aos sanatanistas. Graças a eles, os Purāṇa voltaram a tornar-se uma metafísica do tempo, uma gramática do devir cósmico e uma poética da ordem e do caos.[3]

Fazer justiça ao legado purânico é reconhecer nele a imaginação como um verdadeiro modo de pensamento, capaz de articular a condição humana ao ritmo cósmico do Sanātana Dharma; não como um arcaísmo a ser superado, mas como uma inteligência simbólica do mundo, na qual o catastrófico deixa de ser um acidente para tornar-se a essência imanente do tempo vivo.

O Kali Yuga, anunciado ao final do Mahābhārata com a morte de Kṛṣṇa, pertence plenamente à visão purânica do tempo. Essa era, inaugurada imediatamente após o desaparecimento do deus (tradicionalmente datada de cerca de 3102 a.C.), corresponde à Idade do Ferro, a era da desordem moral, da dissolução espiritual e do retraimento do dharma. A justiça, a verdade e a virtude sobrevivem apenas como vestígios, simples frações de sua força originária, enquanto a cobiça, a mentira e a violência se tornam os princípios dominantes do mundo.

O Sūrya Siddhānta, tratado clássico de astronomia hindu, situa o início dessa era no exato momento da morte de Kṛṣṇa, ao passo que a tradição purânica lhe atribui uma duração de 432 mil anos humanos: uma unidade de tempo na escala do cosmos, dentro da qual a história humana se dissolve no sopro de Brahmā.[4]

Nessa perspectiva, o Kali Yuga não designa uma destruição pontual do mundo, mas uma catástrofe prolongada, um estado permanente de crise da ordem cósmica. O vínculo entre o humano e o divino desfaz-se pouco a pouco; a catástrofe torna-se, assim, uma condição ontológica, expressão da lenta desagregação do dharma, sem possibilidade imediata de restauração.[5]

A morte de Kṛṣṇa não põe fim ao mundo; inaugura, ao contrário, o tempo da desorientação fundamental, uma era sem redenção imediata, marcada pela confusão dos valores, pelo eclipse da transcendência e pelo retraimento do sentido. O Kali Yuga é o tempo da catástrofe, não por causa de um cataclismo súbito, mas pela própria duração da desordem, por essa corrosão lenta e contínua que dissolve os fundamentos do dharma, prefigurando o grande pralaya, a dissolução última, e preparando, por meio de seu próprio colapso, a gênese de um novo ciclo cósmico.

O Kali Yuga é também um tempo de tristeza essencial. Faça-se o que se fizer, permanece sempre uma melancolia de fundo, um véu ontológico lançado sobre o coração do mundo. Essa tristeza não é afetiva nem moral; é mais originária do que a beatitude de Spinoza e mais antiga do que a angústia de Heidegger. Ela constitui a tonalidade fundamental da idade sombria. Primeiro a tristeza, depois suas metamorfoses: o disfarce, o recalque, a negação. Ela sobrevive em todas as coisas, oculta-se sob o frenesi do mundo, mascara-se no fluxo dos desejos, mas jamais desaparece.

Porque o Kali Yuga é também o tempo da duplicidade. Sua tristeza é autêntica, mas está sempre já traída por seus próprios desvios; a sinceridade torna-se impossível porque, tão logo é vivida, é imediatamente reinvestida no jogo de seus simulacros. O mundo passa então a viver no esquecimento de sua própria dor: um esquecimento incessantemente renovado, incessantemente frustrado e, ainda assim, incessantemente necessário.

É, por fim, o tempo da oscilação entre duas formas de salvação: a salvação individual e interior, buscada por meio da bhakti e do conhecimento de si (ātma-jñāna), e a salvação cósmica, aguardada na descida do último avatar, Kalki, aquele que encerra o ciclo e restaura o dharma. Assim, no próprio coração da desordem, desdobra-se uma dupla espera: a do despertar interior e a da regeneração cósmica.

O Kali Yuga, em sua melancolia e sua duplicidade, torna-se, assim, o palco da consciência decaída, mas também a matriz da esperança: esse intervalo em que o divino se retirou apenas para melhor retornar.

No Kali Yuga, o dharma, princípio de equilíbrio, justiça e ordem cósmica, sobrevive apenas de forma residual. O mundo não desmorona sob o efeito de um único cataclismo; ele se desagrega lentamente, por meio de uma erosão contínua da harmonia. À medida que a dissolução final se aproxima, ela parece realizar-se e adiar-se ao mesmo tempo. A catástrofe é constantemente anunciada, mas jamais se consuma plenamente. Não há apocalipse, apenas a persistência de um fim inacabado.

Essa visão encontra um notável eco na teoria das cinco idades da humanidade, apresentada por Hesíodo em Os Trabalhos e os Dias. Depois da Idade do Ouro, reino da justiça e da proximidade com os deuses, cada época sucessiva, Prata, Bronze, Heróis e, por fim, Ferro, marca uma deterioração gradual da condição humana: fratura da ordem cósmica, corrupção moral e esquecimento da virtude.[6] A Idade do Ferro, a última e mais miserável de todas, corresponde diretamente ao Kali Yuga: o tempo em que os vínculos sociais se dissolvem, a astúcia, a violência e a cobiça prevalecem, e o ser humano vive, segundo Hesíodo, ”sem vergonha nem justiça”.[7]

Em ambas as visões, a catástrofe não constitui uma ruptura súbita, mas um processo irreversível de declínio. O mundo afasta-se do divino não por meio de uma destruição violenta, mas pelo desgaste da medida, pelo enfraquecimento da verdade e pela deterioração do vínculo cósmico. Onde Hesíodo fala da perda de Dikē, a Justiça divina, a tradição hindu fala do retraimento do dharma.

Entretanto, uma diferença essencial as separa. Em Hesíodo, o tempo é linear e trágico: a queda parece definitiva, sem salvação nem retorno. No pensamento indiano, ao contrário, o Kali Yuga é apenas uma fase do ciclo, destinada a ser seguida pelo retorno do Satya Yuga, a Idade do Ouro. A escuridão prepara o retorno da luz; o declínio prepara o renascimento.

Assim, Hesíodo apresenta uma catástrofe moral sem regeneração, enquanto o hinduísmo purânico concebe uma catástrofe cósmica regeneradora: o fim e o recomeço confundem-se no próprio sopro do tempo.

O mundo aproxima-se da dissolução; mas, no instante mesmo em que a catástrofe parece prestes a consumar-se, ela volta a dissipar-se. Sua verdade é a de um crepúsculo permanente, no qual a destruição permanece ao mesmo tempo inevitável e incessantemente adiada. Mas esses adiamentos são também véus que caem, dobras do tempo sobre si mesmo. O tempo retrai-se e se contrai até que Kalki surja, não como uma transição gradual nem como um ressurgimento pós-apocalíptico, mas como um salto, uma irrupção do divino na matéria exaurida, como um relâmpago atravessando a noite de um mundo agonizante.

Kalki não destrói: converte a dissolução em recomeço. Afinal, ele é o avatar de Viṣṇu, e não de Śiva: o princípio da preservação e da continuidade do cosmos, que vem não para aniquilar o mundo, mas para recolocá-lo em sintonia com o ritmo vivo do dharma.

[1]Sobre a releitura do hinduísmo no contexto da modernidade colonial e a crítica às tradições purânicas, ver Brian A. Hatcher, Hinduism in the Modern World (Londres: Routledge, 2015), bem como David N. Lorenzen, Who Invented Hinduism? Essays on Religion in History (Nova Délhi: Yoda Press, 2006), que analisam a construção moderna do «hinduísmo» como uma categoria reformada e racionalizada ao longo do século XIX.

[2]Sobre a formação da corrente sanatanista e a defesa do Sanātana Dharma como tentativa de estabilizar normativamente a tradição hindu diante das reformas modernizadoras, ver Kenneth W. Jones, Socio-Religious Reform Movements in British India (Cambridge: Cambridge University Press, 1989).

[3]Sobre a releitura modernista e neometafísica das tradições purânicas e épicas diante das reformas religiosas dos séculos XIX e XX, particularmente os debates entre movimentos reformistas como o Ārya Samaj e os defensores da chamada ortodoxia sanātana, ver, em ordem cronológica: Aurobindo Ghose, The Life Divine (1914-1919) e Essays on the Gita (1922), nos quais começa a delinear-se uma leitura evolutiva e cosmológica do tempo hindu; Ananda K. Coomaraswamy, The Dance of Śiva (1918-1924), que reinterpreta os Purāṇa como expressões simbólicas do ritmo cósmico da criação e da destruição; e Sarvepalli Radhakrishnan, Indian Philosophy (1923-1927), juntamente com The Hindu View of Life (1926), em que as tradições purânicas são relidas como expressões filosóficas de uma metafísica do devir. Embora partam de perspectivas intelectuais distintas, esses autores contribuíram conjuntamente para deslocar os Purāṇa de sua condição de textos mítico-religiosos para uma leitura especulativa do tempo, da ordem e do caos cósmico.

[4]Ver Alain Daniélou, Les Mythes et les dieux de l’Inde (Paris: Flammarion, 1992 [edição original em inglês, 1991]) e Shiva et Dionysos (Paris: Fayard, 1979).

[5]Nessa perspectiva, o Kali Yuga não deve ser compreendido como um acontecimento escatológico pontual, mas como uma intensificação duradoura da distância entre a ordem cósmica (dharma) e a condição humana, aproximando-se, assim, de certas intuições de Schelling acerca da catástrofe como imanente ao próprio tempo. O vínculo entre o humano e o divino desfaz-se progressivamente, não por meio de uma ruptura súbita, mas através de uma lenta erosão das próprias condições da ordem. A catástrofe deixa então de ser um acontecimento identificável para tornar-se a própria estrutura do devir, uma modalidade prolongada da história, na qual a desagregação do dharma não conhece um limiar decisivo de restauração imediata. Sobre esse diálogo entre as temporalidades cíclicas indianas e a filosofia especulativa alemã, ver Friedrich Wilhelm Joseph Schelling, Die Weltalter (As Idades do Mundo), tradução francesa de Jean-François Courtine e Emmanuel Martineau (Paris: Aubier, coleção «Bibliothèque philosophique», 1992), especialmente os fragmentos dedicados à cisão interior do Absoluto e à temporalização do fundamento originário.

[6]Sobre a degradação progressiva das idades dos metais e a ruptura da ordem cósmica, ver Georges Dumézil, Heur et malheur du guerrier (Paris: PUF, 1969). Dumézil ressalta que a Idade dos Heróis constitui uma exceção propriamente grega dentro de uma estrutura de declínio que, de resto, apresenta forte afinidade com as doutrinas indo-iranianas.

[7]Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias, tradução francesa de Paul Mazon (Paris: Les Belles Lettres, coleção «CUF»), versos 106-201; edição digitalizada da Bibliothèque nationale de France (Gallica), consultada em 14 de maio de 2026.

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