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Economia

A Síria entre desafios e oportunidades: segurança, reconstrução e reintegração (2/4)

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By Sergio Safadi
Published dez 8, 2025 - 13:57

No artigo anterior, examinamos os diferentes recursos econômicos da Síria. Graças à riqueza do solo e à sua localização estratégica, Damasco possui um potencial econômico significativo, ainda pouco explorado. Além disso, a queda do regime de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, a ascensão de Ahmad el-Chareh ao poder, a suspensão das sanções dos Estados Unidos e da União Europeia, e a realização de uma cúpula sírio-saudita em julho de 2025 abriram caminho para uma dinâmica de reconstrução e para a reintegração do país no mundo árabe e no comércio internacional.

Mas nem tudo é simples na Síria pós-Bashar al-Assad. Muitos desafios ainda precisam ser enfrentados.

Segurança

O primeiro obstáculo para o novo governo continua sendo a segurança. Após mais de 13 anos de guerra civil, marcada por confrontos entre facções comunitárias e étnicas, o país ainda vive sob tensão, especialmente no litoral e em Sweida. A isso se somam os frequentes incidentes na fronteira com o Líbano envolvendo grupos ligados ao Hezbollah, além dos bombardeios israelenses.

O governo vem consolidando gradualmente seu poder e tenta restabelecer a ordem em todo o território. O caminho, porém, é longo. Sem avanços duradouros na segurança, muitos investidores pensarão duas vezes antes de apostar no país.

Tudo precisa ser reconstruído

O FMI estima que cerca de 50% das moradias da Síria foram destruídas ou precisam urgentemente de reformas. Além disso, quase metade da população está fora do país. Com o retorno dos deslocados, a demanda por habitação deve aumentar ainda mais.

Grande parte da infraestrutura também foi devastada: fábricas, hospitais, estações de bombeamento de água, usinas elétricas, poços, refinarias de petróleo — estruturas essenciais para qualquer esforço de reconstrução.

Os investimentos dos países do Golfo buscam suprir essas lacunas e ajudar a reerguer o país, mas anos serão necessários até que os novos meios de produção estejam totalmente operacionais. No curto prazo, o processo de reconstrução deve gerar cerca de 200 mil empregos, segundo o Banco Mundial, além de atrair bilhões de dólares que reforçarão as reservas em moeda estrangeira do Banco Central da Síria.

Grandes desafios econômicos estruturais

Depois de mais de 13 anos de guerra civil, a economia síria está em ruínas. O PIB caiu de cerca de US$ 60 bilhões em 2010 para pouco mais de US$ 20 bilhões em 2022. Em 2018, a ONU reclassificou o país: de economia em desenvolvimento (categoria de Índia, México ou Indonésia) passou a ser considerado de baixa renda, ao lado de Afeganistão, Burkina Faso e Angola. Ainda segundo a ONU, quase 90% da população vive abaixo da linha da pobreza, com menos de dois dólares por dia.

A libra síria perdeu cerca de 99% do valor: em 2010, um dólar valia 47 libras; no outono de 2024, chegava a quase 22 mil. Desde a queda de Assad, a moeda se recuperou parcialmente, aproximando-se de 11 mil por dólar. No entanto, o Banco Central dispõe de apenas US$ 200 milhões em reservas estrangeiras, o que dificulta enfrentar um novo choque cambial.

Por outro lado, a instituição teria cerca de 26 toneladas de ouro — cerca de US$ 3 bilhões, considerando o preço de US$ 3.700 por onça. Esse ouro poderia ser usado como garantia para liberar linhas de crédito vitais ao país.

A Síria deve ainda cerca de US$ 23 bilhões a vários credores, o equivalente a 115% do PIB. A maior parte desse valor é devida ao Irã (US$ 17 bilhões) e à Rússia (US$ 1,2 bilhão). O serviço dessa dívida consome quase 30% do orçamento nacional — recursos que poderiam ser destinados à reconstrução e aos serviços públicos.

O governo atual considera não pagar a dívida com Irã e Rússia, classificando-a como “dívida odiosa”, por ter sido contraída pelo regime Assad sem o consentimento e sem o benefício da população. Embora esses recursos tenham sido usados para comprar armas e combustíveis destinados à repressão interna, o direito internacional não estabelece um mecanismo claro para lidar com dívidas odiosas. Um calote parcial ou total confrontaria o princípio da “sucessão de Estados”, segundo o qual um novo governo herda tanto os ativos quanto as obrigações do anterior.

A necessidade de um arcabouço institucional sólido

A reforma das instituições públicas, o combate à corrupção e o fortalecimento da governança e da transparência são essenciais para recuperar a confiança de cidadãos e investidores. Sem um Estado de direito confiável, qualquer iniciativa econômica corre o risco de fracassar.

O fortalecimento das instituições judiciais, administrativas e econômicas é indispensável para colocar a Síria numa trajetória de crescimento sustentável. Também será fundamental avançar em reformas que permitam a privatização da economia. Durante o regime Assad, o Estado controlava grande parte dos meios de produção. Privatizar setores-chave e ampliar a concorrência é crucial para estimular a inovação e dinamizar o mercado.

Reintegração social e gestão dos fluxos migratórios

Milhões de sírios foram deslocados internamente ou buscaram refúgio no exterior. O retorno deles é um desafio tanto social quanto econômico e precisa ser acompanhado de programas de integração. Sem isso, a volta em massa pode gerar novas fraturas sociais, tensões comunitárias e prolongar a vulnerabilidade das populações, comprometendo os esforços de reconstrução.

Os desafios que a Síria enfrenta são numerosos e complexos, mas não intransponíveis. Segurança, reconstrução, estabilidade econômica, reintegração social e reformas institucionais precisam avançar de forma coordenada para criar um ambiente estável e atraente. Se conseguir superar esses obstáculos, a Síria poderá construir uma paz duradoura e aproveitar seu enorme potencial econômico em benefício do povo sírio e de toda a região.

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