
O que diz a guerra contra a memória

Quando ia ao Canadá, irritava-me profundamente a propaganda israelita que apresentava o falafel, o taboulé e o homus como parte do património tradicional judeu e israelita. Era uma apropriação de tradições culinárias que pertencem ao Bilad al-Cham há séculos, e não apenas o roubo de um legado : era a confiscação de uma identidade e de uma memória.
Nenhum povo na história investiu na memória como o fizeram os judeus após o Holocausto. Construíram um dos sistemas de preservação memorial mais poderosos do mundo, convertendo a memória num dispositivo total : material, pedagógico e jurídico, concebido para ser indelével. Catalogaram os efeitos pessoais em museus, onde foram reunidos milhares de objectos que haviam pertencido às vítimas : os sapatos, as malas com os nomes dos seus donos inscritos, os óculos, os cabelos tosquiados aos prisioneiros, as roupas e os pequenos objectos do quotidiano (pentes, relógios, anéis) ; tudo isso para atestar que as vítimas eram indivíduos reais, e não meros números.
Recorreram aos arquivos e aos documentos, registos de deportações ferroviárias, listas nominativas, decretos oficiais nazis, cartas e diários íntimos, para transformar a memória numa prova jurídica e histórica irrefutável. Preservaram os locais do crime, erigiram memoriais, registaram os testemunhos dos sobreviventes em som e imagem, e integraram tudo isso nos programas escolares, produzindo filmes e obras literárias. Transformaram a memória numa experiência sensível e cultural, e protegeram-na pela lei, e não pelo sentimento.
Quem sabe tudo isto sobre o poder e a importância da memória pode fingir ignorar o que significa destruí-la nos outros? Não é precisamente porque sabem o que destruir significa que «destroem» tudo?
Se a memória é o que dá ao ser humano o seu nome, a sua história e o seu direito a dizer «eu estive aqui», apagá-la é o caminho mais curto para reduzi-lo a um número, por parte dos mesmos que outrora combateram para que as vítimas deixassem de ser números e recuperassem os seus nomes.
A destruição de aldeias e cidades do Sul do Líbano vai assim muito além de uma operação militar, e não pode ser reduzida à linguagem das cifras : o número de edifícios arrasados, o custo das perdas. O que se passa é muito mais profundo. Estamos perante uma tentativa organizada de golpear aquilo que vale mais do que a pedra : a memória.
Quando a grande mesquita, as casas patrimoniais e até os cemitérios são arrasados, a intenção não se limita à supressão de referências : é o próprio testemunho que se quer eliminar. Esta destruição não tem nada de aleatório. Constitui uma agressão sistemática contra a vida enquanto tal : as casas, as escolas, as mesquitas, os mercados, e tudo o que atesta que seres humanos viveram aqui, amaram, aprenderam, construíram um sentido para a sua existência, e aqui foram também sepultados.
É um acto de desenraizamento declarado : desenraizar os homens dos seus lugares, e desenraizar os lugares da sua memória.
É o apagamento de uma biografia colectiva : a de gerações que viveram e aprenderam, de vozes de alunos, de professores portadores de uma vocação, de uma história local que se foi formando em silêncio ao longo de décadas e séculos. E quando uma mesquita ou uma casa patrimonial é destruída, a perda não se mede no betão, mas na história, no sentido e no sentimento de pertença que aquelas paredes albergavam.
Ao contrário do que se costuma pensar, a memória não é uma ideia abstracta. Está ligada ao lugar : à pedra, ao santuário e ao túmulo, à escadaria e ao bairro, aos nomes que se repetem de geração em geração. Por isso, destruir o lugar é, na sua essência, destruir a memória.
A história ensina-nos que os povos que vivem uma relação instável com a terra, como é o caso dos israelitas na Palestina ocupada, tendem a reformatar o lugar em função da sua própria narrativa. Não apenas através da construção, mas sobretudo através do apagamento. Porque eliminar os vestígios do outro não é nunca fortuito : é participar numa luta pela narrativa. Quem esteve aqui? E quem tem o direito de dizer «esta terra é minha»?
Assistimos a um padrão de violência que ultrapassa a guerra para atingir algo mais profundo : uma agressão contra o ser humano, contra a sua memória, contra os valores que tornam possível a vida em comum. Um colapso moral que redefine a relação com o outro com base única na força e na violência.
Os ataques a sítios civis constituem uma violação manifesta dos princípios do direito internacional humanitário. A destruição de bens culturais e religiosos só pode ser qualificada em termos de violações graves, que atingem o nível de crimes de guerra segundo as normas internacionalmente reconhecidas.
Seguem-se os actos de pilhagem relatados pelos próprios meios de comunicação israelitas : soldados que entram nas casas e saem com efeitos pessoais, jóias, e até fotografias de família. Tais actos não podem ser reduzidos a mero pormenor.
A que profundidade de degradação moral é preciso ter chegado para que a fotografia de uma família, uma colcha ou uma recordação íntima se torne um espólio de guerra? Não se trata aqui de deslizes individuais, mas de um comportamento que revela uma mentalidade : tratar o lugar como um vazio, e os seus habitantes como se nunca tivessem existido. O direito denomina este acto «pilhagem» (pillage), expressamente proibida e constitutiva de um crime de guerra nos termos das normas do direito internacional humanitário e das Convenções de Genebra, porque não diz respeito apenas aos bens, mas à dignidade dos civis e aos seus direitos fundamentais.
A fotografia de família não é um objecto roubado : é um documento de identidade. O seu roubo vai além do plano material para se tornar uma violação da vida privada, confluindo assim com a violação do direito à dignidade humana.
A mensagem, aqui, é inequívoca : não queremos apenas a vossa terra, queremos apagar os vossos vestígios sobre ela.
O golpe mais temível de todos diz, porém, respeito ao desaparecimento dos limites prediais, ao apagamento de referências e à destruição dos registos de propriedade e dos documentos cadastrais. O dano converte-se então numa ameaça a longo prazo sobre os direitos, de uma gravidade que não é inferior à do próprio bombardeamento. A destruição transforma-se num problema jurídico para o futuro : quem possui o quê? Onde começa a propriedade e onde termina? É um trabalho de sapa e um apagamento dos direitos cívicos e da propriedade privada, como se a guerra levada a cabo pelos israelitas não se contentasse com o dano imediato, mas se prolongasse para semear contenciosos duradouros no seio da própria sociedade.
Logo que o ataque à memória se afirma como um padrão recorrente : ataque às infra-estruturas civis, destruições em larga escala sem necessidade militar demonstrável, pilhagem sistemática, já não falamos de simples excessos, mas de actos que se inscrevem no quadro dos crimes contra a humanidade. E a questão, neste ponto, não é apenas técnica ou jurídica : é moral. Porque os valores que supostamente devem regular a conduta da guerra, mesmo nas suas circunstâncias mais extremas, desmoronam-se no momento em que o civil, a sua memória e os seus bens se tornam um alvo legítimo.
No entanto, estas tentativas esbarram numa verdade fundamental : a memória não se apaga facilmente. A pedra pode ser quebrada, mas é difícil arrancar-lhe o sentido. A memória assemelha-se decerto ao vidro, as suas fissuras resistem à reparação, mas também não desaparece por completo. Permanece nas pessoas, na língua, na saudade, e no próprio acto de reconstruir.
A questão não reside apenas no que é destruído, mas na forma como respondemos. Repetir fórmulas feitas como «reconstruiremos melhor do que antes» não basta ; pode até ser uma forma de fuga. A verdadeira reconstrução começa pelo reconhecimento da perda : há uma fractura real, há o que não pode ser inteiramente reparado, há algo de insubstituível que se perdeu.
É por isso que o que o Sul precisa hoje não é apenas reconstrução, mas a protecção da sua memória : documentar o que foi destruído e registar as violações, preservar os nomes e as provas, redesenhar os mapas e consolidar os direitos por via jurídica, salvaguardar as narrativas e perseguir os responsáveis nos quadros internacionais.
Porque a batalha, em definitivo, não incide apenas sobre a terra, mas sobre o sentido dessa terra.
E quem consegue proteger a sua memória consegue perdurar.