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Olhar pousado

78 anos, e a Nakba continua…

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(Foto AFP)
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Por Rami Rayess
Publicado mai 20, 2026 - 10:03

Comemorar a Nakba palestina como um ritual anual no qual se revisita a memória da desapropriação daquela terra de seus habitantes originários e de sua colonização pela entidade israelense não transmite verdadeiramente que a Nakba continua em curso, quando de fato continua. Como se esse povo já não tivesse sofrido o suficiente com deslocamentos, destruição e derrotas, os próprios fatos agora são transformados em perguntas que parecem legítimas aos olhos da opinião pública, embora estejam, em sua essência, muito distantes da realidade.

Entre essas perguntas, amplamente difundidas na mídia ocidental, e nas quais qualquer convidado que se atreva a defender a causa palestina acaba enredado, está a seguinte: “Você reconhece o direito de Israel de existir?” Talvez tenha sido a relatora especial da ONU para os Territórios Palestinos, Francesca Albanese, quem tratou dessa questão de maneira mais perspicaz, ao responder: “Ninguém pede à Itália, à Espanha ou a qualquer outro Estado do mundo que justifique seu direito de existir!”

Naturalmente, a pergunta esconde um objetivo completamente diferente: desviar a atenção dos direitos palestinos, sugerir que Israel está eternamente do lado dos oprimidos e, sobretudo, enterrar a história ligada à Nakba de 1948 e às expulsões forçadas que a precederam, por meio das quais centenas de milhares de palestinos foram arrancados de suas casas, propriedades e meios de subsistência, para que o movimento sionista pudesse erguer seu projeto de Estado judeu em terras palestinas.

A mesma pergunta persegue ainda outro objetivo: desviar o olhar do que Israel realizou em 1967 ao expandir sua ocupação para novos territórios árabes, especialmente Jerusalém Oriental, a Cisjordânia, as Colinas de Golã sírias e o Sinai egípcio. Embora Israel tenha se retirado do Sinai sob os Acordos de Camp David concluídos com o Egito no final da década de 1970, anexou formalmente o Golã e não apenas se recusa a qualquer retirada da Cisjordânia, núcleo do que restaria do tão prometido Estado palestino, como continua implantando assentamentos em toda a região, criando fatos consumados no terreno que tornam impossível o projeto de Estado, além das impossibilidades políticas, militares e jurídicas que já pesam sobre ele.

Alguns, particularmente entre os Estados simpáticos a Israel, dão pouca importância ao fato de que não existem fronteiras oficiais para um Estado que, poucos minutos após proclamar seu “nascimento” em 1948, obteve reconhecimento internacional das nações mais poderosas do mundo. Deixar deliberadamente vaga a questão das fronteiras não é, evidentemente, um descuido político, mas uma escolha premeditada, intimamente ligada aos projetos expansionistas sionistas que não demonstram sinais de parar nas fronteiras de 1948, nem talvez mesmo nos territórios adicionais anexados após a guerra de 1967.

É verdade que a “comunidade internacional” fracassou, ao longo de décadas, em obrigar Israel a respeitar o projeto dos dois Estados. Ainda assim, até mesmo essa ampla formulação praticamente desapareceu do discurso político internacional, sobretudo do discurso americano, dado o peso e a posição global dos Estados Unidos e sua relação estratégica inquebrável com Israel. Esse amplo recuo político permitiu que Israel retomasse seus empreendimentos beligerantes e persistisse, de forma plenamente deliberada, na rejeição de todas as propostas de acordo, desde Madri (1991) até a Iniciativa de Paz Árabe adotada na Cúpula de Beirute (2002), que consagrou o princípio de terra por paz. Quanto aos Acordos de Oslo (1993), a conduta política israelense busca esvaziá-los de qualquer substância, de modo que nenhum ganho real seja concedido ao povo palestino.

A supremacia de poder israelense, respaldada pelo apoio ininterrupto dos Estados Unidos, permitiu que Israel escapasse de qualquer responsabilização apesar de décadas de assassinatos deliberados, deslocamentos e extermínio, cujo ápice foi alcançado em Gaza e no Líbano. O mandado de prisão emitido contra o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por mais significativo que seja em termos jurídicos e simbólicos, permaneceu letra morta: o líder viajou ao exterior em diversas ocasiões desde sua emissão, evitando cuidadosamente o número limitado de países que declararam que procederiam à sua prisão caso ele atravessasse seus territórios.

No 78º aniversário da Nakba, a Palestina parece estar diante de uma encruzilhada histórica. A resistência armada à ocupação recebeu como resposta o genocídio; a negociação política foi bloqueada pela intransigência deliberada de Israel e chegou a um beco sem saída absoluto pela ausência de qualquer disposição israelense de avançar nessa direção. A divisão interna palestina agrava ainda mais essa situação já difícil, uma divisão sobre escolhas estratégicas e não sobre questões secundárias ou táticas.

Ainda assim, é impossível não reconhecer que todas as tentativas de contornar a questão palestina por meio de acordos regionais, seja através das sucessivas ondas de normalização das quais Israel é, antes de tudo, o principal beneficiário, seja pela tentativa de reduzir essa questão a um mero problema de propriedade ou economia, fracassaram. Tornou-se evidente que a estabilidade regional só poderá ser alcançada através de uma solução justa e duradoura para a questão palestina.

A Nakba, sem dúvida, continua…

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