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O Novo Mundo

Abd Rabbuh Mansour… um capítulo da tragédia iemenita

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Abedrabbo Hadi Mansour, cercado pelos xeques Mohammad bin Zayed e Mohammad bin Salman em Riade, em 2019 (Foto BANDAR AL-JALOUD / Saudi Royal Palace / AFP).
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Por Khairallah Khairallah
Publicado jun 3, 2026 - 00:57

A tragédia do Iémen radica, em parte como é evidente, no acesso ao poder de uma personalidade do calibre de Abd Rabbuh Mansour Hadi num determinado momento da história, e nos erros que figuras da sua têmpera cometeram tanto antes como depois da unificação. No momento presente, já se torna possível falar de um país partido em fragmentos que procura uma fórmula para se recompor, desde que essa recomposição seja ainda viável para um Estado de considerável importância estratégica, do qual o Irão controla hoje uma porção não despicienda.

 

Abd Rabbuh Mansour, a quem a morte levou há apenas alguns dias, não era no fundo senão a expressão de um tipo político saído da instituição militar com uma cultura tão escassa que o inabilitava totalmente para governar um país tão singularmente complexo como o Iémen. Chegou à presidência depois de ter passado catorze anos à sombra de Ali Abdallah Saleh, na qualidade de vice-presidente, o mesmo Saleh que os Houthis haveriam de assassinar mais tarde, uma vez que deixara de ser chefe de Estado.

 

Abd Rabbuh sucedeu a Ali Abdallah Saleh, forçado a demitir-se em Fevereiro de 2012, e permaneceu presidente até Abril de 2022. Foi então que as potências com influência real sobre o Iémen reconheceram a sua incapacidade para conduzir o país. Tornou-se necessário recorrer ao Conselho de Direcção Presidencial, composto por oito membros e presidido pelo doutor Rachad al-Alimi, o qual parece manifestamente capaz de uma governação algo mais eficaz, ainda que seja por pouco.

 

Como havia o falecido chegado à presidência em 2012, e antes disso à vice-presidência em 1994? Mais fundamentalmente ainda, por que razão se tornou Abd Rabbuh Mansour ele próprio um fragmento da tragédia iemenita, através de uma acumulação de erros cuja enumeração completa seria vã, dada a sua vastidão?

 

Importa assinalar antes de mais que Abd Rabbuh Mansour era natural da província meridional de Abyan. Associava-se-lhe o nome do antigo presidente iemenita do Sul, Ali Nasser Mohammed, também de Abyan, que os seus adversários afastaram do poder nos tristemente célebres «acontecimentos de Janeiro» de 1986. Abd Rabbuh, que ocupara no Sul o cargo de subchefe do Estado-Maior, refugiou-se em Saná após a queda de Ali Nasser. No verão de 1994, juntou-se ao grupo de sulistas gravitando em torno de Ali Abdallah Saleh, na sequência da ruptura entre este e Ali Salem al-Beidh, líder do Partido Socialista decidido a reverter a unificação. Seguiu-se uma guerra encarniçada que terminou com a derrota do Partido Socialista. Esta trajectória permitiu a Abd Rabbuh ascender à vice-presidência, depois de ter levado bem longe o seu apoio a Ali Abdallah Saleh na guerra contra os separatistas.

 

Perguntei certa vez a Ali Abdallah Saleh como podia escolher alguém como Abd Rabbuh Mansour para lhe suceder nas funções, sendo que esse homem não possuía qualquer qualificação de qualquer espécie. Respondeu-me palavra por palavra: «Quero alguém que não me crie problemas», fundando-se na sua experiência com Ali Salem al-Beidh, vice-presidente do Conselho Presidencial após a unificação, a quem descrevia como uma personalidade «complicada» que havia querido ser um verdadeiro «sócio» no poder.

 

Abd Rabbuh Mansour permaneceu uma figura marginal ao longo de todo o seu mandato de vice-presidente. Cabia-lhe suportar Ali Abdallah Saleh, que se havia ido transformando progressivamente num chefe de Estado volúvel, propenso a encolerizar-se sem motivo algum contra os seus próprios colaboradores.

 

Quando Ali Abdallah Saleh foi forçado a demitir-se no início de 2012, Abd Rabbuh Mansour revelou-se sob uma faceta inteiramente diferente. Não poupou nenhum meio para se vingar do seu antecessor: recusava ostensivamente devolver-lhe as chamadas e ao mesmo tempo dedicava-se metodicamente ao desmantelamento da instituição militar. O seu objectivo era erradicar qualquer influência que o ex-presidente e o seu filho, o general Ahmad, pudessem ainda conservar no seio das forças armadas. O resultado foi destruir toda a esperança de reconstrução do exército iemenita.

 

Com plena consciência disso ou sem ela, Abd Rabbuh pôs-se objectivamente ao serviço dos Houthis ao recusar enfrentá-los na província de Amran, enquanto marchavam sobre Saná no verão de 2014. Ali Abdallah Saleh aconselhara-o a travá-los em Amran, argumentando que a queda dessa província significava inevitavelmente a queda da capital. Enviou-lhe quatro emissários, entre os quais Yahya al-Raï e Aref al-Zouka, portadores de uma mensagem inequívoca a esse respeito. Abd Rabbuh rejeitou no entanto o conselho, declarando que «se recusava a saldar as contas de Ali Abdallah Saleh com os Houthis». O que ocorreu efectivamente foi que encobriu o avanço dos Houthis e a sua tomada da capital iemenita, a 14 de Setembro de 2014.

 

Em tudo o que fez, Abd Rabbuh Mansour jamais possuiu o mínimo de cultura política que o governo de qualquer país exige. Chegou mesmo a assinar o «Acordo de Paz e Parceria» com os Houthis pouco depois de estes terem posto as mãos em Saná, acordo a que assistiu um representante das Nações Unidas e que conferiu aos Houthis uma legitimidade de que tinham a mais premente necessidade. Nada disto impediu que estes o colocassem em prisão domiciliária. Abd Rabbuh só conseguiu escapar dessa prisão domiciliária em Saná graças a uma mediação em que o Sultanato de Omã desempenhou um papel decisivo, levando os Houthis a fecharem os olhos enquanto ele fugia para Áden.

 

Abd Rabbuh Mansour foi, em suma, uma componente da tragédia iemenita. Um homem alheio à política em toda a sua extensão viu-se à frente de um país mergulhado numa crise existencial, crise que os Irmãos Muçulmanos haviam em grande medida provocado ao quererem arrancar Ali Abdallah Saleh do poder para ocupar o seu lugar. Saleh não era nenhum anjo, e os seus erros foram numerosos, mas os Irmãos que se voltaram contra ele não compreenderam que estavam a jogar o jogo dos Houthis, sem se deterem a reflectir um único instante no que seria o Iémen depois de Saleh.

 

O Iémen teve o infortúnio de ter à sua frente, num período crítico da sua existência, um presidente do jaez de Abd Rabbuh Mansour Hadi. Este país merecia alguém de melhor têmpera, alguém que conhecesse ao menos um pouco o próprio Iémen, o seu meio envolvente, e que soubesse que a vingança não pode fazer as vezes de política, por muito numerosas e pessoais que fossem as humilhações a que havia sido submetido.

 

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