


Exatamente no momento em que se realizava em Paris, na Assembleia Nacional, um colóquio que dava voz aos nossos concidadãos xiitas livres*, uma aldeia do Sul situada a 180 metros de altitude fazia-se lembrar.
Na sexta-feira, 5 de junho, um vento de revolta soprava em Baysarieh: um confronto opôs os habitantes — em sua maioria duodecimanos e apoiantes de Nabih Berri — a membros do Hezbollah que queriam instalar lançadores de foguetes bem no centro da localidade.
O exército libanês teve de intervir para separar os adversários e restabelecer a ordem. Um vídeo registou a confusão generalizada que, por ironia do destino, se desenrolou numa rua enfeitada com bandeiras verde-pistache, nas cores do movimento Amal!
O incidente ocorreu precisamente quando o Centro de Operações de Emergência do Ministério da Saúde Pública nos informava que o nosso país lamentava 3558 mortos e 10870 feridos desde 2 de março, data em que o Hezbollah reacendeu o rastilho com o pretexto de vingar a execução do Guia Supremo iraniano. Haverá quem diga que não é um preço alto a pagar pelo apoio iraniano à libertação do Sul do Líbano e da mesquita Al-Aqsa.
O cansaço é contagioso
Baysarieh, porém, não seria a única a insurgir-se em território nacional. Ao mesmo tempo, e como se tivessem combinado, o Presidente da República e o Presidente do Conselho de Ministros "amotinaram-se" contra a cartilha do Hezbollah.
Joseph Aoun declarou à CNN que o Irão não tinha o direito de usar o nosso país como moeda de troca, que Naïm Qassem não representava o Líbano e que a única opção sensata era a negociação para pôr um fim definitivo ao estado de hostilidade entre o Líbano e Israel.
Quanto a Nawaf Salam, reagiu lembrando que o Líbano não era um campo onde outros podiam travar os seus combates e que os "sulistas" não tinham de pagar o preço de "cálculos sobre os quais não têm qualquer controlo".
Neste contexto, só faltava o presidente Nabih Berri pronunciar-se! Mas passaremos em silêncio as suas declarações, ditadas pelo temor reverencial que o Hezbollah lhe inspira. De qualquer forma, Baysarieh já respondeu por ele, em nome do movimento Amal e de todos os xiitas revoltados com o absurdo dos combates que persistem e com a apropriação do poder pela milícia iraniana.
Como em todo o Líbano, o cansaço alastra e generaliza-se perante as destruições e os deslocamentos das populações. Por mais que o inamovível Nabih Berri se recuse a dar o seu aval ao acordo alcançado em Washington, a sua base eleitoral parece já não querer pagar o preço das aventuras insensatas de Naïm Qassem.
Esperaram tanto tempo para virar a mesa!
É que, até há pouco, os nossos círculos oficiais primavam pela discrição. Cuidado com ofender a Resistência: ela devia ser tratada com delicadeza. Em respeito e consideração pelos sacrifícios do Hezb, não se devia de forma alguma comprometer a sua imagem de libertador.
Mas eis que, de repente, uma mudança de paradigma! O discurso já não é o mesmo. É como se tivesse havido uma "rutura epistemológica", ou seja, uma mudança radical na forma de encarar a realidade, que rompe com o discurso anterior e com os clichés que o partido iraniano e os seus capangas nos impunham.
Só esta mudança é já um sinal de libertação, pois durante longos anos o Executivo tinha feito sua a retórica do Hezbollah.
Por isso, o nosso Estado republicano assemelhava-se mais à Commedia dell'arte, a uma pura palhaçada. Os nossos responsáveis não passavam de bufões e farsantes que se esforçavam por defender as teses do partido de Deus — teses que, no fundo, recusavam.
Então, que se acabe com a pudor com que se tratava a questão das negociações diretas com Israel. A tensão vai, evidentemente, escalar e um processo de libertação será desencadeado. E este chegará ao ponto de elaborar e divulgar oficialmente a lista dos crimes em série cometidos pelo partido de Deus.
Obrigado Baysariyeh, obrigado Palais Bourbon, o medo que o Hezbollah incutia na sua própria comunidade, bem como em certos círculos, não tem mais lugar!
*Colóquio «O Líbano entre paz e guerra: legitimidade do Estado e papel da sociedade civil», Assembleia Nacional, 5 de junho de 2026, Paris. Os participantes, que responsabilizaram o Hezbollah e a «santa aliança» iraniana pela catástrofe atual, apelaram à restauração do Estado de direito.