


Rifaat al-Assad, morto em 20 de janeiro de 2026, encarnou um dos rostos mais reveladores da transformação da Síria naquilo que se pode chamar de “Estado da barbárie”: um Estado cuja suposta legitimidade se apoiava na repressão, na asabiyya comunitária imposta e na busca obstinada por uma “aliança das minorias”.
Essa transformação começou, na prática, com a união sírio-egípcia de 1958, uma experiência efêmera que não durou mais de três anos e alguns meses.
No fundo, Rifaat al-Assad não foi mais do que uma engrenagem desse Estado sírio da barbárie que ele defendeu sem reservas, muito antes do massacre de Hama, em fevereiro de 1982, e até a invasão do campo sobre as cidades. Essa empreitada buscava impor aos habitantes urbanos valores arcaicos, como represália contra tudo o que Damasco, Aleppo, Homs, Hama ou Latakia representavam enquanto valores civilizatórios.
Essa invasão ocorreu dentro da própria Síria. Mas o Estado sírio da barbárie logo transbordou suas fronteiras e se estendeu ao Líbano. Durante anos, Rifaat al-Assad manteve ali uma presença militar efetiva, por meio do deslocamento de forças das Saraya al-Difaʿ (Forças de Defesa) para o estádio do clube al-Nahda, em Ras Beirute, perto dos Banhos Militares (Hammam al-Askari). Ele e seu grupo foram responsáveis por práticas ignominiosas, entre elas o sequestro do encarregado de negócios jordaniano Hisham Muhaysin, posteriormente libertado sob pressão. Rifaat também tentou mobilizar os alauítas de Trípoli, buscando recrutá-los para servir a seu projeto baseado numa aliança das minorias contra a maioria sunita, onde quer que ela existisse.
A deriva rumo ao Estado sírio da barbárie se consolidou profundamente com o golpe de Estado de 8 de março de 1963, conduzido por oficiais baasistas e nasseristas decididos a aniquilar qualquer possibilidade de renascimento sírio. Esse golpe destruiu as últimas esperanças de que a Síria voltasse a ser um Estado normal após o fim, ao mesmo tempo grotesco e trágico, da união dissolvida em 28 de setembro de 1961. Tal união não produziu nada além de uma catástrofe econômica, abrindo caminho para as nacionalizações e lançando as bases do Estado securitário, sob a direção do oficial Abdelhamid Sarraj.
Rifaat al-Assad, irmão mais novo de Hafez al-Assad, encarnou plenamente a figura do alauíta ávido por poder e dinheiro, incapaz de se expressar em qualquer linguagem que não fosse a da violência e da chantagem. Foi um componente orgânico do Estado da barbárie instaurado por Hafez al-Assad, que lançou metodicamente seus alicerces. Até 1984, Rifaat permaneceu como um dos instrumentos do “irmão mais velho”, fundador do Estado alauíta que ruiu em 8 de dezembro de 2024, dia em que Bashar al-Assad fugiu às pressas para Moscou.
Rifaat al-Assad não se limitou a cometer crimes contra a população comum. Chegou inclusive a tentar se impor como “doutor”, adotando poses de intelectual, apesar de ser incapaz de articular corretamente uma única frase.
Desempenhou todos os papéis que o sistema esperava dele, em especial ao fundar as Saraya al-Difaʿ (Forças de Defesa), unidades militares alauítas cuja missão exclusiva era proteger o regime e servir-lhe de escudo. Essas forças foram posteriormente dissolvidas e substituídas pela Guarda Republicana, também comandada por oficiais alauítas.
Rifaat ocupou por um período o cargo de vice-presidente da República, antes de ser marginalizado ao tentar tomar o poder aproveitando-se da grave crise de saúde do irmão, em 1984. Acreditou então que todas as condições estavam reunidas para se apropriar do poder absoluto. Mas Hafez al-Assad, salvo por seus médicos, mobilizou outros altos comandantes alauítas para barrar qualquer pretensão sucessória. O então ministro da Defesa, o sunita Mustafa Tlass, assumiu o papel da invectiva pública, levantando o último véu de proteção de que Rifaat ainda desfrutava. Tlass sempre soube como satisfazer Hafez al-Assad e dominou perfeitamente o papel que lhe foi atribuído, enquanto seu “mestre” preparava o filho mais velho, Bassel, para a sucessão. Isso deveria ocorrer em 2000. Mas Bassel morreu em 1994, e o herdeiro do trono passou a ser Bashar.
Durante os longos anos em que viveu fora da Síria, Rifaat al-Assad beneficiou-se de recursos financeiros significativos provenientes de diversas fontes árabes. Adquiriu propriedades suntuosas e hotéis na França, na Grã-Bretanha, na Espanha e em outros países. Também tentou se reconverter no campo midiático. Seu comportamento, marcado por uma cultura do tipo shabbiha, as milícias paramilitares a serviço do regime, pouco mudou. O que mudou foi seu discurso: passou a se apresentar como defensor dos Estados do Golfo, afirmando estar muito distante de qualquer tentativa de chantagem por meio da aproximação com o Irã, prática que seu irmão Hafez e, depois, Bashar haviam transformado em instrumento de poder.
Hafez al-Assad possuía uma mente política formidável, movida pelo desejo de ocultar seu sectarismo e seu ódio aos sunitas urbanos, assim como a todos aqueles que ainda acreditavam na liberdade na Síria. Tomou o poder no outono de 1970 e chegou à presidência em 1971, tornando-se o primeiro alauíta a ocupar o cargo. Onipotente, até que o destino o atingiu brutalmente em 1994, quando seu filho mais velho, Bassel, morreu em um acidente de trânsito a caminho do aeroporto de Damasco. Foi o golpe mais violento de sua vida.
Rifaat, por sua vez, permaneceu convencido até o fim de que as circunstâncias lhe permitiriam retornar a Damasco para desempenhar um papel político, muito antes da morte de Bassel. De fato, voltou em 1993 por ocasião da morte da matriarca, Naissa. Mas o presidente sírio o tratou com extrema cautela, sobretudo após decidir preparar Bashar como sucessor. Hafez al-Assad, que segundo um embaixador americano que serviu em Damasco chamava Rifaat de “estúpido”, permitiu ao irmão mais novo ocupar alguns papéis secundários, mantendo-o sob estreita vigilância. Rifaat logo deixou a Síria ao compreender que toda atividade política lhe estava definitivamente vedada.
Alea jacta est. O máximo que Bashar al-Assad fez por seu tio foi permitir que fugisse de Paris para Damasco, a fim de evitar a prisão na França. Rifaat al-Assad escapou assim do encarceramento. Permaneceu até o último dia de sua vida como foragido da Justiça, uma Justiça que, mais cedo ou mais tarde, alcançará Bashar al-Assad e muitos outros.