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Crónicas do limiar

Passante na Praça

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Por Zeina Ziadeh
Publicado mar 3, 2026 - 08:54

Pisei a praça da Estrela como uma filha que regressa para reconhecer os traços de um rosto há muito oculto por trás de cadeados enferrujados, arame farpado e decisões que pesavam sobre o coração das pessoas. Visito-a pela segunda vez desde que me foi fechada na cara — fechada em nossa cara, por anos, a nós que um dia acreditamos que as praças haviam sido criadas para nos pertencer, e que as cidades só se fecham nos livros antigos quando os historiadores escrevem sobre cercos ou guerras. Durante longos anos, a praça da Estrela permaneceu um nome que pronunciávamos com cautela, que apontávamos como quem aponta para uma ferida que não cicatrizou. Foi fechada por aqueles que julgaram possuir as suas chaves e as chaves de quem nela se encontrava; os nossos passos foram confiscados, e foi adiado o nosso reencontro com os seus recantos, que conhecem o eco das nossas pisadas melhor do que os «guardas» jamais os conhecerão.

Visito-a como turista — eu, filha desta terra que escolheu ficar quando partir era mais fácil do que explicar por que se fica. Escolhi permanecer, não por heroísmo nem por desafio, mas porque as minhas raízes eram demasiado fundas para serem arrancadas por uma notícia de última hora ou por um longo corte de eletricidade. Caminho hoje entre os seus edifícios elegantes na companhia de parentes cujo pai o exílio conduziu aos braços da «mãe bondosa», onde eles nasceram. A letra ghain domina o seu sotaque. Nunca pronunciaram a língua do dâd como nós a pronunciamos, e a sua memória não se formou ao ritmo dos geradores ou dos pregões dos vendedores ambulantes. Olhavam em volta com o deslumbramento do turista, enquanto eu olhava com o deslumbramento de quem vê a sua própria cidade de fora.

Vagueamos juntos, passo a passo, e um monumento, algumas pedras que permaneceram testemunhas de idades e civilizações que passaram por esta terra, nos detêm por vezes. Explico-lhes como os nomes se sucederam sobre a cidade como as estações se sucedem, como Beirute foi outrora um porto de livros, outrora uma arena de canhões, e outrora ainda um palco para sonhos maiores do que o seu modesto espaço. No meu francês salpicado de algumas palavras de inglês, tento encontrar as palavras que resumiriam uma história que não se resume. Procuro na minha memória frases neutras, uma narrativa que não magoe ninguém e não traia ninguém, e descubro-me a tropeçar entre a saudade e a raiva.

Beirute estava vazia de um modo que perturba o coração. Não vazia de gente, mas vazia do ruído que antes lhe dava sentido. As suas ruelas, que antes fervilhavam de vozes, pareciam conter a respiração, e as fachadas reluzentes refletiam um céu cinzento sem fundo. Está vazia, exceto pelo que permanece na minha memória: das nossas revoltas repetidas com as quais enchíamos as ruas de clamor e esperança, até à explosão de 4 de agosto cujo estrondo permanece presente nos edifícios, nos vitrais das igrejas e nas lojas cingidas por portas de ferro meio cerradas. Cada canto aqui carrega uma marca invisível: uma pequena fissura numa parede, ou a sombra de uma janela cujo vidro já não é o que era.

Caminhava e via ao mesmo tempo duas imagens sobrepostas: a imagem da cidade tal como está diante de mim, e a sua imagem tal como vivia dentro de mim. Na minha memória, estava coroada de risos que desafiavam o cansaço dos dias. A voz da música esgueirava-se por varandas estreitas, misturando-se às vezes com o som de tiros reais, e não sabíamos se era festa ou advertência. O gás lacrimogéneo fazia parte do nosso vocabulário, assim como o amor fazia parte da nossa pequena coragem. Testemunhei nas suas escadarias encontros fugazes, confissões sussurradas e despedidas feitas à pressa por medo de uma notícia de última hora.

Como descrever-lhes o que Beirute significa para os seus filhos? Como explicar uma dualidade evidente: um exílio pesado e uma saudade que não se acalma? Nós que vivemos nela e nos sentimos por vezes estrangeiros a ela, como se fosse uma cidade governada de trás de um vidro espesso que não alcançamos. E ao mesmo tempo, não suportamos a ideia de nos afastar dela, porque ela nos habita como o sal do mar. Digo-lhes que Beirute não é apenas edifícios elegantes e uma praça pavimentada, mas uma memória viva e uma ferida aberta.

Naqueles momentos, senti que era eu a verdadeira turista. Descobria a minha cidade como se a estivesse a conhecer de novo. Cada canto me empurrava para a pergunta: é esta a cidade que conheci, ou é uma versão mais calma, menos ruidosa, mais cansada? Procurava nos rostos uma marca do que foi, um brilho semelhante ao brilho que conhecera quando acreditávamos que o amanhã era possível.

Recordei um dia longínquo em que havia acreditado que estávamos tão perto quanto poderíamos estar de possuir este lugar. Depois vieram os anos em que as portas se fecharam e a praça se tornou numa imagem distante. Hoje, ao atravessá-la sem obstáculos, compreendi que o lugar não se possui — vive-se nele. E que as cidades não regressam como eram. Senti que esta cidade, apesar de tudo o que havia atravessado, não havia perdido a sua capacidade de esperar.

Não lhes expliquei tudo isto. Contentei-me em caminhar com eles como turista que vê uma cidade que não carece de beleza e que aguarda para voltar a viver. Sorria quando tiravam fotografias, e apontava para os pequenos detalhes que o transeunte distraído não nota. E no meu interior, esperava regressar uma terceira vez, não como turista, mas como uma mulher reconciliada com a sua cidade, por longa que seja a espera.

Deixámos a praça. Voltei-me para ela como quem se volta para uma velha casa onde viveu muito tempo. Não me despedi dela, porque a despedida evoca o fim — e compreendi que Beirute é um começo que se repete, que domina a arte de cair e de se levantar, e que deixa aos seus filhos a tarefa de a amar ou de a abandonar.

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