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Religião

“O amor à pátria”, o testamento espiritual do patriarca Howayek (2/4)

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O patriarca Howayek durante uma distribuição de pão, doação dos libaneses do Egito às populações afetadas pela Grande Fome do Monte Líbano, por volta de 1915. (Autor anônimo. Imagem colorizada por IA via Wikimedia Commons)
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Por Fady Noun
Publicado jul 17, 2026 - 19:10

Na grande tradição maronita, o patriarca Howayek dirigiu à sua comunidade, ao longo de todo o seu patriarcado, “mensagens” anuais. A mais célebre delas é, com razão, a que escreveu em 1930, sob o título “O amor à pátria”. Esse texto constitui seu testamento espiritual. No crepúsculo de sua vida, ele morreria aos 88 anos, revela ali, entre outros aspectos, sua obsessão pastoral pelo Líbano, país que ajudou a fazer nascer e cuja ausência de espírito cívico entre as classes dirigentes parecia já ter alcançado proporções alarmantes.

O livreto é uma apaixonada lição de civismo, que começa com o amor à pátria e termina com infinitas e cautelosas recomendações sobre a justiça distributiva, elemento essencial da justiça social tão cara a Leão XIII.

Recorrendo à etimologia latina da palavra pátria, o patriarca escreve: “Os ocidentais têm razão ao escolher o termo Patria, derivado de Pai, para expressar aquilo que chamamos em nossa língua de al-Watan, como se o amor do homem por sua pátria fosse o mesmo que seu amor natural por seus pais.”

Na mais fiel tradição de São Tomás de Aquino, o patriarca Howayek destaca que, assim como se deve honrar os pais, também se deve piedade e devoção à pátria.

Mas, ao ler a mensagem, torna-se evidente que a apaixonada defesa do patriarca Howayek reflete as dores do nascimento de uma nação, vistas pelo espírito de um homem preocupado em corrigir os defeitos de sua fase infantil e conduzi-la ao pleno sentido do serviço público.

Por que o patriarca Howayek sentiu a necessidade de dirigir aos maronitas uma exortação dessa natureza apenas dez anos após o nascimento do Grande Líbano? Não é difícil imaginar. Em uma nação em formação, que saía de sua pré-história e dava seus primeiros passos na história, esse amor precisava ser compreendido, interiorizado e amadurecido.

Partindo de considerações elementares sobre o amor à pátria, o patriarca desenvolve uma longa e insistente lição de civismo. “É evidente que os responsáveis não correspondem ao seu desejo de cidadania”, confirma a irmã Marie-Antoinette Saadé, superiora da Congregação das Irmãs Maronitas da Sagrada Família.

“A consideração da situação atual, das divisões e das misérias, oprime a alma com desânimo. Muitas vezes falamos de desespero diante das reformas que precisam ser feitas, o que gera indiferença, uma disposição oposta à virtude do amor patriótico. Essa virtude implica o verdadeiro desejo de ver nossa pátria mais gloriosa, mais civilizada e mais ligada a Deus”, escreve o patriarca.

Uma pátria “mais civilizada”

“Mais civilizada.” A palavra está lançada. Em sua mensagem, o patriarca Howayek insiste na necessidade de desenvolver entre a elite libanesa o sentido do interesse geral. Exorta aqueles que aspiram a cargos públicos a não aceitarem funções incompatíveis com suas competências reais. Como diante de um espelho, suas exortações refletem as assustadoras deformações e os vícios da sociedade política e econômica dos primeiros anos do país.

Candice Raymond: “Missão e identidade”

Por que tanta anarquia? A resposta para essa pergunta encontra-se, em parte, em um estudo publicado em 2013, Vida, morte e ressurreição da história do Líbano ou as vicissitudes da fênix, da historiadora Candice Raymond (IFPO).

A autora escreve: “Após a Primeira Guerra Mundial, quando a questão territorial foi colocada, os defensores da criação de um Estado libanês desenvolveram uma argumentação ao mesmo tempo econômica e histórica para obter a incorporação ao Monte Líbano, que desde 1861 gozava do estatuto de sanjaco autônomo, de diversos territórios periféricos (Trípoli e Akkar, ao norte, o vale do Bekaa, a leste, Saída e Jabal Amel, ao sul) e, sobretudo, de Beirute, que desejavam transformar na capital do novo Estado.

À retórica da luta permanente contra a opressão veio então se substituir uma teleologia do poder estatal que distingue a historiografia comunitária maronita da historiografia libanista maronita.

Esta última inverte, de fato, a relação entre a comunidade maronita e o território libanês. Já não é a comunidade que, por meio de sua luta pela liberdade, confere sua identidade particular ao território que ocupa, mas é esse território que, em razão de suas especificidades morfológicas e geográficas, impõe uma missão e uma identidade aos seus habitantes.

O paralelismo geográfico entre o litoral marítimo e a montanha libanesa encontra seu equivalente em uma dupla funcionalidade do território: a do Líbano da troca, entre o mar e o continente, entre o Oriente e o Ocidente, e a do Líbano refúgio, santuário da liberdade e da independência.

O Estado passa então a fincar suas raízes nas experiências políticas que realizaram a unidade entre essas duas missões, enquanto a nação encontra nelas o fundamento de sua identidade específica.”

Essas linhas são fundamentais. A história do Líbano continua sendo um ponto fraco de nossa educação nacional. Os libaneses de 1920, assim como os de 2026, ainda não haviam tomado plena consciência da “inversão” apontada por Candice Raymond.

A mensagem do patriarca Howayek tinha, sem dúvida, o objetivo de estabelecer a ligação entre essa mudança e a necessidade de um novo sistema de valores, entre a passagem de uma responsabilidade voltada apenas para si para uma responsabilidade por si mesmo e pelo outro. Ou, em termos mais filosóficos, a passagem da pré-história do Líbano para sua entrada na história.

Essa passagem corresponde ao “Líbano-mensagem”, de João Paulo II, para o “Líbano-missão”, desenvolvendo uma imagem que hoje todos os libaneses compreendem. O Grande Líbano foi, na realidade, um verdadeiro “envio em missão”, e não uma “feira do lucro” ou uma “arena de disputas”, como infelizmente muitos libaneses da época parecem tê-lo vivido.

Leia também:

O patriarca Howayek, profeta do viver juntos (1/4)


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