


No papel, o memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irã, assinado posteriormente pelo presidente Donald Trump e pelo presidente Massoud Pezeshkian, aparece como um documento em que todas as questões pendentes permanecem em aberto. Com exceção da reabertura do estreito de Ormuz e da suspensão do bloqueio naval americano imposto à «República Islâmica», nada indica qualquer avanço em relação aos temas que continuam separando Washington e Teerã.
Também se pode dizer, ao menos no papel, que a administração de Donald Trump decidiu ceder ao Irã em vez de levar adiante seu objetivo inicial de neutralizar seu poder de projeção e pôr fim ao seu projeto expansionista, como pretendia fazer desde o início?
A leitura dos quatorze pontos contidos no memorando deixa claro que a administração Trump manteve em suspenso todas as questões fundamentais. Continua sem explicação o destino do programa nuclear iraniano, embora Trump tenha repetido inúmeras vezes que sua existência era inaceitável. Não há qualquer menção aos mísseis balísticos nem às suas bases de operação. Tampouco existe uma posição definida sobre os proxys do Irã na região, à exceção da confirmação de que o cessar-fogo acordado com os Estados Unidos se estende ao Líbano.
Como isso será traduzido na realidade libanesa? Existe, do lado iraniano, a convicção de que os Estados Unidos obrigarão Israel a respeitar o cessar-fogo no Líbano? É verdade que Israel o vem respeitando até agora. Ainda assim, o memorando não contém nada que sugira que Israel, que sequer é parte do acordo, tenha cedido à administração americana no Líbano ou que venha a executar, na primeira oportunidade, tudo aquilo que Washington lhe solicitar. Apesar dos anúncios americanos sobre a obtenção de um cessar-fogo no Líbano, a posição israelense em relação ao país continua envolta na mais profunda ambiguidade.
Não demorou muito para que surgissem dificuldades na implementação do memorando. Uma realidade simples logo se impôs: a administração Trump conhece pouco o Irã e sabe ainda menos sobre a forma como atuam os dirigentes iranianos. No passado, porém, transmitia a impressão de dominar melhor o assunto. Talvez isso se devesse, durante o primeiro mandato de Trump, à existência de uma equipe coesa que compreendia perfeitamente, por exemplo, o significado da eliminação de Qassem Soleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária, bem como as implicações de um acontecimento dessa magnitude. A questão não dizia respeito apenas ao cenário interno iraniano, onde Soleimani ocupava a segunda posição na estrutura de poder, atrás do já falecido líder supremo Ali Khamenei. Ele era também o homem da «República Islâmica» na região e a ponta de lança de sua estratégia. Era o comandante de fato dos houthis, o alto comissário no Iraque e, ao mesmo tempo, o governante da Síria e do Líbano.
Há quem considere que a atual administração americana sente falta de uma figura como o ex-secretário de Estado Mike Pompeo. Pompeo sabia o que era o regime iraniano e como lidar com ele. Chama a atenção o fato de que, nas últimas semanas, o dossiê iraniano tenha sido retirado do Departamento de Estado. O secretário de Estado Marco Rubio acabou reduzido ao papel de mero figurante, um simples observador do que acontece entre Teerã e Washington.
Um grupo de autoridades americanas do perfil do vice-presidente J. D. Vance, que conhece muito pouco o Irã, não pode administrar um tema de tamanha sensibilidade. O que estamos testemunhando hoje é apenas um novo capítulo de uma história iniciada em 1979, quando as novas autoridades iranianas mantiveram os diplomatas da embaixada americana em Teerã como reféns durante 444 dias. A crise dos reféns, que não provocou qualquer reação americana, abriu caminho para novas formas de chantagem da «República Islâmica» contra o «Grande Satã». Ao longo dos últimos quarenta e sete anos, a República Islâmica manipulou a maioria das administrações americanas. Em 2003, conseguiu inclusive levar a administração de George W. Bush a invadir o Iraque, preparando o terreno para entregá-lo posteriormente a milícias sectárias iraquianas ligadas à Guarda Revolucionária, milícias que haviam combatido ao lado da República Islâmica durante a guerra entre Irã e Iraque, de 1980 a 1988.
O memorando assinado recentemente, um documento desprovido de viabilidade real, nada mais representa do que um retorno da administração Trump à política americana tradicional em relação à República Islâmica. A possibilidade de os Estados Unidos entrarem em guerra com o Irã não passou de uma exceção. Donald Trump voltou à sua posição habitual de negociador em busca de um acordo com Teerã. É isso que explica a decisão de confiar o dossiê ao seu vice-presidente, acompanhado de seu enviado especial para o Oriente Médio, Steve Witkoff, e de seu genro, Jared Kushner.
Nada mudou no Irã que justifique uma concessão americana à Guarda Revolucionária. Ainda está distante o dia em que Washington poderá apresentar o Irã como um país propício à celebração de grandes acordos comerciais. O que vemos atualmente é uma mentalidade americana lidando com um tema extremamente complexo, cujos detalhes e cuja história ela desconhece.
Essa mesma mentalidade americana, que quis transformar Gaza em uma «nova Riviera», permanece desconectada da realidade da região. Ela não consegue compreender que o Irã não está disposto a mudar. Tudo o que a liderança em Teerã deseja é ganhar tempo.
O Irã aposta em uma mudança política dentro de Israel, no aprofundamento das divergências entre americanos e israelenses e em uma derrota da administração Trump nas eleições legislativas de meio de mandato do próximo mês de novembro. Nesse momento, Trump se tornará pouco mais do que um presidente enfraquecido e sem grande capacidade de ação.
Em breve saberemos se essa aposta americana estava correta. O presidente americano caiu na armadilha iraniana. Há, porém, uma certeza: Donald Trump não é um homem fácil, mas seu principal problema continua sendo a falta de uma equipe que compreenda verdadeiramente o que é o Irã, enquanto o Irã sabe perfeitamente como lidar com os Estados Unidos. Os iranianos acumularam uma longa experiência em manipular as administrações americanas e moldá-las aos seus interesses, aguardando o momento oportuno para recorrer a um jogo de chantagem que dominam com extraordinária habilidade. E isso não se limita apenas aos Estados Unidos. Também abrange os países da região e os países da Europa Ocidental, que, no fundo, adotaram uma postura extremamente cautelosa em relação a esse memorando de entendimento.