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Perspectiva

Cuidado com a banalização dos massacres no Irã

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Por Michel Touma
Publicado fev 6, 2026 - 13:14

O Secretário de Estado Marco Rubio colocou o dedo na ferida, sem rodeios. Mostrando-se para a ocasião, paradoxalmente pouco «diplomata», ele demonstrou uma magnífica franqueza ao resumir em poucas palavras, numa pequena frase lacónica, o fundamento da crise iraniana sob o ângulo das tensas relações entre Washington e a República Islâmica. «A liderança no Irão não é de forma alguma um reflexo da população iraniana (...). Não tenho certeza de que se possa chegar a um acordo com essas pessoas»…

Declarações que se assemelham às feitas no mesmo registo pelo antigo ministro francês dos Negócios Estrangeiros e da Defesa Jean-Yves Le Drian, que conhece bem os polos do poder em Teerão por ter tratado com eles. «Eles são muito hábeis na arte de enganar (...), sublinhou ele numa entrevista televisiva. A sua única preocupação é ganhar tempo e (garantir) a perenidade do regime».

Tudo está dito… Mas, parece ainda assim vital, mais particularmente no contexto presente, ter constantemente em mente a dimensão ideológica, as bases profundamente (e perigosamente) teocráticas do regime dos mulás, sobretudo do Corpo da Guarda Revolucionária (os Pasdaran). É estando plenamente consciente desta dimensão doutrinária, em todos os pontos obscurantista, que se torna possível perceber até que ponto as «conversações» americano-iranianas previstas para esta sexta-feira, 6 de fevereiro, em Omã, correm o risco de constituir apenas uma vasta supercheria… Ou, pior ainda, um grave erro estratégico e histórico, ou mesmo moral.

Após os massacres em grande escala perpetrados em poucos dias pelos aparelhos de segurança do regime dos mulás, só se poderá estigmatizar qualquer «acordo» que fosse concluído em Omã e que seria no mais alto grau politicamente amoral. Representaria, de facto, uma reabilitação vergonhosa, uma reafirmação da suposta legitimidade de um poder que matou a sangue-frio, em 48 horas (8 e 9 de janeiro), nada menos que 30.000 jovens e adolescentes na flor da idade (muito mais, até, segundo diversas fontes), alguns dos quais foram pendurados num guindaste, outros liquidados à queima-roupa nos seus leitos de hospital após terem sido feridos por tiros de bala real, outros ainda friamente envenenados com mercúrio… Sem contar as prisões de médicos acusados de terem tratado manifestantes (!), e os estudantes raptados em pleno campus universitário.

Banalizar, sob o manto de uma cínica realpolitik, as imundas atrocidades de que o regime dos mulás se tornou culpado, em total impunidade, teria incontestavelmente por efeito – se tal postura complacente se confirmar – de lançar um pesado descrédito sobre aqueles que se apresentam como porta-estandartes dos valores democráticos no mundo e que já são qualificados, amargamente, de «desertores» por muitos iranianos.

Paralelamente a este aspeto moral, uma reabilitação do poder em funções através de um suposto acordo, mesmo global, não deixará de reforçar e encorajar a ala radical dos Pasdaran, com todas as consequências políticas desestabilizadoras (a nível regional) e destrutivas (a nível de segurança) que um acordo manifestamente enganoso… Ninguém ignora, a este respeito, que os dirigentes da República Islâmica erigiram a mentira e a takiya (a dissimulação dos verdadeiros desígnios políticos) como sistema de governação fundado numa ideologia teocrática, a qual impõe, devido ao seu caráter divino, assegurar a perenidade do poder por todos os meios possíveis. Nesta ótica, a violência cega, as matanças em massa, os banhos de sangue, a repressão selvagem, as torturas, as condenações à morte, as execuções sumárias tornam-se «legítimas» e constituem mesmo um dever religioso.

O engano e a takiya, combinados com o poder político absoluto atribuído ao Guia Supremo (o walih el-faqih), o imã Khamenei, na sua qualidade de representante divino do imã el-Mahdi desaparecido, explicam que o regime dos mulás finge, sem interrupção, discutir o dossier nuclear com a comunidade internacional, e mais particularmente com as potências ocidentais. Acontece que estas negociações duram há quase… 25 anos! E, quando um acordo é concluído, Teerão não tem escrúpulos em não respeitar descaradamente os seus compromissos.

Em cada fase difícil que a República Islâmica atravessa, o Guia Supremo dá a impressão, enganosa, de que deseja «dialogar»; o objetivo real procurado é, no entanto, ganhar tempo, à espera de uma mudança de poder num país decisor ou de uma evolução para uma conjuntura mais favorável que permitiria relançar com mais força a política hegemónica e expansionista iniciada, desde 1979, pelo Corpo da Guarda Revolucionária.

Há um ano, quase dia por dia, a 9 de fevereiro de 2025, o presidente Donald Trump declarou que esperava que o Irão modificasse a sua linha de conduta, sublinhando que desejava chegar a um acordo com Teerão em vez de se engajar na via militar. Foi há um ano… Conhecemos o resto.

A reunião em Omã realiza-se hoje, enquanto o regime dos mulás não modificou um iota, desde… 1979, a sua linha de conduta antiocidental e fundamentalmente antiamericana exibida incansavelmente durante 47 anos, como ilustra, aliás, a recente gesticulação mediática dos deputados iranianos que, disfarçados de milicianos dos Pasdaran, entoavam em coro há alguns dias, em pleno Parlamento, «Morte à América», enquanto queimavam alegremente uma bandeira americana…

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