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Olhar pousado

Entre o apagamento do direito e a consagração da ocupação: a causa palestina em perigo

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Em Gaza, uma cena surreal: o Ramadão num cenário pós-apocalíptico (Foto MAJDI FATHI / NurPhoto / NurPhoto via AFP)
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Por Rami Rayess
Publicado mar 1, 2026 - 23:25

O momento crítico atravessado pela causa palestina talvez seja o mais grave desde a Nakba de 1948, não apenas pela abolição do princípio do direito à autodeterminação do povo palestino, pela confiscação de suas terras e pela criação de outro Estado sobre esses territórios, mas também pela natureza do projeto israelense, de caráter colonial e expansionista, que busca engolir cada vez mais áreas. Esse processo apaga, na prática, a solução de dois Estados e impede o surgimento de um Estado palestino dentro de suas fronteiras mínimas, ou seja, as fronteiras de 1967.

Os projetos de colonização aprovados em série pelo governo de Israel são apenas a parte visível de um plano muito mais amplo. Eles visam transformar o rosto da Cisjordânia, onde já se instalaram mais de 800 mil colonos, com o objetivo de consolidar a expansão territorial e, ao mesmo tempo, eliminar qualquer perspectiva real de criação de um Estado palestino. À medida que a rejeição internacional à expansão das colônias se esvazia e se reduz a condenações verbais, a situação na região se torna cada vez mais sombria: colonos, sob proteção do Exército israelense, invadem vilas e cidades, destruindo casas, bens e plantações.

É verdade que as posições árabes e islâmicas de condenação a essas medidas não enfraqueceram, mas permanecem incapazes de mudar a realidade ou ao menos congelá-la. Elas seguem reiterando o apoio à Iniciativa Árabe de Paz, adotada na cúpula de Beirute em 2002, à qual Israel jamais deu atenção relevante. Pelo contrário, buscou enfraquecer seu suposto “parceiro” palestino, a Autoridade Nacional Palestina surgida dos Acordos de Oslo (1993), e desviou deliberadamente o olhar da ascensão de seu adversário histórico, o movimento Hamas.

Enquanto sucessivas administrações americanas se vangloriam de seu alinhamento a Israel e competem para lhe oferecer o maior apoio político, militar e material, o atual presidente Donald Trump considera ter dado passos decisivos nessa direção. Foi ele quem, em seu primeiro mandato, reconheceu Jerusalém como capital de Israel, ignorando o caráter plural da cidade e sua simbologia religiosa e histórica, e transferiu para lá a embaixada dos Estados Unidos. Também reconheceu a soberania israelense sobre o Golan sírio, ocupado desde 1967.

Embora a causa palestina tenha despertado ampla simpatia popular, expressa em manifestações em diversas capitais europeias ao longo de meses, essa mobilização não se refletiu plenamente nas políticas dos governos ocidentais, que fecharam os olhos para os massacres cometidos na Faixa de Gaza. Isso expôs de forma clara uma política de dois pesos e duas medidas em relação às situações da Ucrânia e da Palestina, sugerindo que o sangue palestino vale menos, enquanto o sangue ucraniano mereceria todo o apoio do mundo. Evidentemente, toda vida humana é preciosa, e nenhuma morte pode ser tratada com leviandade.

Na prática, essas políticas levaram à “demonização” do palestino, rotulado como terrorista mesmo quando luta pela libertação de sua terra, e à “humanização” do israelense, cujo comportamento é sistematicamente enquadrado como “legítima defesa”, apesar de ser ele o ocupante. Se o ataque a civis é um ato odioso e condenável em qualquer contexto, o que ocorre na Palestina não começou em 7 de outubro de 2023, como lembrou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, ao afirmar que esses acontecimentos “não vieram do nada”, declaração que lhe rendeu pressões políticas e midiáticas por parte de Israel e de seus aliados dentro e fora da ONU.

A propaganda israelense, sustentada por enormes capacidades globais, conseguiu inverter fatos e fabricar narrativas a serviço de seus interesses, insistindo que tudo o que faz é defesa, mesmo ao custo da morte de mais de 70 mil civis em Gaza, alguns por fome e sede deliberadas, e do bombardeio de hospitais, centros de saúde, escolas, universidades, clubes culturais e instalações esportivas.

As redes sociais, principais espaços de circulação de informação entre jovens e adolescentes, tampouco corrigiram essa narrativa, em grande parte devido à censura exercida por empresas que controlam essas plataformas, que bloquearam centenas de contas e sites favoráveis à Palestina e contrários ao discurso dominante de apoio a Israel e à sua guerra implacável contra o povo palestino.

Aqui, mais uma vez, surge o problema da narrativa: Israel sempre afirmou combater o Hamas, quando, na prática, atingiu o conjunto da população palestina, como demonstra o nível de destruição em Gaza, superior a 80%. Da mesma forma, os slogans sobre libertar reféns pela força se mostraram vazios: apesar da devastação total, Israel não conseguiu esse objetivo e teve de recorrer a mediações políticas e acordos de troca para libertar seus cativos, vivos ou mortos.

Dados do Instituto de Estudos Palestinos indicam que 38 hospitais foram destruídos ou colocados fora de operação em Gaza, 165 universidades e instituições de ensino foram arrasadas, 670 escolas destruídas e 835 mesquitas demolidas. As estatísticas seguem alarmantes: 1.670 profissionais de saúde mortos, 140 membros da defesa civil, 787 policiais e agentes de segurança da ajuda humanitária, 203 funcionários da UNRWA, 254 jornalistas e 1.023 pesquisadores, acadêmicos e professores.

É evidente que o conflito assumiu contornos inéditos, marcados por impunidade total e por violações sem precedentes das leis e normas internacionais. Isso coloca o mundo inteiro à prova e levanta questões fundamentais sobre os slogans constantemente celebrados por certos Estados: direitos humanos, democracia, igualdade e justiça. Também abre um debate profundo sobre a natureza da nova ordem internacional, dominada pela lei do mais forte e pela indiferença aos direitos fundamentais dos povos oprimidos.

 

 

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