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O Novo Mundo

Uma imagem libanesa que condensa a insolência iraniana

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Por Khairallah Khairallah
Publicado abr 24, 2026 - 04:29

Com o pano de fundo de mais de um milhão de deslocados e os escombros de mais de cinquenta e cinco aldeias e localidades libanesas do Sul, a «República Islâmica» celebrou em Beirute — capital do Líbano — a cerimónia do quadragésimo dia de luto pelo «Guia» iraniano Ali Khamenei, assassinado pela América e por Israel no passado 28 de fevereiro.

O espectáculo desta comemoração revela uma insolência sem paralelo, tanto mais que o embaixador iraniano Mohammad Reza Shibani — declarado persona non grata pelo governo libanês — ocupava a primeira fila, sem jamais ter apresentado as suas cartas credenciais. A sua persistente presença em Beirute não é senão mais uma demonstração do desprezo com que o Irão trata o Líbano e os libaneses, um desprezo que é, na sua essência, de natureza persa, sustentado por um sentimento de superioridade relativamente a tudo o que é árabe na região.

A imagem dos que ocupavam a primeira fila — entre os quais o ministro da Saúde, um dos representantes do Hezbollah no governo — resume por si só a insolência iraniana no Líbano. Ilustra de forma concreta a aposta que a «República Islâmica» não cessa de formular: manter o Líbano sob o seu controlo e transformá-lo numa das suas cartas de negociação.

Esta aposta na carta libanesa remonta ao dia funesto do Verão de 1982, quando as vanguardas dos Guardas da Revolução entraram na cidade de Baalbek. Não foi por acaso que esses Guardas — que haviam atravessado o território sírio com o pretexto de participar no confronto com Israel — escolheram instalar-se num quartel do exército libanês conhecido como o quartel do Xeque Abdallah. Golpear o exército libanês constituía um dos primeiros objectivos da «República Islâmica», representada então pelos seus Guardas.

A imagem da comemoração do quadragésimo dia de Khamenei revela-se assim mais do que significativa. Manifesta, antes de mais, a recusa da «República Islâmica» em aceitar que o Líbano dissociou já a sua trajectória da iraniana. Teerão não consegue reconhecer que o Líbano aspira a existir fora do controlo iraniano directo. Esta cegueira resulta de uma incapacidade para se adaptar às realidades regionais e internacionais que acabaram por transportar a guerra para o interior do próprio Irão, depois de longos anos de êxito sem precedentes na utilização dos seus instrumentos — o Hezbollah libanês em primeiro lugar — para chantagear o mundo e os árabes.

O que começou com a entrada dos Guardas em Baalbek e a sua instalação num quartel do exército libanês, desafiando todas as leis e costumes internacionais, prolongou-se numa campanha iraniana contra a Universidade Americana de Beirute. No Verão de 1982, os iranianos raptaram o presidente da universidade, David Dodge, em Beirute, por intermédio dos seus auxiliares libaneses, e transferiram-no para Teerão. As autoridades iranianas acabaram por libertar Dodge na sequência de diligências empreendidas por Rifaat al-Assad, que procurava então aproximar-se dos americanos e apresentar-se, chegado o momento, como eventual sucessor do seu irmão Hafez.

O Irão conseguiu expulsar os Estados Unidos do Líbano. Saiu vitorioso, de facto, sobre a presença americana no país — sobretudo após o atentado à embaixada americana em Beirute em abril de 1983 e ao quartel-general dos Marines junto ao aeroporto de Beirute, em outubro desse mesmo ano, ataque que infligiu ao exército americano as perdas humanas mais pesadas desde a guerra do Vietname. Duzentos e quarenta e cinco militares americanos perderam a vida.

A campanha iraniana contra a presença americana no Líbano nunca se interrompeu. Não há necessidade de recordar aqui os raptos de americanos em Beirute, nem o assassínio de Malcolm Kerr, presidente da Universidade Americana, em 1984, até ao dia em que Rafik Hariri foi assassinado a 14 de fevereiro de 2005, acontecimento que abriu caminho à imposição de uma tutela iraniana total sobre o país, na sequência da retirada militar e de segurança síria.

Existe uma incapacidade iraniana fundamental para aceitar que o Líbano mudou e que a região mudou com ele. A cerimónia do quadragésimo dia do «Guia» confirma esta incapacidade, que se transformou em pura insolência. O que resta da direcção iraniana não consegue conceber a «República Islâmica» sem um Líbano na posição de Estado vassalo. Há uma recusa de uma realidade que, não obstante, se impõe: o Líbano é capaz de recuperar o seu estatuto de Estado independente e soberano e de se libertar, simultaneamente, da dominação iraniana que o conduziu à catástrofe presente — uma catástrofe que atingiu os xiitas em primeiro lugar, antes de qualquer outro, e que se abateu sobre a terra do Sul, as suas aldeias, as suas vilas e os seus habitantes.

A «República Islâmica» não poderá fugir indefinidamente à realidade internacional e regional. É manifesto que a insolência a que recorreu no Líbano não é senão uma componente desta fuga iraniana nas suas múltiplas dimensões, entre as quais a resposta aos Estados Unidos e a Israel através de agressões contra os Estados do Golfo Arábico.

Nenhum país no mundo pode prolongar indefinidamente a sua fuga à realidade. A realidade é que a «República Islâmica» perdeu todas as guerras que travou à margem da guerra de Gaza — no Líbano, na Síria ou na própria Gaza, que Israel reduziu a escombros ao mesmo tempo que aniquilava a direcção do Hezbollah. A perda da Síria continua a ser a mais grave para o Irão, já que a Síria constituía a ponte para o Líbano. O «Crescente Xiita», que ia de Teerão a Beirute e se estendia em direcção ao Líbano meridional, já não existe.

Em resumo: a insolência não pode encobrir a impotência. Só pode encobrir essa impotência o reconhecimento de que o Líbano deixou de ser um protectorado iraniano, tal como a Síria o foi nos tempos de Hafez al-Assad e de Bashar al-Assad, quando o «Crescente Xiita» ainda vivia e prosperava.

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