
Uma leitura dos meios ligados ao Hezbollah

A publicação de dois apelos lançados por militantes de Tiro e Nabatieh, dirigidos ao Estado libanês para que proteja essas duas cidades históricas da ameaça israelense de apagá-las do mapa, para que nelas mobilize o Exército e as forças de segurança e as transforme em cidades abertas e desmilitarizadas, constituiu o primeiro ato de resistência pública e organizada dentro do meio xiita. Um meio no qual, recentemente, multiplicaram-se as vozes que pedem a superação do medo e o fortalecimento da contestação contra aqueles que sequestraram sua história, seu presente e seu futuro para vingar Khamenei. Esses militantes, porém, foram alvo de uma campanha de ameaças, difamação e ataques à honra, o que levou alguns deles a recuar.
Eu havia começado a escrever este artigo antes da publicação desses dois apelos, na tentativa de compreender os mecanismos de controle do Hezbollah e sua capacidade de exercer dominação, bem como de entender a resistência silenciosa desse meio e os fatores que sustentam a influência exercida sobre ele.
No entanto, se nos limitarmos a compreender o poder em ambientes partidários apenas por meio das ferramentas da repressão direta, deixaremos escapar aquilo que constitui sua dimensão mais eficaz. Como mostra Michel Foucault, o poder moderno não se baseia apenas na proibição e na punição, mas na produção de indivíduos que vigiam a si mesmos e reconfiguram seu comportamento de acordo com as normas que lhes são impostas. Isso não significa, contudo, que a dominação se realize plenamente ou se estabilize. É justamente aí que entra a contribuição de James C. Scott, ao revelar seu outro lado: mesmo nos ambientes mais disciplinados, a resistência não desaparece; ela assume formas subterrâneas, cotidianas e não declaradas.
Essa sobreposição se manifesta com especial clareza na influência do Hezbollah sobre todo o espaço social e cultural de seu meio. De um lado, existe um sistema disciplinar integrado que não funciona apenas por meio dos aparelhos institucionais ou do discurso oficial, mas também pela internalização das normas do Hezbollah pelo próprio meio social, que passa a reproduzi-las. De outro, também se observam pequenas práticas cotidianas que revelam uma distância silenciosa entre os indivíduos e essas normas, distância que se ampliou desde a guerra atual que o grupo provocou.
Segundo Foucault, a vigilância não é eficaz porque está em toda parte, mas porque é internalizada. Ao observar a si mesmo, o indivíduo aprende a escolher suas palavras, controlar seu tom e reconsiderar aquilo que pode ser compreendido ou mal interpretado. Com o tempo, essa autocensura torna-se parte de sua formação social, sem necessidade de qualquer intervenção externa. Ela se transforma em algo semelhante a uma “segunda natureza”, na qual a conformidade parece uma escolha pessoal, e não o resultado de uma pressão externa.
É precisamente aqui que surge o paradoxo destacado por Scott. Quando os indivíduos são obrigados a se conformar em público, isso não significa necessariamente que concordem internamente. Desenvolve-se então aquilo que ele chama de “texto oculto”: um conjunto de atitudes e sentimentos que não encontra espaço na esfera pública, mas que circula em círculos restritos ou se expressa por meios indiretos.
Nesse contexto, a política deixa de se limitar aos discursos ou às manifestações e migra para os detalhes da vida cotidiana. O silêncio, por exemplo, nem sempre é sinal de concordância; pode ser uma estratégia de abstenção. A linguagem alusiva não é uma falha de expressão, mas um meio de escapar ao custo da fala direta. Até mesmo a recusa em participar pode ser interpretada como um ato político, e não como ausência de ação.
O que a combinação entre Foucault e Scott oferece é uma compreensão da relação entre esses dois níveis. O sistema que consegue produzir indivíduos disciplinados é precisamente o mesmo que cria as condições para uma “resistência pela astúcia”. Quanto maior o custo da expressão, maior a necessidade de formas indiretas de rejeição. Quanto mais profunda a vigilância, mais carregado de significado se torna o silêncio.
No meio que analisamos, sob a pressão da guerra e da contínua escalada israelense, o comportamento do chamado “meio de apoio” revela uma transformação profunda na imagem que emerge no espaço público, algo que vai muito além do simples declínio econômico ou do esgotamento social. Estamos diante de uma mudança na própria relação entre as pessoas e o discurso político que afirma representá-las. É aí que se evidencia a interação entre internalização e resistência. O indivíduo pode aderir ao discurso público, reproduzir seu vocabulário e demonstrar pertencimento, ao mesmo tempo em que mantém internamente uma certa distância. Essa distância não é exibida, mas aparece em momentos específicos: numa piada passageira, num comentário ambíguo, numa redução do entusiasmo ou na ausência de resposta a um chamado à mobilização.
E é justamente aí que reside a forma mais temível de resistência: não aquela que se exibe, mas aquela que passa despercebida.
Essa resistência, contudo, apesar de sua discrição, não implica necessariamente uma ruptura radical ou um rompimento com o poder dominante. Na maioria das vezes, ela permanece dentro dos limites do sistema, adaptando-se a ele ao mesmo tempo que o desafia. É isso que a torna simultaneamente um sinal de fraqueza e de força: fraqueza porque não se traduz em ação coletiva visível; força porque revela os limites da dominação.
Foucault também recorda que o poder não sofre apenas com a oposição direta, mas igualmente com a erosão interna. Quando a conformidade se torna meramente formal, quando a obediência se reduz a uma encenação, o poder perde parte de sua eficácia. Pode conseguir regular o comportamento aparente, mas fracassa em produzir adesão genuína.
Nesse quadro, fenômenos como a falta de resposta aos chamados de mobilização ou a disseminação da indiferença podem ser compreendidos não como ausência de política, mas como uma transformação de suas formas. As pessoas não saem às ruas, mas tampouco se engajam. Não protestam, mas também não respondem.
No fim das contas, essa dinâmica não pode ser reduzida a uma simples oposição entre dominação e resistência. O que observamos é um entrelaçamento contínuo entre ambas, no qual o poder gera suas próprias formas de rejeição e a resistência se adapta às condições impostas pelo poder em vez de enfrentá-lo diretamente. É nessa zona cinzenta, onde o silêncio não significa consentimento e a abstenção não significa neutralidade, que a política real se constrói, longe dos discursos oficiais.
É assim que podemos compreender como um meio que aparenta ser disciplinado e coeso pode carregar dentro de si múltiplas camadas de hesitação, distanciamento e resistência silenciosa, imperceptíveis à primeira vista, mas cujas marcas se aprofundam com o tempo.
É sob essa perspectiva que deve ser entendida a ausência de resposta aos apelos de Naïm Kassem para que as pessoas saíssem às ruas: não como neutralidade, mas como uma forma de recusa silenciosa. As pessoas não anunciam sua oposição, mas também não conferem legitimidade real por meio de sua participação. Trata-se de um estado intermediário entre a obediência e a rebelião, um estado de suspensão, espera e talvez de reavaliação.
Nesse sentido, pode-se dizer que o que vemos hoje é uma passagem gradual do “meio de apoio” para o “meio exausto”. O meio de apoio responde, mobiliza-se e participa. O meio exausto suporta, silencia, mas já não se associa. Essa transição, ainda que parcial ou incompleta, possui um significado político profundo: o enfraquecimento da capacidade de mobilização.
Quanto aos dois apelos recentes que imploraram pela intervenção do Estado e pela retirada das armas de Tiro e Nabatieh, eles marcam de forma clara e corajosa os primeiros sinais de uma ruptura da barreira do medo dentro do próprio meio do Hezbollah.