

A imagem das bandeiras israelenses tremulando sobre o Castelo de Beaufort é extremamente dolorosa. Tão dolorosa quanto as imagens das ruínas de vilarejos total ou parcialmente destruídos ou de famílias dizimadas. Ela é também tão violenta quanto os vídeos de moradores do sul do Líbano em desespero, tentando salvar o que ainda pode ser salvo antes de novas e impiedosas ondas de mísseis, desafiando a morte para alimentar rebanhos e animais domésticos abandonados por seus donos, gritando sua raiva, sua frustração e seu desamparo diante de uma guerra que nada justificava.
As bandeiras em Beaufort e o insuportável triunfalismo israelense que se seguiu à tomada desse sítio arqueológico estratégico tiveram o efeito de um soco no estômago. Porque relembraram o mecanismo das guerras inúteis em que o Líbano está preso há décadas, encurralado em um ciclo temporal de um filme ruim.
Muitos dos atores continuam sendo os mesmos. Se alguns mudam de rosto e outros se somam ao elenco, o roteiro permanece inalterado e se repete sem fim.
Esse ciclo infernal, iniciado especialmente com o fatídico Acordo do Cairo, serviu invariavelmente aos interesses de atores regionais: dos palestinos aos iranianos, passando pelo triste regime dos Assad na Síria.
As bandeiras fincadas no domingo em Beaufort relembraram de forma cruel junho de 1982, quando os libaneses assistiram ao mesmo espetáculo: as cores israelenses sobre esse local majestoso, consequência direta da guerra dos outros travada em seu território.
Elas funcionaram como um lembrete incômodo: em 44 anos, o Líbano desperdiçou todas as oportunidades que poderiam tê-lo libertado das influências estrangeiras e permitido a construção de um verdadeiro Estado. Ainda hoje, apesar das promessas e das declarações de boa vontade, o Estado continua seguindo a mesma política de hesitações, enquanto a população aspira desesperadamente a vê-lo bater na mesa, dizer “basta” e adotar o conjunto de medidas concretas, políticas, administrativas e judiciais, que lhe permitam recuperar seu poder de decisão e o monopólio da violência legítima.
Três anos após a abertura, pelo Hezbollah, de uma primeira frente de apoio ao eixo ao qual pertence, continua-se apenas sonhando. Três anos perdidos em busca de uma fórmula hipotética para impor o monopólio das armas.
No fim das contas, esse triste panorama apenas reforça os sentimentos contraditórios surgidos diante do horror que passou a fazer parte do cotidiano desde que o Hezbollah decidiu vingar a morte do iraniano Ali Khamenei, embora soubesse perfeitamente qual seria a resposta israelense. Sabia muito bem, após o acordo de cessar-fogo de novembro de 2024, que Israel transformaria o sul em terra arrasada em caso de um novo ataque contra seu território e que “levaria o Líbano de volta à Idade da Pedra”.
O Estado libanês não ignorava nada dessas intenções. Até mesmo os jornalistas haviam sido informados sobre o assunto para repercutir os repetidos alertas de Tel Aviv, transmitidos por canais diplomáticos às autoridades libanesas e também aos líderes dessa organização.
Os libaneses encontram-se, portanto, divididos entre dois sentimentos contraditórios: seus corações sangram diante de vilarejos que já existem apenas na memória daqueles que ali construíram suas vidas.
Mas, ao mesmo tempo, temem que a guerra em curso termine sem uma solução definitiva.
Que um novo cessar-fogo mergulhe novamente o Líbano em um estado permanente de guerra suspensa, de status quo mortal, e o coloque outra vez sob a influência do Hezbollah...
Que um acordo regional seja firmado em detrimento do país...
Que a Hidra representada pelo regime dos aiatolás sobreviva ao acordo atualmente em negociação...
Longe das análises geoestratégicas sobre os desafios ligados ao conflito regional em andamento, é sobre seu próprio futuro, em um país hoje em frangalhos, que eles concentram suas atenções.
Ainda que seja apenas para conseguir romper esse ciclo temporal.
É isso que alimenta o dilema, por vezes carregado de culpa, com o qual se confrontam: ao desejo de ver esse horror terminar o mais rápido possível se opõe o desejo de ver o Hezbollah completamente neutralizado, custe o que custar.
Desde 8 de outubro de 2023, com a abertura da frente sul em apoio ao Hamas em sua guerra contra Israel, as máscaras caíram. O desenrolar dos acontecimentos mostrou que a única equação viável para a sobrevivência do Líbano é que o Hezbollah deixe de existir em sua forma atual.
Os esforços constantes desse grupo para atribuir a Tel Aviv intenções belicistas e expansionistas, a fim de justificar o inferno no qual mergulhou o Líbano duas vezes em apenas três anos, estão longe de ocultar sua verdadeira natureza de vassalo executor do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica e o pouco caso que faz dos interesses do país.
Quanto à intimidação exercida contra seus críticos, por meio de ameaças e acusações de traição, ela apenas faz crescer a oposição dos libaneses ao grupo, enquanto as autoridades adotam a política da avestruz, cujos efeitos alimentam justamente aquilo que afirmam querer evitar ao mencionar possíveis distúrbios internos.
Pois esse apagamento do Estado apenas intensifica a polarização interna e aprofunda ainda mais o abismo entre uma minoria libanesa que deseja manter o país na órbita iraniana e uma maioria que busca libertar-se dela sob a liderança de um poder central infelizmente prisioneiro de seus próprios temores.
As ameaças inaceitáveis do Hezbollah contra as autoridades que veem nas negociações diretas com Israel a única saída para o país certamente aumentam o isolamento dessa organização no cenário interno, mas ao mesmo tempo confirmam a urgência de que o Estado assuma plenamente seu papel de regulador da ordem pública e detentor exclusivo do poder de decisão.
Essa urgência impôs-se por si mesma devido à política de adiamentos e apagamento adotada durante um ano pelo poder em exercício. Um poder que, no entanto, havia se comprometido perante a população e a comunidade internacional a recuperar o monopólio da violência para evitar que o país fosse arrastado para novas aventuras devastadoras, primeiro com a eleição de um novo presidente, depois com a formação do governo de Nawaf Salam e, pela terceira vez, com o cessar-fogo de novembro de 2024.
A urgência se impôs porque, sem isso, os libaneses continuarão, contra a própria vontade, como personagens de um filme ruim cujo rumo dos acontecimentos não conseguem alterar, devido a uma liderança que demonstra diariamente não possuir os meios e, sobretudo, a coragem necessária para sustentar suas decisões.
Nada do que ainda possa acontecer pode ser pior do que o horror vivido hoje por milhares de famílias.