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Crónicas do limiar

Notícia urgente: a guerra começou!

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Por Zeina Ziadeh
Publicado mar 8, 2026 - 02:20

Nada de novo na expressão. Mas desta vez o seu peso é diferente — o ritmo da sua cadência rasga-me com o seu fragor.

 

Telefonamos todos uns aos outros para nos tranquilizar.

As respostas chegam como um ritual diário:

Estamos bem, e vocês?

Bem!

Como se a palavra fosse um encantamento atrás do qual nos abrigamos.

A minha mãe — bem.

O meu irmão mais velho e a sua família — bem.

O meu irmão mais novo, no seu destino do Golfo — bem.

A minha irmã e a sua família, aqui — bem.

Os que o meu coração guarda e os que amo — bem.

Bem! Escrevemo-la, repetimo-la até que perca o fio.

 

Os meus familiares que vieram de França para passar uma semana na terra dos cedros — e entre eles alguns que conhecíamos pela primeira vez, sobretudo as crianças — voltam para o seu país em poucas horas.

As malas estão à porta.

Duas crianças perguntam: não vamos ao aeroporto?

Uma mãe que tenta sorrir para que o seu desassossego não passe para o rosto dos pequenos.

Pais que fingem estar inteiros.

O voo das três da tarde — cancelado. A porta do regresso direto — fechada.

Vi nos olhos deles essa inquietação que nós, filhos desta terra, aprendemos: uma inquietação que não grita. Que calcula.

 

Reunimo-nos, decidimos depressa — porque o tempo nas crises não concede o luxo de hesitar. Após chamadas em cascata e uma busca pelo que ainda está disponível, conseguem-se lugares desde Beirute às vinte e uma horas e meia para Istambul, depois a Bélgica, depois Lille.

Dez horas de viagem e de conexões entre vários aeroportos valiam mais do que ficar numa cidade cujos litorais e céus as chamas da região iam alcançando.

 

Beirute, que eu ainda percorria há poucos dias como turista, procurando nas suas pedras algum vestígio do passado, parecia-me agora estar em bicos de pés. A cidade que sabe cair e levantar-se recompunha o seu fôlego, mais uma vez. Compreendi então: a segurança não se possui. Apenas se empresta.

 

O avião deles descolou.

Chegaram a Istambul.

Uma mensagem curta: estamos bem.

Uma foto — estão no chão, ou nas cadeiras de uma sala de espera.

As crianças sorriem apesar do cansaço.

Depois o caminho para Lille.

Respiro. Não por muito tempo.

 

As notícias urgentes sucedem-se. Leio, não acredito, volto a ler: a região está em chamas. Capitais árabes são bombardeadas.

Os meus estão lá — a minha mãe, os meus irmãos, metade da minha família. Pego no telefone. Hesito. Não quero transmitir-lhes o que treme dentro de mim.

 

E volto à mesma pergunta, ritual, familiar:

Estão bem?

 

Mas que bem se mede pelo número de aeroportos atravessados em paz?

E que tranquilidade precisa de ser confirmada a cada poucas horas?

 

Bem — porque o avião descolou e aterrou.

Bem — porque o céu ficou aberto antes de os projéteis caírem e a terra tremer.

Bem — porque o perigo continuou a ser uma probabilidade. Por mais alguns minutos.

 

Penso naquele momento na praça, a ouvir-me explicar Beirute aos meus familiares. Não sabia que uns dias depois viveria uma nova lição sobre a fragilidade da geografia.

A cidade cuja história contei no meu francês temperado de inglês volta a lembrar-me: os seus capítulos escrevem-se enquanto os atravessamos.

 

Estamos realmente bem?

Bem como?

Que país é este?

Que região?

Que paz?

Que vida?

 

Somos uma geração que acompanha os movimentos aéreos e os mapas das zonas a bombardear e a trajetória dos mísseis — como outros acompanham o tempo.

Dominamos a arte dos planos alternativos antes de ousar sonhar com um plano.

Vivemos de um cansaço crónico. Carregamos uma obscura capacidade de esperar.

Amamos, trememos, e tentamos sobreviver cada dia — a tudo.

 

Nessa tarde a região começou a arder…

E ao amanhecer de segunda-feira, o Líbano ardeu.

 

E eu — ainda me agarro a uma pequena frase:

Deixem-me ver os vossos rostos. Bem.

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